quinta-feira, 27 de julho de 2017

Rafa

            Dúvidas indômitas, procura desesperada por palavras em lugares incertos e não sabidos do cérebro, meticuloso trabalho de quebra-cabeças, busca insensata por uma construção de frase original, desesperos momentâneas na procura das peças certas, noites sem dormir, olhares insones e insanos, ideias confusas à espera de um encaixe, arestas que não se encontram, sons distantes e inconsistentes, sentimentos incoerentes mas profundos...
            De sopetão, demolidor inconsequente rodeando a mesa, ele, com aqueles poucos anos de idade, entra correndo na cozinha e eu, distraído do mundo mas concentrado no papel, nem me dou conta da trombada que ele dá, sem aviso prévio, na mesa em que costumo me refugiar buscando tranquilidade, derrubando meu conto inacabado ao chão em um poético estrondo  e esparramando-o aleatoriamente ao solo, misturando frases, ideias e palavras em um caldo único e volúvel, impreciso e escorregadio.
             Sorriso amarelo, quem resiste?
         Ele já se vai longe em sua busca pela rotina, enquanto que eu, pacientemente, recolho tudo do chão tentando colocar alguma ordem naqueles garranchos todos...
             E não é que o conto ficou bem melhor agora?




[[O conto acima saiu publicado em meu livro "Contos&Vinténs" (Editora Girafa, 2012). Esse livro, assim como o meu último, "Pigarreios" (Editora Chiado, 2016), estarão à venda durante a FLIP 2017 no Centro Cultural Futurama, na Rua do Comércio, 46, pertinho da Igreja da Matriz. Eu estarei lá autografando-os nos dias: (i)  27/07, quinta-feira, das 17 às 18 horas e (ii) 28/07, sexta-feira, das 21 às 22 horas. Todos estão convidados!.]]

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Se for j, um jeito para dar certo.

[[Mais um conto da série "O que você pediria?" Agora com a letra "j"]]

            Noites, por vezes, são muito silenciosas nesse apartamento herdado. Essas, por vezes me assustam, por vezes me excitam.
            Hoje, lembrei-me dela. Do breve encontro no elevador, o cartão com o telefone, duas noites bem pagas e o cartão resolveu se esconder entre tantos papéis naquela primeira gaveta, esperando, quem há de saber?, sua vez nesse esconde-esconde que virou a minha vida.
            Mas hoje, lembrei-me dele, do cartão. E dela, da dona da letra do cartão fujão. E de seus gemidos, e de sua pele, corpo, fluidos, sorrisos... Lembranças imprecisas aumentadas pelo tempo, pelas saudades de algo que talvez nem tenha acontecido. Misto de lembranças e ficção, como seria bom se tivesse realmente acontecido do jeito que agora me lembro. Ou aconteceu? Como é que a dona do cartão se lembra de mim, afinal?
            O pensamento se evapora, o silêncio retorna e sobra eu, eu e meus livros, e meu gato que me cafuneia, e a tartaruga Esperança. Já não deveriam ser suficientes nesse apartamento?
            Deveriam...
            Ou não, assim me relembram os silêncios da noite.
            Ligo a TV, que quase sempre me ignora, talvez pelo fato de que eu só a ligo prá escutar o seu barulho. Vezes, até escolho um filme novo mas, na maioria, é um que já conheço, que já tanto assisti zilhões de vezes, diálogos quase decorados. São os melhores, jogando o nível de atenção a quase zero, permitindo que o sono vença o desânimo, que nocauteie o silencio e as lembranças, forjadas ou não.
            Abro a gaveta por fim e, quando a abro, percebo um cartão, deve ser ele, se escondendo no meio de outros. Mãos ligeiras, vou atrás dele, mas qual-o-quê, ele já escapa prá trás de umas fotos antigas, de contas já pagas, de bilhetes de loterias vencidos, cartões de aniversário. Vejo o seu rabicho balançando jocosamente para mim, mas quando minha mão se aproxima, lá se vai ele escapulindo outra vez.
            Nessa perseguição de gato e rato, de cartão e mão, quem mais perde sou eu, claro, eu a perco, perco um jeito de escapar desse eterno silêncio noturno, apesar do barulho da TV, que me mata aos poucos.
A lembrança dela retorna, seu beijo de despedida, carinhoso, em minhas bochechas ainda o sinto, ainda a sinto colada ao meu corpo, ronronando como o gato que agora me olha com desdém. Esse, prefere o silêncio das noites, parece curtir, desgosta do barulho, da TV que seja, dos carros que habitam as ruas que sejam, do latido longínquo que seja. Mas hoje, ele terá que se contentar com o que eu necessito.
Procuro um jeito de encontrar afinal o cartão, um jeito para que ele me conduza até ela, um jeito para que ela não recuse vir me abraçar, eu pago, você sabe disso, herança recebida me dá certos luxos. Um jeito pra ela dormir comigo hoje, será que já está ocupada por hoje?
Tenho sim tantas outras possibilidades, testadas e aprovadas, mas é dela que sinto falta hoje, dela e das lembranças que criei hoje. Não que as lembranças reais não fossem suficientes para querê-la aqui ao meu lado, vai saber, tudo se confunde nas profundidades dos silêncios.
Começa um filme iraniano na TV com toda a sua própria lentidão, todo o seu silêncio. Que raios de canal é capaz de passar esses filmes? Digo isso de irritação, pois até gosto deles em meus dias de sossego, dias de atenção.
Mas foi sob o fundo silencioso do filme que ouço então o barulho do andar de cima, camas rangentes entre gemidos forçados. Urge então achar o cartão, urge então achar um jeito de ligar a ela e salvá-la desse vizinho, um jeito de trazê-la, em linha reta, três metros na vertical, nem se vestir é preciso. Mas o cartão foge mais uma vez de mim, como se passasse incólume por entre os meus dedos ansiosos.
Procuro um jeito de trazê-la prá perto. Será que ela ficaria por aqui alguns dias? Algumas noites, silenciosas ou não? Será que aceitaria dividir a leitura de poemas comigo? Aceitaria o pedido que tantas vezes pensei fazer? Moraria comigo aqui? Dividiria comigo essa biblioteca herdada, todos esses livros? Um casamento com comunhão de palavras e ideias? Deliro, nem sei se ela gosta de ler, se ela precisa de mudança na vida, se o silêncio a incomoda tanto quanto a mim.
Procuro um jeito de acabar com esse sufocante silêncio, se bem que o barulho da TV agora voltou, o olhar de desdém do gato voltou, que só não é mais barulhento que a TV por não produzir ruídos.
Abro a gaveta e o cartão está lá, me olhando e suspirando desejos.
Ligo e dá caixa postal...
Depois do bip, deixe seu recado, deixe seu desespero, deixe seus desejos, seus suspiros, seus gemidos, seus silêncios, seus incômodos. Deixe tudo isso que eu retorno quando quiser.
A cama do vizinho de cima volta a ranger.
Sem recados.
           Procuro um jeito para dar certo. Mas qual-o-quê, para esse silêncio não há jeito. Nem com jota nem com gê...

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Escolhas múltiplas

            Não é novidade a ninguém que tenha passado por algum tipo de escola nas últimas décadas no Brasil a avaliação por meio de questões de múltiplas escolhas. Também fui vítima delas, sem dúvida fui. Lembro de uma questão quando fiz o tal vestibular para entrar na universidade que só acertei porque lia, e gostava como ainda leio e gosto, o Asterix. Talvez tenha sido essa questão que tenha feito, em última instância, a diferença para poder cursar engenharia na Poli, curso que abandonaria um par de anos depois, provavelmente pelo fato de que Asterix não tinha me preparado o suficiente para ele.
            Em todo caso, eu sempre estranhei essa nomenclatura de “questões de múltiplas escolhas” pois na realidade elas continham apenas uma escolha, a menos que fossem mal formuladas, entre a correta e algumas tantas erradas. Por outro lado, a própria palavra escolha me parecia equivocada, como se pudesse haver alguma possibilidade de se querer escolher alguma alternativa errada. A escolha, se a há, seria entre chutar alguma resposta dentre as mais plausíveis no caso em que não se tivesse certeza de nada. E, no ensino daqueles dias sombrios, o que menos tínhamos era alguma certeza do que fosse.
            Muito respeitadas em uma época em que a ditadura militar dava as cartas do jogo no Brasil, essas questões de múltiplas escolhas sempre me pareceram fruto de um pensamento autoritário em comparação às questões dissertativas, essas sim mais condizentes com um livre pensar e com uma livre manifestação. E aqui, de novo, a palavra escolha traduzia a hipocrisia dos pensamentos autoritários, ainda hoje vigente em nossa sociedade. Mas essa é outra questão.
            Talvez tenha me alongado demais para introduzir o que queria realmente dizer. Chamou-me muita atenção o livro “Múltiplas Escolhas” do chileno Alejandro Zambra. Publicado no Chile em 2014 e agora traduzido ao português, esse livro traz excelentes textos (contos ou minicontos) disfarçados de questões de múltiplas escolhas. Não sem uma cruel coincidência, o autor se baseia em exames nacionais chilenos, similares aos nossos vestibulares, ministrados à época da correspondente ditadura militar e baseados nesse tipo de questões.
            E aqui acabam as macabras semelhanças. Em um jogo lúdico, o autor propõe uma série de questões, cada uma com cinco alternativas mas com a diferença de que não há, e nem poderia haver, um gabarito que, em um mundo ideal, diferenciasse o correto do errado. Em um extremo, há uma questão em que todas as alternativas são iguais e a múltipla escolha se resumirá a um sorriso no canto dos lábios de quem a lê. Mas fora esse caso singular, as escolhas feitas em cada uma dessas questões só indicarão opções, nunca uma escolha dicotômica entre o certo e o errado.
            Dessa forma, o autor subverte, de uma forma bastante inteligente, toda a lógica que estaria por trás de uma questão como essa e, ao mesmo tempo, permite ao leitor fazer suas opções. E, muitas vezes, as opções dirão muito sobre o leitor, ao contrário das questões tradicionais onde a única coisa que se aprende é sobre quem as formulou.
            O leitor, dessa forma, torna-se partícipe do texto, escolhendo, aqui sim, como certas estórias devem ser conduzidas, como são efetivamente seus personagens e como eles devem agir. Mas sim, há limites bem estabelecidos pelo autor, a algo deve servir quem escreve, não? Mas isso não interfere na qualidade do texto e das escolhas, fazendo com que as estórias fluam de forma interessantemente leve e verossímil, em uma crítica, por vezes atroz, ao regime militar chileno.
            Muitos poderão não gostar das opções apresentadas pelo autor, outros, porém, poderão se deliciar com a ironia que permeia todo o livro. A ironia, mais do que uma escolha, é uma fértil opção de quem se permite cultivar a liberdade.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Santan, já deu...


            Fazia uns bons dez anos que ele já não tinha mais uma conta corrente naquele banco espanhol. No entanto, um tal de Michel, autodenominado analista financeiro de sua conta, insistia em ligar a ele para oferecer aquelas tais vantagens irrecusáveis.
            Tratar com analistas financeiros e corretores que insistem e insistem em te aporrinhar a vida não é algo que se possa descrever assim tão facilmente. Há aqueles que se saem muito bem conversando com essas espécimes, mesmo tendo que deixar muito trabalho esperando por conta disso. Há, também, aqueles que se irritam facilmente com essa insistência.
            E há aqueles que passam por todos os estágios desse doloroso processo. Sabe os famosos estágios do luto? Negação, raiva, barganha, depressão e aceitação... Há também os estágios para se lidar com corretores e analistas financeiros... a diferença é que, nesses casos, o último estágio não é o de aceitação, e sim o da ironia.
            Você começa falando com o Michel, tentando explicar a ele, na vã esperança de que do outro lado da linha haja um ser sensato e decente, que a sua conta já foi fechada há mais de dez anos. O Michel irá então insistir que a conta está só inativa, mas não fechada e toca a listar aquelas ofertas de investimentos que são simplesmente imperdíveis. Você, ocupado que está, nega de novo que tenha uma conta com o banco espanhol e desliga. Essa fase dura, sei lá, uns três ou quatro telefonemas, até que Michel o alcança em um momento muito ocupado e potencialmente explosivo.
            Vem aí o estágio da raiva em que você, mal educado, não o deixa falar, e desliga o telefone na cara dele. Quantas ligações? O suficiente até perceber que isso não irá parar assim tão facilmente. Há treinamentos para os funcionários do banco, com yoga, técnicas de Xao-Tsé-Yong e tudo o mais, para ele aguentar firme a sua irritação. Parece que o banco até dá alguns prêmios para quem conseguir tirar mais do sério, mas sem se irritar, os clientes. O funcionário do mês passado do banco espanhol, dizem, foi um que conseguiu que o suposto cliente mastigasse e engolisse a própria língua de raiva enquanto mantinha o ritmo cardíaco constante. Ganhou até uma passagem para uma relaxante estadia em Barcelona.
            Barganha. Você tenta, depois de perceber que perder o humor não resolve, barganhar algo. Reafirma que a sua conta não existe mais e, quase suplicante, pede que o seu telefone seja retirado da lista de ex-clientes. Faz uma voz de quem está negociando um favor e espera por dias melhores.
            Mas, não adianta, nada disso adiantou ao nosso amigo. Deprimido, ele agora atende o telefone e deixa o outro, vencedor, falar e falar sobre as maravilhas de ser explorado pelo banco espanhol. As melhores taxas (para eles), os melhores investimentos (para eles), os melhores produtos (para eles)... E ele só responde que irá pensar no assunto...
            O telefone toca e nosso amigo investe, finalmente, no último estágio.
            - Alô?
            - Alô, eu queria falar com...
            - Michel!!! é você Michel?
            - ... ahn? é sim...
            - Mas você não morre tão cedo! Estava mesmo para te ligar...
            - É mesmo? eu...
            - Michel, Michel... claro, eu não me esqueço de você de jeito nenhum...
            - Que bom... eu queria te oferecer...
            - Michel, escuta... estou meio sem tempo para o seu papo furado de vendedor de túmulos. Mas faz o seguinte. Vende dois ou três milhões daquelas ações que eu tenho aí...
            - ... como assim? do que você está falando...   
            - Michel, Michel gozador, você não existe, cara... vai, arredonda e vende três milhões das ações, tá? Vi que elas estão valendo 15 reais cada, não vá me vender por menos, tá?
            - ... acho que você está enganado... eu...
            - enganado nada, acabo de ver, 15,02 por ação. E aí você faz o seguinte...
            - ... péra...
            - Mas Michel, quer sossegar? Estou com pressa hoje. Faz o seguinte: deposita quinze milhões naquela conta secreta que você controla pra mim, para o gasto do dia a dia. O resto, divide em três partes e  envia para aquelas contas no exterior, partes iguais... não vá me fazer confusão dessa vez, viu? Nada pra conta do deputado, nadinha... pra ele ver como é bom... e avisa o PH...
            - ... não estou entendendo nada, o senhor...
            - Michel, o brincalhão de sempre. Bom, é isso, deixa de ser preguiçoso que preciso disso pra ontem, tá? Tchau e beijo na sua esposa, diz pra ela que estou com saudades daquele foundue que só ela sabe fazer...
            E desliga.
            Dia seguinte, nosso amigo foi preso, pois a linha do Michel estava grampeada e ele teve que se explicar com relação a essa conversa. Quem era o deputado, e, principalmente, quais eram as suas ligações com o juiz Paulo Henrique...
            Ele bem que tentou se explicar, falou da conta encerrada há anos, da insistência do banco, tentou dizer que estava apenas tentando se ver livre do irritante Michel, mas isso foi mal entendido e quase que ele foi indiciado por tentativa de homicídio. A seu favor e a contar pelo teor da conversa, apenas o fato de que ele deveria ter muito dinheiro e, nessas horas, as leis o favorecem. Em crimes financeiros, excesso de provas só favorece o réu.
            Depois de duas semanas, desistiu de sua versão, a verdadeira, e propôs uma delação premiada. Delatou uma porção de gente que só conhecia pelas notícias de jornais, inventou estórias e contatos, conversas misteriosas e apelidos (isso eles gostam muito, aprofunda o mistério das relações e agitam as conversas de botequim). Acabou até sendo acareado com o tal Michel, que, parecia, tinha culpa em algum esquema. Ficou com pena do pobre coitado, vai pagar o pato, ao que parece (talvez seja esse o último estágio, a pena, vai saber...).
            No acordo, livrou-se de todos os possíveis processos, passados, presentes e futuros, recebeu seu passaporte de volta e, de quebra, também a sua carteira de motorista que estava suspensa por conta dos pontos conseguidos com multas por velocidade excessiva, todas elas, aliás, anistiadas. A sua dívida com o IPTU foi reduzida e ele entrou em um tal de REFIS com juros baixíssimos e trinta anos de prazo para pagar. Entrou também na negociação da delação a quitação de seu imóvel financiado, o perdão de suas dívidas com cartões de crédito de vários bancos além do cancelamento da pensão que ele suava todo mês para pagar à sua ex-esposa.
            Recebeu também vários brindes dos patrocinadores: carne pra churrasco, um celular, uma generosa quota de remédios e vitaminas, esfihas (das de promoção) por seis meses em qualquer uma das lojas da rede, cursos no sistema S, um pato amarelo plagiado de tamanho gigante, uma bolsa no idepê de Brasília...
            Ele já planeja repetir a dose no ano que vem... nada como ser um delator profissional nesse reality show.