quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Chuvas - III


[[Esse é mais um conto de meu primeiro livro, “Contos que conto”, que estou republicando aqui]].

Chuvas - Trovoada

Naquelas noites chuvosas, eu me lembro bem agora, minha mãe vinha me ver antes de dormir parte porque ela sabia, ela tinha destas coisas de saber sempre o que se passava comigo, que eu a esperava acordado e parte porque eu achava, tenho a certeza agora, que ela se sentia bem naquele quarto.
            Estas lembranças estão claras em minha mente, eu era muito pequeno então e não sei quantas vezes isto aconteceu. Para mim foram infinitas, a mesma cena a se repetir naquelas infinitas e intermináveis e terríveis noites chuvosas.
            Mamãe atravessava a porta a sorrir enquanto uma trovoada soava ao longe; papai achava que tudo isto era frescura minha e que ela só ia me estragar me tratando assim. Papai não sentia, não percebia as coisas como mamãe percebia.
            Porém, quando mamãe atravessava a porta, trovoada, eu sabia que iríamos ser transportados prá um outro mundo onde eu não seria mais um pequeno filho dela; seríamos apenas dois sentimentos a nos apoiarmos e a nos confortarmos, eu a temer a chuva que caía e as trovoadas e o barulho que elas fazem e ela a se esconder naquele quarto, a fingir que não existia mais nada do outro lado da porta que ela sempre atravessava sorrindo. Como se ela esquecesse, na mesinha do lado de fora de meu quarto, todo o sofrimento que pra ela era viver.
            Eu era pequeno naquela época e só agora consigo perceber tudo isto. E nem percebia que, a cada vez que ela vinha, ela vinha mais curvada, mais devagar. Com o mesmo sorriso, é certo, era todo o resto igual, e vinha e se sentava à beira da cama deixando-me deitar a cabeça em seu colo e me contava estórias, não destas estórias chatas que hoje se contam às crianças, estórias que eu não me lembro, estórias que não me saem da cabeça, estórias que eu nem prestava atenção, assustado que estava, estórias que eu torcia para que não acabassem nunca.
            Na hora em que eu deitava minha cabeça em seu colo e ela começava a conta-las, sempre inventando-as, modificando-as ao sabor de sua disposição e vontade, nestas horas já não estávamos mais ali naquele quarto nos fundos da casa. É difícil de se explicar o que acontecia comigo, conosco. Ela contava as estórias sorrindo para mim, um sorriso que eu nunca vi nela em outras horas, algo sincero e feliz, estórias às vezes que não pediam sorrisos e eu sorria e fazia as caretas que elas pediam, caretas que depois daquele dia até hoje me recuso a fazer de novo, e ríamos e aos poucos eu ia me acalmando e ela fazia um cafuné, um sono vinha vindo, vinha chegando e me enlaçando devagarinho e eu dormia calmamente.
            Eu me lembro que eu temia as noites de chuva mas que quando elas vinham o meu excitamento crescia, ficava ansioso enquanto esperava mamãe aparecer na porta com seu sorriso doce, seus cafunés, suas estórias e seus momentos felizes. A mesma cena a se repetir infinitas vezes. A se repetir agora só na minha cabeça. Infinitas vezes.
            Eu não soube o que ela fazia após eu dormir e ter os mais belos sonhos que eu já tive em todos os meus anos, sonhos conduzidos por seu cafuné. Nunca soube se ela ficava um tempo lá a me cafunezar, a velar por meu sono e por instantes de felicidade ou se ia embora logo a encarar o mundo que não espera, que nos mata, que nos rouba as pessoas que amamos.
            Mamãe morreu quando eu era ainda pequeno.
            Eu era muito pequeno quando mamãe morreu e talvez não tenha percebido de imediato o que se passava. E talvez ninguém tenha percebido também pois todos se olhavam com aquelas caras de conformados e nem um pouco surpresos. Todos a parecerem tristes, a fingirem tristeza. Só me lembro de ter falado com minha tia: tia, hoje aconteceu algo muito triste. Ela pareceu segurar um sorriso como das vezes em que eu fazia algo que, na sua opinião, seria uma gracinha. Não sabia ainda o que era tristeza, só sentia um estranhamento, um estrangulamento.
            Após algum tempo, nestas horas há sempre alguém a ajudar atrapalhando, tudo parecia ir às mil maravilhas e o dia-a-dia foi se tornando aquilo que sempre é.
            Algum tempo depois, não sei ao certo o quanto, choveu. Uma forte e impiedosa chuva caiu sobre nós. Fiquei um longo tempo a esperar em minha cama que ela aparecesse, que cruzasse a porta a tempo de me carregar prá longe de meus pesadelos. Lembro, foi uma noite horrível em que não fechei os olhos, não consegui fechar os olhos nem mesmo depois que meu pai veio me dar boa-noite e me dizer que tudo ia bem, que era apenas uma chuva à toa, que eu já era bem crescido para estas tolices e todas estas tolices que ele sempre dizia nestas horas e que não ajudavam em nada para aquilo que eu realmente precisava.
            Passei um tempão a esperar por ela, a esperar que a cena que tinha se repetido infinitas vezes, ao menos mais uma agora se repetisse. O sorriso dela nunca mais se repetiu naquela porta e foi naquela noite de chuva, noite chuvosa como tantas outras, que eu percebi o que era morrer e percebi que mamãe tinha morrido e percebi a falta que ela me faz nestas noites chuvosas e que morrer era esperar, numa noite chuvosa, um cafuné que não vem, que nunca mais virá.

            Após ter chorado muito por mim e por ela, será que ela sofreu muito ao morrer?, corri à janela e nesta noite terrível, o mundo me pareceu, apesar da chuva, tranquilo. E conformado.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O dia mais triste do ano...


           
 Imagina que você viva em um lugar constantemente nublado, chuvinha fina colocando à prova toda a sua paciência, bolor e mofo te aporrinhando por toda a parte. Imagina que você está em uma época do ano em que os dias são curtos, pouca luz natural. Agora, imagina que é segunda-feira, o dia maldito para nove entre dez habitantes desse planeta. E imagina que já se passaram dias suficientes no novo ano para você se convencer que as suas resoluções de primeiro de janeiro estão longe de serem realizadas. Ou ao menos é isso que diz a balança, a preguiça para ir à academia, o telefone mudo que não traz aquelas notícias profissionais ou amorosas que tanto esperamos.
            Não por acaso, a terceira segunda-feira do ano foi decretada como sendo o dia mais triste do ano por um tal de Dr. Cliff Arnall, que se autodenominou um psicólogo da Universidade de Cardiff, apesar dessa universidade ter negado. Blue Monday, assim foi denominado esse dia especial e, é claro, com o anglo centrismo tão peculiar a eles, o dia foi tornado universal.
            Mas acontece é que esse tal de Dr. Arnall não se contentou em argumentos como esses acima para decretar o Blue Monday. Em uma necessidade de se “cientificar numericamente” tudo que nos cerca ele inventou uma equação para se chegar a essa mesma conclusão.
A equação, que não copiarei aqui para não deprimir quem quer que seja, foi inicialmente feita para se analisar quais os dias mais propícios do ano para se viajar e leva em consideração variáveis como o tempo de viagem, atrasos, tempo gasto em atividades culturais, dormindo, simplesmente relaxando e tempo de preparação da viagem e da mala. Uma verdadeira salada de frutas. Aparentemente, de acordo com essa fórmula, se você gastar mais do que dez horas fazendo a sua mala, terá uma excelente viagem (pensando bem, talvez isso até faça sentido...). Mas foi utilizando-a que o Dr. Arnall chegou à conclusão de que o Blue Monday era um péssimo dia para se viajar.
Uma segunda versão da fórmula proposta pelo Dr. Arnall, agora sem a vinculação a uma viagem, e apenas para se calcular o dia mais triste de uma pessoa levava em conta as variáveis: tempo, débitos, salários, dias desde o Natal, dias para se perceber que as resoluções de ano novo iriam falhar, nível motivacional (seja lá o que isso signifique...) e, por fim, nível de sentimentos de que algo precisa ser feito para se conseguir alguma mudança (que ele consegue mensurar numericamente!). Uma ou outra fórmula trará o mesmo resultado quanto ao tal pior dia.
A propósito, se você está lendo este post é porque sobreviveu ao Blue Monday desse ano, que foi dia 18 de janeiro. Em todo o caso, para nós, brasileiros, isso faz muito menos sentido com esse solzão, em um período em que muitos têm férias e por conta de nossas características culturais, apesar das dívidas crescentes e das resoluções frustradas de ano novo...
Ah! Não por coincidência, o dia mais feliz do ano de acordo com os estudos do Dr. Arnall  cai em junho, bem próximo ao dia mais longo do ano no hemisfério norte. Também pudera, poucos não gostam do sol reinando até a meia noite, ainda mais em uma cidade como Cardiff e sua famosa baía.
E por falar nisso, a bela cidade de Cardiff não merecia ser relacionada a algo tão farsesco quanto isso. A capital do País de Gales tem um castelo muito interessante e construído em um sítio que serviu como forte romano no primeiro século da era cristã. O que se chama atualmente de castelo normando data de século XI e segue lá imponente no alto de uma colina. Ao lado, um palácio vitoriano ampliado e renovado constantemente durante o século XIX. O arquiteto, em seus arroubos artísticos, foi construindo e decorando inúmeras salas, cada uma com sua particularidade mas, em seu conjunto, uma verdadeira salada de frutas (como a equação do Dr. Arnall). Já foi descrito como uma “fantasia oitocentista de palácio medieval de conto de fadas” e isso já diz tudo.
O que chama também a atenção são certos túneis subterrâneos que circundam o castelo e que, nos tempos recentes, foram utilizados como refúgio aos bombardeios tão frequentes na segunda guerra mundial. Ao se entrar neles, móveis e equipamentos dessa época estão expostos nos corredores e, no melhor estilo onomatopeico atual, somos abatidos por sons de bombas caindo e crianças gritando. Prá quem gosta desses efeitos, um prato cheio.

De minha parte, a terceira segunda-feira do ano foi muito boa, apesar da gripe que tem me atacado. Como faz tempo que não acredito em resoluções de ano novo e as segundas-feiras tampouco me atormentam, o saldo foi bem positivo.  

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

jeremias


jeremias era uma rima
uma rima era jeremias
jeremias era o seu nome...


Por vezes, meu sono é perturbado pelo ataque inesperado e impiedoso de palavras, frases, expressões e não me restam senão, após o acordar sobressaltado, duas alternativas: ceder e aproveitar literalmente o que me veio de forma tão inconsequente ou ignorar e voltar a dormir o sono interrompido.
Sonado que estou nessas horas, ainda tento fazer uma pequena análise qualitativa do que me atormentou tão repentinamente o descanso para saber se vale a pena terminar de acordar ou não, se o registro merece ser feito ou não, se a vida seguiria seu caminho inalterado caso decida pela continuidade do sono ou não. Sem chances, no entanto, para qualquer conclusão racional quanto a isso, a mente funcionando a meia boca nessas horas, concluo que terei que arriscar.
Hoje, a que veio o tal de jeremias me aporrentar o sono? Um poema épico já que mencionava rimas? Um conto regionalista, algo a ver com um sertão, talvez? Uma novela, se bem desenvolvida, uma peça de teatro experimental ou ideia germinal de um romanção best seller? A estrofe me acorda, martela-me a cabeça que ainda não se recuperou totalmente da garrafa de vinho argentino dividida no jantar... eu disse uma? Ora, quem se importa se o vinho era bom?
Por um desses mecanismos que nunca conseguirei entender totalmente, minha mente sempre me boicota ao insinuar que o que a pouco me acordou e que agora me ocupa impertinentemente a cabeça é de valor inestimável, a garantir-me que é sim aquela ideia genial que tanto buscava há tempos. Como ignorar esses sinais, então? Mesmo assim, ainda duvido do que deveria fazer, continuar dormindo ou não...
Mas qual o quê, a força da sugestão (ou necessidade) é mais forte e acabo me levantando para anotar esses inesperados pensamentos. A mente cheia da certeza de que se não o fizer naquele exato momento, minha memória irá me trair depois.
Aliás, nessas horas, a memória só servirá para me lembrar que se eu não levantar e anotar, tudo se perderá no meio da confusão de meus parcos neurônios. A memória só existirá para me assegurar que esquecerei com certeza o que me veio tão facilmente e que me arrependerei com certeza qualquer registro não feito...
Certo é que, de tanto ignorar esses alertas e esquecer totalmente depois a frase, a ideia inesperada, o tal conto que todos se lembrarão por anos, de tanto ignorar e ficar por dias me arrependendo disso, hoje eu me tornei mais disciplinado.
Mesmo com o vinho, mesmo só meio acordado, ou no meio de uma atividade, de uma conversa que seja, tento me concentrar em qualquer frase que invade sorrateiramente minha mente. Já faz tempo que trago sempre um papel comigo e trato de escrever o que me aporrinha sem piedade, hora que for, atividade que esteja fazendo. Se não consigo fazer isso imediatamente, seguirei repetindo e repetindo o pensamento para mim mesmo com a pretensão de não esquecê-lo, até conseguir registrar na forma que for.
Levanto-me hoje e anoto as ideias, tantas já as perdi.
Anoto direitinho como me veio: jeremias era uma rima e etc. e tal. E volto a dormir, missão cumprida, embalado pelo Malbec bebido. O sono dos justos
Não raramente, quando retomo, dias depois, ao que me assaltou de sopetão e foi anotado com a letra de sono, percebo que pouco faz sentido. O que era mesmo? Como encaixar tais palavras em algo razoável, ao menos aceitável? Certo é que, às vezes, a frase serve para um título de conto, o começo de um parágrafo, mas, na maioria das vezes, só serve para ir para aquela pasta que tenho na prateleira em meu escritório contendo as ideias e planos futuros, a esperar se encaixar em algo que faça sentido, mesmo que isso seja, em última instância, algo muito subjetivo...
E, ao final, jeremias era uma crônica. 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A cada 823 anos...

Fazendo o necessário rescaldo de 2015, topei-me com a seguinte mensagem que recebi no começo do ano em meu zapzap:


            Uau! Algo que acontece só a cada 823 anos deve ser realmente importante. Mas confesso que fiquei confuso.
            Antes de mais nada, apesar da menção ao Feng Shui, senti falta da expressão “sabedoria milenar chinesa” que garante a credibilidade de qualquer informação. Além disso, o que exatamente acontece a cada 823 anos? Ter um mês com cinco sextas-feiras, cinco sábados e cinco domingos? Ou ter um mês de maio com essas características? E o que torna tão especiais as sextas, os sábados ou os domingos (isso, é claro, se você não for um baladeiro)? Ou será que uma mensagem dessa só aparecerá a cada 823 anos?
            Todo mês com trinta e um dias e que comece em uma sexta-feira terá cinco sextas, cinco sábados e cinco domingos. O mês atual (janeiro de 2016) tem essa característica, assim como julho de 2016 ou dezembro de 2017... Como o ano tem sete meses com trinta e um dias e o mês começa necessariamente em um dos sete dias da semana, não deve ser assim tão raro um mês de trinta e um dias começar em uma sexta-feira.
Já um maio com essa característica (cinco sextas, cinco sábados e cinco domingos...) é um pouquinho mais raro. Para acha-los, juntei uma régua de cálculo rudimentar, um par de compassos, um esquadro, tabelas de logaritmos aproximadas e mapas astrais (só o que existia 823 anos atrás, pois queria simular com exatidão como se calcular o intervalo de tempo entre dois eventos como esse). Após exaustivos cálculos e longas noites sem dormir, descobri que a última vez que houve um mês de maio começando numa sexta-feira foi em... 2009 e, antes disso, em 1998. O próximo tal supostamente raro mês de maio será em 2020.
Mais raro ainda são os anos que são múltiplos de 823 (823, 1.646, 2.469, 3.292...), esses sim acontecem só a cada 823 anos. Bem provável que nenhum de nós presencie tal fenômeno...
Aliás, a me fiar pelo que diz a mensagem, eu já vivi muito mais do que uma pessoa média, pois já passei por oito meses de maio começando numa sexta-feira. E, oxalá, nos próximos cinquenta anos (toctoctoc), outros sete mais desse jeito me alcançarão.
E lá se foi minha esperança de ter um bolso cheio de dinheiro.
Estava no meio dessas contas quando o Thio Therezo passou por mim e quis saber o que eu estava fazendo. Contei-lhe da minha frustração quanto à falta de fortuna. Após refletir um instantinho, ele me disse que os anos em que o mês de maio começa numa sexta-feira são justamente os que o dia dois de julho cai numa quinta-feira e, como todos sabem, as quintas-feiras é que são os dias especiais. Quanto ao dois de julho, nem é preciso dizer nada a mais a respeito de sua imensa importância. Convenceu-me, então, que os anos afortunados são sim os que trazem o dia dois de julho numa quinta...
“Mas Thio, o que trouxe de fortuna o ano de 2015?”
“... foi um ano interessante, garoto!” ele replicou.
“Interessante?”
“É! Interessante... instrutivo, muito instrutivo...”
Antes que eu tivesse a possibilidade de falar algo, ele completou:
“Quem soube se retrair a seu canto e ficar só na observação e na reflexão, esse aprendeu muito em 2015... foi um ano interessante, cheio de lições...” disse e se distanciou, misterioso e pensativo.

Eita, Thio! Ele sim não perde a oportunidade de mostrar a sua milenar sabedoria chinesa...