Mês e meio atrás, pouco mais, pouco menos, Thio Therezo foi chamado por uma grande emissora (que eu não nomeio aqui, que bobo não sou...) para uma conversa. Volta e meia, ele é chamado a assessorar a equipe de produção dos programas de entretenimento dessa emissora, quer dizer, ele é convidado a dar o seu pitaco em qualquer um dos programas.
Estavam
eles atrás de ideias e, de falta de ideias, o Thio Therezo não sofre desse mal.
Reunião, todos a postos, café tomado, as usuais conversas triviobanais
introdutórias já feitas, piadinhas e agora é sério, vamos discutir.
A
primeira proposta de matéria sugerida pelo Thio vinha com o símbolo da leveza.
Que tal falar sobre aqueles papais noéis de ocasião? Daquele cara que padece o
ano todo com a aposentadoria pífia e que no final do ano vira um papai noel de
shopping? “Mas tem que ter estorinha...” o Thio falou. “... estorinha, como
assim?” perguntaram. É, estorinha. O repórter escolhe um desses caras e o
acompanha durante o dia todo, a viagem de trem até o bairro nobre, faz uma
entrevista enquanto ele se prepara para viver o papai noel. Tem que ter close,
viu? insistiu o Thio, mostrar as rugas do tempo, mostrar a tristeza que se
transforma em sorriso quando ele vê uma criança, e o papai noel tem que dizer
que essa é a sua melhor recompensa: o sorriso de uma criança... Close nessa
hora, viu? Se ele parecer emocionado, olhos umedecidos, melhor ainda! Mas essa
frase tem que aparecer, afinal é Natal! Todos anotaram as observações e o Thio
fez uma pausa.
Pra uma
segunda matéria, rapidez. É preciso que um repórter acompanhe o ritmo frenético
de uma consumidora que tem apenas algumas horas pras todas as suas compras de
Natal na 25 de março. “Estorinha aqui também?” perguntaram. Sim, estorinha,
sempre estorinha... Pra essa matéria, talvez um pouco de humor, a câmera
acelerada atrás da compradora, entra na loja, sai da loja, atravessa a rua,
tomba com outros compradores na rua superlotada, deixa cair pacotes, e o
repórter esbaforido atrás... “Ah, precisamos de um que tenha fôlego”, lembrou
um dos participantes da reunião. “Não”, Thio Therezo retrucou, “se ele se
mostrar cansado e sem fôlego, desesperado atrás da acelerada compradora, a
matéria funciona melhor, muito melhor. Os pequenos detalhes é que importam”. Ah!
e lá vão eles anotarem a dica. Mas, o Thio enfatizou, o importante é mostrar
sentimento, os personagens têm que ter nome, voz. Chorar, talvez? “Não nessa
matéria”, Thio argumentou. É claro que close em pessoas chorando aumenta o
ibope, é sempre bom explorar isso, principalmente nas matérias noturnas, que
pegam os telespectadores cansados e estressados. Mas nessa estorinha, não...
toque de humor, sim...
Exatidão,
a palavra chave da terceira matéria proposta pelo Thio Therezo. É claro que o
apresentador poderia dizer simplesmente: “o preço do perú nesse Natal está
10,95% mais caro do que no ano passado” e pronto, a informação já está dada.
Mas qual a graça? Nosso papel é entreter, e notícia é entretenimento! A matéria
então deve começar com o repórter na cozinha da dona Nicéia dizendo: “todo ano,
a dona Nicéia prepara o seu delicioso perú para a ceia de Natal, não é mesmo,
dona Nicéia?” e dona Nicéia para de mexer na panela e responde, olhando para a
câmera: “é, sim, eu preparo o perú todo ano, com amor e carinho para os meus netos...”.
Close na cara da dona Nicéia pra enfatizar o amor que ela sente pelos netos,
mostrar sentimentos, afinal é Natal! “E esse ano não será diferente, não é
mesmo, dona Nicéia?” o repórter pergunta e recebe como resposta uma cara
enigmática. Corte de imagem. Agora, na imagem aparece o repórter em primeiro
plano com a dona Nicéia ao fundo debruçada sobre um frigorífico de supermercado
remexendo as peças de perú expostas por lá. O repórter fala baixinho como se
confidenciasse algo somente aos milhões de telespectadores sem que a dona Nicéia
escutasse: “A dona Nicéia está agora ali”, o repórter aponta,” atrás da gente,
escolhendo o perú congelado pra ceia, mas o que será que está acontecendo? O
que será que passa nesse exato momento na cabeça de dona Nicéia? Vamos até lá?”
ele convida o telespectador a acompanhá-lo, cara de expectativa do repórter,
até ele está curioso para saber o que estaria pensando dona Nicéia. Ele chega
perto e pergunta à dona Nicéia: “desculpe atrapalhar, mas eu estava observando
a senhora... há algo errado?” Ela ainda mexe um pouco no refrigerador antes de
se voltar ao repórter e falar como quem fala pro espaço: “... é o preço... tudo
tão caro...” “Está muito caro, dona Nicéia?” o repórter tem a cara de surpreso
e preocupado. “Sim, muito caro... muito...essa crise...” close na cara desolada
de dona Nicéia. E o Thio Therezo ia descrevendo, em detalhes, como deve ser o
enquadramento, as falas, em que momento o close funcionaria melhor... e todos
anotando cuidadosamente as suas dicas. A matéria termina com o apresentador do
jornal dizendo: “a dona Nicéia está certa, o preço do perú nesse Natal está
10,95% mais caro do que no ano passado” e olha para a sua companheira de
bancada que retruca: “mas temos a certeza de que os netos da dona Nicéia não
ficarão sem o seu delicioso perú de Natal nesse ano...” Os dois otimisticamente
sorriem para a câmera e um deles quebra o momento singelo dizendo: “Em
instantes, carro desgovernado mata quinze pessoas perto de centro comercial”.
Fizeram
uma pausa para almoço, ainda faltavam três matérias para fechar a reunião.
Enquanto almoçavam, o Thio Therezo continuava a fazer sugestões. Uma das matérias
tinha que ser sobre o emprego temporário e de como as pessoas se apegavam a
eles para tentar se efetivar depois. E ali, no restaurante, o Thio identificou
um par de funcionários visivelmente temporários, “vocês já podem inclusive achar
um personagem para a estorinha a ser contada”, completou. “Esperança, é a
palavra chave?” alguém perguntou, ao que o Thio respondeu: “Não, visibilidade,
visibilidade é melhor para descrever isso...”. Visibilidade, todos anotaram em
seus caderninhos...
E chegou
a sobremesa, e talvez animado pela grande receptividade às suas propostas, o
Thio Therezo arriscou sugerir uma matéria que há muito gostaria de ver, mas nem
tudo correu tão bem assim após ele expor sua ideia. Isso, porém, deixaremos
para a segunda parte na próxima semana, que senão esse texto vira um textão...
Lançamento de Livro. O meu novo livro, "Pigarreios", será lançado em Portugal no dia 11 de janeiro, na Chiado Café Literário, Av. da Liberdade, 180 D, em Lisboa. Em março, lançamento em São Paulo. Todos estão convidados!!!
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