quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Resenha: "A tessitura da escrita em ´Outros tantos`"


A escritora e crítica literária Alexandra Vieira de Almeida escreveu a resenha abaixo sobre o meu livro "outros tantos". Quem se interessar pode encontrá-lo no site da Editora Penalux (clique aqui) ou na Livraria da Vila.
Há também a possibilidade de se conseguir o livro diretamente comigo. Nesse caso, além do autógrafo, eu envio junto com um brinde: um de meus livros anteriores, dentre "Gambiarra e outros paliativos emocionais" (contos, 2007), "Contos&Vinténs" (contos, 2012) ou "Pigarreios" (romance, 2016), à escolha. Basta me contactar por e-mail: flavioucoelho@gmail.com 

A tessitura da escrita em ´Outros tantos`, de Flávio Ulhoa Coelho


Flávio Ulhoa Coelho reúne 32 contos no seu novo livro Outros tantos (Penalux, 2019), retomando as seis proposições de Italo Calvino no seu livro Seis propostas para o próximo milênio, que não chegou a completar com a sexta parte inconclusa. Os títulos das partes do livro de Ulhoa são os mesmos que compõem as propostas de Calvino. São elas: Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade, Multiplicidade e Consistência. Mas o escritor aqui em questão, professor de Matemática, adequa tais temas imprescindíveis à excelente literatura a ser produzida a partir do viés original do tempo. 

Logo no primeiro conto, “Olhares flutuantes”, temos o fator ritmo e sonoridade como alicerces para a construção do tempo na medida certa. Tempo de encontros e desencontros nos olhares do ser universal, pois Ulhoa não se prende a regionalismos e particularidades, mas ao tema oniabarcante do que constrói os apelos do mundo em toda sua liquidez e fragilidade. Ele escreve: “Futurando o presente, os olhares se fixarão por uma efêmera eternidade”. Eis a intensidade deste paradoxo, que une a transitoriedade ao atemporal. Que magnífica a força dos opostos e contrastes aqui, revelando o mundo como algo que engloba o poder ambíguo do tempo, que ora corre com rapidez e efemeridade, ora aponta para um processo de sublimidade que se encontra no perene jogo do que ultrapassa o real em toda sua fragmentação. Esses olhares que se encontram “flutuando” e “futurando” buscam uma ambivalência no tempo cronológico e psicológico, já que seu livro de contos dá a medida que encerra a potência sobre o visível, a carne prosaica, à invisibilidade de um lirismo abismal.

No conto “Bonde 53”, temos o valor da amizade sendo exaltado, apesar das divergências. Utilizando verbos no futuro, o narrador, magicamente, vai construindo hipóteses, um futuro que aponta para o passado e para o presente, reunindo-os. Assim, ele vai cerzindo esses tempos com um olhar futurístico, que nos direciona para o abismo do desconhecido e oculto aos olhos simplórios. Sua escrita tem a profundidade cortante que une a leveza do ritmo poético às reflexões críticas e sociais indomesticáveis. Como um tropel de cavalos, sua escrita se adensa nos véus das palavras, cristalinas, mas que escondem sombras no seu interior, a partir de imagens ricas e precisas, revelando sua exatidão matemática e o que vai além dela, pois que não pode ser medida. O poeta do futuro, aqui, utiliza o ritmo e a repetição poética, dando poeticidade à sua narrativa, aliando a poesia e a prosa, como os grandiosos escritores universais Clarice Lispector e Guimarães Rosa. O lirismo contido nas asas de suas páginas nos dá o valor inusitado em meio à claridade prosaica: “...os olhares que se perderam nas nuvens dos dias”.

Em “Negro y blanco”, temos os diálogos como base principal do conto, com seus discursos diretos sendo reconfigurados pelo poder da linguagem. O narrador mistura as línguas espanhola e portuguesa de forma magistral, dialogando com o titubeio do narrador que não domina de todo a língua da Espanha. Num mosaico de línguas, o narrador tece uma rede de palavras, mesclando frases em português e espanhol, dando inventividade e jogo linguístico, que faz de seu conto algo que atinge o cosmopolitismo tão caro aos valores que ultrapassam a cor local. Aqui, temos a totalidade do instante na memória. Um processo de experimentação do texto ocorre de forma exemplar, e a dupla chama da linguagem acende o sol vasto da literatura.

Em “Mãos dadas no parque”, Ulhoa tenta conter as certezas num mundo de incertezas, através de afirmações. Questionando no início do conto se o que veio primeiro foi a carta ou o telefonema da amiga do passado do narrador, ele pretende conter a memória do tempo numa solidez afirmativa da linguagem, clara, objetiva e precisa. Nesse processo de exatidão, temos a contenção da língua, fazendo surgir o dique que poderá conter a imprecisão e inexatidão do transbordante esquecimento. Temos assim, um jogo matemático que, ao mesmo tempo, ultrapassa a lógica a partir do que é imaginativo. A força do imaginário e da fabulação em Ulhoa é incrível, dando um tom forte à sua escrita excepcional e criativa. Com a imprecisão da vida, não podemos encaixar tudo numa caixinha sistêmica, o autor sugere. Como dizia Fernando Pessoa, retomando os navegantes: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Nesse conto se dá a lembrança intensa em meio ao esquecimento da memória falha, que tem suas margens de erro.

Italo Calvino escreveu em seu livro por ora aqui apresentado anteriormente: “Minhas reflexões sempre me levaram a considerar a literatura como universal, sem distinções de língua e caráter nacional, e a considerar o passado em função do futuro; assim farei também nessas aulas”. Aqui, numa figuração espaço-temporal, temos a construção do texto através de um jogo que não segue convenções linguísticas e temporais, ao mesclar os tempos numa abertura para o novo e original. No conto “Olhares futurantes”, Ulhoa retoma o conto inicial com nova roupagem, dando-lhe um novo final, reconstruindo e reconfigurando o mesmo a partir da diferença. Assim, é pela repetição e também pela diferença, que Ulhoa constrói o seu livro, pleno de espelhamentos no labirinto inusitado da poesia que pela musicalidade nos direciona para as águas mágicas dos sentidos narcísicos, com o reflexo e reflexões, como na dobra em espiral e não em círculo, num eterno retorno da diferença imagética. Em meio aos refrãos narrativos, Ulhoa consegue a difícil proeza de reunir num mesmo respiro o caos e a ordem, o transbordamento e a contenção. Num caminho sinuoso e íngreme, encontramos suas narrativas como jogos de linguagem bem precisos em seu corte afiado e afinado.

No conto magistral, “Caneta com tinta preta”, temos a exatidão da linguagem com o inusitado das imagens. A precisão do detalhe, “meu único irmão”, se casa com o lirismo da força imaginária, que denota uma rasura em meio à matematização da escrita. Ulhoa rompe o círculo perfeito pela poesia. Em “a velha caneta tinteiro do pai”, encontramos uma metáfora para a escrita. O interesse por esse objeto faz da linguagem o tiro certeiro do literário, cuja morada se encontra nas palavras abissais que se adensam na tinta preta. Temos, assim, as imagens do afeto, do elo familiar e literário. 

No conto “O carregador de dedos”, podemos perceber a exatidão do tempo a controlar o trabalho dos funcionários. Aqui, temos a crítica social do chefe da empresa que reclama dos impostos e da corrupção. No meio da sociedade, temos o controle, tentando domar o tempo. A exatidão do controle, por outro lado, borra tudo, pois através de um fato não previsto o controle se desmancha no ar. Um fator inusitado desnorteia a exatidão do controle, nocauteando-a. Em “A árvore darwiniana”, assim como em outros contos, com a forma semelhante, temos o trabalho de experimentação com a linguagem, pois a narrativa, escrita com frases descontínuas, dão o valor poético ao texto. Os diálogos são entrecortados, a partir da união entre forma e conteúdo.

No conto “Natal vermelho”, encontramos um labirinto de espelhos a partir dos desdobramentos da cor vermelha e seus significados que explodem para todos os lados das entradas e saídas. Aqui, vemos o contraste entre a data festiva, que significa nascimento, com a morte, em que temos o trágico em meio à beleza e ostentação do núcleo festivo. Um excesso da cor se traduz num simbolismo perfeito. As imagens da repetição do vermelho se conjugam com o ritmo poético. 
Estes elementos são retomados em “Conto de Natal”, onde a repetição e a rotina são enaltecidas e desviadas pela memória do passado, o tempo em máxima efusão das horas. Temos a mesma história, tudo se repete na fase natalina, pois é a fase de rememoração do personagem. A rotina fere o escudo da liberdade, trazendo o aprisionamento e contenção do que transborda naturalmente. A festa natalina é o leitmotiv para a viagem memorialística da personagem. Ao fugir da rotina presente, ele se depara com o passado com suas diferenças e encantos: “Parecem dias tão distantes que mal as sinto no meu cotidiano atual”. Ele evoca esse “período rubro” como “melancolia vermelha”, que devassa o tempo, cortando-lhe os pulsos. E essas lembranças não cortariam o momento repetitivo da festividade? O passado não quebraria a rotina do momento presente, revelando o frescor da origem? Certas coisas do passado causam-lhe incômodos. A imagem do cemitério e dos túmulos são fantasmas, a falta de pessoas que já partiram. O lirismo do conto é encantador: “Definitivamente, o Natal é vermelho, em meus olhos de todos os dezembros”.

No conto social “Rua”, relembrando nosso período de sombra que ainda nos assola, a ditadura militar, temos a morte covarde da personagem amada do narrador-personagem. Num jogo de simetria e dessimetria, a rua vai ganhando contornos simbólicos e metafóricos ao longo desse conto admirável por sua beleza em meio o caos social e político. Ele diz: “...tanta gente desaparecida naqueles tempos de sombra”. Saindo do político-social e adentrando o especificamente literário, temos em “Ela, a ideia”, um verdadeiro estudo sobre o fazer poético. As ideias são personificadas e metaforizadas, ganhando um sentido alegórico. O trabalho literário é de busca, de procura das ideias, que se escondem de nós. Podemos nos lembrar aqui de um Drummond, com sua luta pelas palavras, ou um Gullar, com sua “luta corporal”, onde a ideia surge a partir de uma guerra, de um esforço descomunal. 

Igor Fagundes, grande ensaísta e poeta, professor da UFRJ, retomando Nietzsche nos fala sobre os elementos dionisíacos e apolíneos. É preciso domar as palavras para não deixar que elas transbordem no voo e no caos. Elas precisam ter sentidos, a concretude do pouso, e isso Ulhoa faz magistralmente na sua escrita. Ele é um domador do tropel dos cavalos, dando-lhes o freio necessário. O desejo de ultrapassar as medidas é contido pela matematização e ordenamento das palavras certeiras. A exatidão apolínea se conjuga, dando as mãos ao jorrar das palavras dionisíacas. Portanto, é a partir de um processo de seleção e combinação das palavras que tal esquema é possível na obra maravilhosa deste escritor que encantará o leitor com suas narrativas repletas de literariedades e realidades, unindo a tessitura literária ao nosso mundo circundante. Assim, o real e o imaginário se dão as mãos nos seus contos inventivos e imaginativos, mas que tocam o chão de nossa realidade que não foge aos ditames de sua escrita inaugural. 

SERVIÇO
“Outros tantos”, contos. Autor: Flávio Ulhoa Coelho.. Editora Penalux, 198 págs., R$ 38,00, 2019. 
Disponível em:
https://www.editorapenalux.com.br/loja/outros-tantos
E-mail: vendas@editorapenalux.com.br


Sobre a resenhista

Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro “Dormindo no Verbo”, pela Editora Penalux. 


quinta-feira, 19 de setembro de 2019

outros tantos - fotos


Amigos, queria agradecer a presença de todos que foram prestigiar o lançamento de meu livro de contos "outros tantos". A quem não pode comparecer mas gostaria de ter o meu livro, o "outros tantos" pode ser encontrado no site da Editora Penalux (clique aqui) ou na Livraria da Vila onde foi lançado.
Há também a possibilidade de se conseguir o livro diretamente comigo. Nesse caso, além do autógrafo, eu envio junto com um brinde: um de meus livros anteriores, dentre "Gambiarra e outros paliativos emocionais" (contos, 2007), "Contos&Vinténs" (contos, 2012) ou "Pigarreios" (romance, 2016), à escolha. Basta me contactar por e-mail: flavioucoelho@gmail.com

Algumas fotos do lançamento na Livraria da Vila (14/setembro/2K19):




quinta-feira, 12 de setembro de 2019

outros tantos

Caros amigos, vou lançar meu novo livro de contos ("outros tantos", Editora PENALUX) no próximo dia 14 de setembro, das 16 às 19 horas, na Livraria da Vila, Rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, São Paulo. Ficarei muito contente com a presença de vocês.


O livro pode também ser adquirido no site da Editora Penalux. Compre Aqui

Para atiçar a curiosidade, transcrevo aqui dois textos sobre "outros tantos". O primeiro é da escritora Isabela Noronha que muito gentilmente escreveu essa orelha para o livro e o segundo é parte de uma resenha escrita pelo escritor e crítico literário Krishnamurti Góes dos Anjos (a resenha completa pode ser encontrada aqui).




Leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade, consistência: são esses os grandes valores literários, aqueles que merecem ser preservados, definiu Italo Calvino, um dos maiores escritores italianos. Não a toa, cada um deles dá titulo às seções deste livro. Os contos de Flavio Ulhoa Coelho são um mergulho nessas virtudes. Começamos com a leveza despojamento e sutileza, tanto de linguagem quanto de estrutura e não estamos mais abandonados. É na companhia dela que viajamos dentro do bonde 53 não para um lugar, mas para outro tempo um em que cabem desejo, café recém-passado e pão quentinho. Passamos por olhares flutuantes, sofremos, nos reencontramos nos olhares futurantes e somos lembrados de que, encontro ou desencontro, só o final, essa mínima parte, muda. É também uma celebração da leveza o humor de Negro y Blanco em que tudo está posto, porém ainda assim o mistério persiste um convite à imaginação do leitor, convite esse que perpassa todo o livro. Está no absurdo do homem que carrega uma maleta cheia de dedos em uma missão secretaem O carregador de dedos, na saudade rubra e triste de Natal, vermelho, na mudança de ponto de vista em Adocão, na dolorida homenagem ao pai em Nove de Julho. É contando com um leitor ativo, inteligente, que essas histórias se realizam. E, mais que oferecerem respostas, se abrem em um diálogo com a reflexão de Calvino: "Quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser completamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis."

Isabela Noronha, escritora e professora da pós-graduação Formação de
Escritores do Instituto Vera Cruz, em São Paulo


A publicação de “outros tantos” do escritor Flávio Ulhoa Coelho, reúne 32 contos (alguns com estrutura de crônica), agrupados em 6 partes sob os títulos que foram tão caros à Italo Calvino:  Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade, Multiplicidade e Consistência. E o que o leitor encontra é em evidente exemplo de criatividade. Parece-nos que tal divisão é meramente esquemática, intuitiva, sem ligações rígidas com o pensamento de Calvino, diríamos mesmo que constituem um flexível exercício em torno daquelas ideias do escritor italiano, que são atualizadas e, em certo sentido, aprofundadas.
Em alguns textos observamos a nítida opção pelo fragmentário de vidas ou situações que se entrelaçam, em circunstâncias existenciais complexas de que o olhar eventual de um observador não daria conta. O olhar do ficcionista recolhe “traços” e apresenta reflexões que não possuem a intenção de organizar, mostrando que a composição do real se revela no fragmento. Ver: “E nós quem somos?”, “negro y blanco”, e “A árvore darwiniana”.  Há contos onde a imaginação atua como alavanca de procedimentos lógicos. E entra em cena uma dialética entre imaginação e realidade, com resultados realmente surpreendentes como acontece no excepcional, ”Ela, a ideia”, uma verdadeira aula de como o escritor lida com sua imaginação criadora.
Há ainda no autor dessa obra, uma faceta muito interessante. A partir de um enredo básico de um conto, ele escreve outro com uma abertura para: “e se fosse diferente o curso daquela história?”. A possibilidade vem em outro texto, e de uma forma muito sutil, não diretamente implícita, um mero detalhe muda a trajetória de vidas. Os exemplos mais evidentes são “Olhares flutuantes” e “Olhares futurantes” de um lado, e mantendo essa característica de variação de desfecho, mas aprofundando sentidos, temos “Os momentos mais eternos” e “Conto de natal”. Como são textos muito bem trabalhados no nível da construção ficcional, perduram na memória do leitor e, quando este lê o outro texto, percebe claramente que emergem detalhes e circunstancias já ventiladas, mas com uma iluminação mais intensa. Habilidade típica do contista que domina plenamente a sua ficção em toda e qualquer direção que entenda dar-lhe.
Em outras narrativas encontramos profundas reflexões sobre a monstruosa realidade social brasileira como acontece em “O carregador de dedos” e “Um par de tiros”. Profundas reflexões porque, mais importante do que a mera reprodução de situações, o autor põe o dedo na ferida exposta. Na ferida aberta da corrupção sistêmica que assola o país, que muitos adotam e até defendem, como lemos no primeiro conto, ou o porque de nossa juventude negra e pobre (via de regra), estar sendo sistematicamente exterminada por aqueles que representam o Estado, ou deveriam representar. E não somente a triste realidade atual, o autor visita o tempo um pouco mais recuado. Veja-se o conto “A rua”, pungente relato sobre a vida de uma mulher corajosa e engajada politicamente, que é assassinada durante o escrotíssimo (desculpem mas não encontro outra palavra), regime de exceção que tivemos no Brasil durante vinte e tantos anos, e que todo mundo sabe muito bem qual foi.  Contos assim, nos levam a reconhecer, com pesar, com muita dor, que o Estado brasileiro foi mesmo forjado na violência e na exclusão, e continua desgraçadamente nesse triste percurso.
Não poderíamos deixar de mencionar finalmente, o doce lirismo que exala em textos como  “Bonde 53”, “mãos dadas no parque”, “guardanapo”, “achados e perdidos”, “morto no corpo” e “por ora”. Esses textos, todos, com suas características e circunstancias peculiares claro, nos fazem lembrar das coisas boas da vida, sim, por incrível que possa parecer, a vida os tem. E então somos capturados inapelavelmente por sensações e sentimentos bons quando lemos textos que excitam a memória de tempos idos, ou  a maravilha que é estar apaixonado, ou ainda a delícia e a dor da entrega impensada. Quem não lembra dos vestígios daquele amor que poderia ter sido e não foi? Que bem nos faz constatar a transitoriedade de nossas dores de amor que refluem com o tempo para o mais completo esquecimento? Que dizer então, da doçura que é sentir-se amado?
E, paralelamente ao que já referimos e, dentro da diversidade dos temas e formas trabalhados, que dão um sabor todo especial ao livro, salta aos olhos a elegância e a qualidade literária da prosa. Sem sombra de dúvida podemos afirmar que “outros tantos” do escritor e professor Flávio Ulhoa Coelho consegue abrir espaços de interrogação, de meditação e de exame crítico Em suma, enseja a proveitosa relação com nós mesmos, com o nosso mundo interior através do mundo que o livro nos abre.

Krishnamurti Góes dos Anjos, escritor e crítico literário.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Liberte-se

          -alô
          -bom dia, Flávio!
          -eu te conheço?
          -você não está cansado de receber ligações?
          -sim... mas?
          -pois estou ligando para falar sobre o Liberte-se! Um produto revolucionário que vai te libertar de receber aquelas ligações chatas e que te tomam um tempão de sua vida.
          -olha... eu...
          -não se preocupe, é um sistema que foi aprovado pelo Congresso Nacional e depois terceirizado, pois senão não funciona, né?
          -não estou entendendo
          -é assim, Flávio...
          -eu te conheço?
          -rsrsrs... basta você se manifestar sobre não ficar recebendo ligações indesejadas e, pronto, nunca mais elas virão.
          -assim?
          -é, simples assim!!!
          -ótimo. então eu me manifesto no sentido de não receber mais ligações indesejadas. obrigado, boa noite!
          -péra aí! precisa...
          -mas você disse que bastava a minha manifestação!
          -precisa fazer um cadastro, sabe como é, né, Flávio?
          -você me conhece?
          -...
          -parece até íntimo...
          -vamos ao cadastro? pouca coisa, nome, telefone fixo e celular, residência, cpf, rg, número do passaporte...
          -ãh?
          -dois endereços de e-mails...
          -dois?
          -um para confirmar o outro caso precisemos entrar em contato
          -mas por que vocês precisariam entrar em contato?
          -só para certificar
          -do que?
          -de sua manifestação...
          -ouça... vocês estão gravando?
          -claro, como todas as ligações, essa também é gravada
          -então a minha manifestação foi gravada, não?
          -claro...
          -então tá! tá manifestado e gravado que não quero receber mais ligações
          -mas precisamos fazer o cadastro. é uma exigência da lei... ah vou precisar de um número de conta bancária, um cartão de crédito...
          -mas esse serviço não é grátis?
          -claro que é, é um serviço público, terceirizado, mas público. estamos aqui apenas para garantir o bem estar dos fregueses
          -então não precisa de conta bancária, de cartão, nada disso.
          -mas nada será cobrado, senhor, é apenas para garantia.
          -garantia do que?
          -você tem casa própria?
          -ãh?
          -é para o cadastro. tem carro? quantos? filhos? quais idades? que lugar você gostaria de visitar nas próximas férias? liquidificador, tem? marca?
          -tudo para o cadastro?
          -a propósito, bela foto essa em seu face!
          -foto? qual foto?
          -quantos livros você lê por mês? desculpe a indiscrição, foi mal... sei lá se é alfabetizado... você é, né? tem grau superior? último filme assistido? tem netflix? assina o estadão? satisfeito com o seu salário?
          -acho que já chega, não?
          -só para finalizar e você se verá livre de receber ligações indesejadas.
          -manda!
          -você precisa indicar o nome de dez pessoas que também não aguentam perder tempo com ligações indesejadas!

          Dois dias depois, uma gravação.
          -essa é uma gravação do serviço Liberte-se de ligações indesejadas. estamos avaliando o atendimento e gostaríamos que respondesse algumas questões. você não gastará mais do que quinze minutos respondendo e suas respostas servirão para melhor atendê-lo no futur
          tu...tu...tu...

          Outros dois dias, a gravação.
          -essa é uma gravação do serviço Liberte-se de ligações indesejadas. Estamos avaliando o atendimento e...
          tu...tu...tu...




Caros amigos, reservem a data e horário: 14 de setembro, das 16 às 19 horas. Será o lançamento de meu novo livro de contos ("outros tantos", Editora PENALUX) na Livraria da Vila, Rua Fradique Coutinho, 915 na Vila Madalena, São Paulo. Ficarei muito contente com a presença de vocês.