quinta-feira, 31 de outubro de 2019

ainda em construção, três


          Alguma nuvem por aí deve ter registrado todos os passos dele naquele dia, coordenadas exatas em horários precisos. Deve ter tais dados por conta do serviço de localização de seu smartphone, visto que ele não se desgruda dele. Ou não, em vista de tantos coletores de dados espalhados por todos os lugares. O fato é que a nuvem sabe tudo, deve saber até o peso exato do número dois matinal daquele dia. Sabe quantos passos ele deu ao longo do dia, quantos degraus subiu, que pensamentos teve, quem xingou, a quem sorriu, por quem sua pressão arterial sobe, que companhias evitou na hora do almoço.
          Mas nada disso adiantou muito quando ele foi preso. Mas isso foi mais tarde.
          Ele ainda passaria horas à frente do computador depois que voltou para casa, já meio da tarde. Férias a serem programadas, visto que logo é janeiro, entrou em um site de compra de passagens. A nuvem então alertou todos os seus parceiros e, simultânea e freneticamente, apareceram e-mails, mensagens, zapzapeses e ligações oferecendo viagens, hotéis, aluguéis de carros e passeios magníficos não só para o local que ele planejara visitar mas também para todas as possíveis localizações do universo que possa ser visitado por alguém com o seu perfil. Barganhas, descontos, milhagens. E tudo isso vindo de um bocado de empresas, algumas que nunca tinha ouvido falar antes, outras que apareceriam e desapareceriam na mesma velocidade, até empresas tradicionais. Outras oferecendo os indefectíveis aplicativos, promoções não faltariam neles.
          Como há empresas e empreendedores nesse nosso mundinho! É, ele é feito de intermediários.
          Na dúvida de tantas opções que não paravam de pipocar na tela de seu computador, no face, no twitter, no cantinho da tela, pelo celular, resolveu então adiar suas decisões por alguns dias. Não que o que foi oferecido por tantos e tantos mensageiros seja ruim, mas ele é dos que perdem rapidamente o interesse diante de tanta pasteurização, de tantos guias michelãs dizendo onde comer e o que e como e quando. O que visitar, o que selfisizar, o que publicar no face para inveja de seus amigos. É, podemos dizer assim, ele é um daqueles pobres coitados que preferem férias sem tanto planejamento prévio, a surpresa ao virar a esquina, o restaurante improvisado, goste ou não da comida, o caminho percorrido a pé, o metrô na hora do rush, a praça cheia da cor local no final de semana, que a vida é assim, aprendeu ao longo dos anos, incoerente e surpreendente.
          Mas sorria, ignóbil, seu perfil está sendo preparado para melhor guiar seus passos.
          Tentou relaxar fazendo algo que vez ou outra ele faz: busca o seu livro na internet, o livro que escreveu há tanto tempo e que encalhou. Prazeres, o livro ainda está disponível na livraria, na compra virtual, em alguns sebos encontra até algum exemplar assinado (deve ser um dos inúmeros livros que enviou para divulgação e que foi vendido junto a outros tantos quilos de papel pelo destinatário). Prazeres, isso sim, bastou procurar o livro em um site e logo todos os outros apresentam ofertas dele, aparecem no meio da rolagem do face, no cantinho da tela, em mensagens do celular. Sabe que só ele estará vendo o seu livro em tanto destaque, mas, qual-o-quê, prazeres, prazeres não se descartam.
          Mais tarde, seria preso. Mais tarde, porém...

[[ continua na próxima semana...]]




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quinta-feira, 24 de outubro de 2019

ainda em construção, dois


          Saiu de casa, ainda garoava, mas como o aplicativo de tempo indicava um brilhante sol nem se preocupou pois certamente poderia dispensar o guarda-chuva e sua roupa úmida indicará apenas uma sensação relativa, nada relacionado à realidade garantida pelo aplicativo. Sensação térmica, sensação de umidade, sensação de infelicidade. Aproveitou para checar quantos passos tinha dado no dia anterior e recebeu de seu celular uma bronca por não ter se esforçado tanto nos últimos dias. Respondeu com um palavrão, ao que o Siri disse que não comentaria sua fala.
          Riu da gentileza da tal inteligência artificial.
          Chamou um uber, recusado, outro, outra recusa. O terceiro veio, mas demorou, talvez se atrase ao seu compromisso.
          Já dentro do carro ele recebeu o primeiro dos inúmeros telefonemas do dia que não se completam, que só irritam e quando se completam, irritam mais ainda. Algum sistema em alguma nuvem (cinzenta, claro) tem registrado que, já que ele comprou um apartamento um dia, então está disponível a todos, literalmente todos, os corretores de imóveis do país para escutar suas ofertas e, talvez, comprar imóveis à batelada. Impossível sair de uma lista de corretores quando se entra nela. Tampouco ele conseguiu se livrar das ligações não rastreáveis da BIBO, da Olá e da Obscura...
          Não deixe de sorrir, sua conexão é muito importante para nós.
          O uber o deixou frente à concessionária de automóveis, as notas dadas mutuamente por ele e pelo motorista indicam que não houve empatia entre os dois. O que aconteceu realmente naquele curto trajeto o frio sistema de notas não indica nem indicará. Só que ele continuará com suas dificuldades para chamar ubers. É preciso melhorar suas pontuações, mais algo a se preocupar no dia a dia.
          Para retirar o carro recém comprado, o vendedor quis que ele preenchesse um formulário. Número de filhos, se tinha casa própria, quantos aspiradores de pó, televisores, carros, renda familiar. Frente ao papel contendo essas perguntas, recusou-se a responder. Pagara o carro a vista, por que necessitavam desses dados? O vendedor não entendeu a recusa, nunca entendem, nunca entendem porque recusar passar informações aos donos das concessionárias, por que a recusa em dizer o limite do cartão de crédito ou quantos cachorros você tem em casa, ou quantas viagens você faz por ano, se há parentes mais ricos na sua família e quantos e como contactá-los... São só questões... são só exposições de intimidade... são só dados que já são públicos... nunca entendem a sua recusa.
          O seu perfil está ainda em constante construção.
          Dois minutos depois de deixar o seu número celular com o vendedor da concessionária, uma mensagem dizendo que, por conta da compra do carro, ele tinha ganho a possibilidade de fazer uma viagem a Disney com desconto. Serve Paris? Serve Amsterdam? Serve Bacurau?
          O carro, aprende ele com o gentil e entusiasmado atendente, apita, em vários tons e intensidades, por todos os possíveis lugares e mais variados motivos, é para te disciplinar a fazer tudo conforme o manual estabelecido por alguém que não conhece e nunca conhecerá. Posso desligar esse apito? ele pergunta. Não, é de fábrica, é para o seu bem-estar, é para a sua segurança... Mas o carro vem sem protetor de carter, essencial comprar um, diz o vendedor. Mas o carro vem sem essa proteção de pintura, sem proteção lateral, sem tapetinho, todos essenciais, esse líquido ajuda a preservar os bancos, quer pagar mais uma fortuna por ele? Parece tão essencial que já te ofereceram três vezes, inclusive por e-mail. Ele passa quase uma hora dizendo não, dizendo não, tentando ser simpático. Mas os apitos disciplinadores, vem todos.
          Ah, vem sem gasolina também... melhor parar nesse posto da esquina do primo do dono da concessionária, melhor parar pois talvez não consiga rodar mais do que isso... Mas vem com um baita laço vermelho na capota, isso sim, acompanhado de um formulário de satisfação...
          Sincronizou o waze no computador de bordo, o mesmo que recomendou uma série de rádios para ele ouvir. Nenhuma de seu gosto, aliás. Reprogramou. De onde vem essa gente que programa o carro?
          Abastecido, o carro pode agora rodar a longa volta que ele escolheu para se acostumar com o novo veículo. Como rodava devagar, muito devagar, aproveitando seu dia e pensando, o waze foi alimentado com sua baixa velocidade e indicou aos outros motoristas um possível tráfego lento por certas vias levando mais e mais pessoas a evitarem esse caminho até que só sobrou ele wazendo na via e retroalimentando o suposto congestionamento. Olhava pela janela e nenhum carro, só o seu vagaroso andar, mas o waze avermelhava sua via. A moça de doce voz refazia e refazia os caminhos que ele insistia em não cumprir. Qualquer hora até ela perde a paciência.

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quinta-feira, 17 de outubro de 2019

ainda em construção, um


          A BIBO registrou, logo às 7h43 da manhã daquele dia o acesso ao seu 4G, desligado desde as 23h02 do dia anterior. Mas mesmo antes disso, o seu iPhone anotou que, pelo terceiro dia consecutivo, ele acordou às 7h30 a partir do sonoro e irritante toque de despertar, escolhido por algum arrogante programador do Vale do Sílicio. Como sempre, os dedos ágeis de sua pesada mão tocou a tela do aparelho no exato ponto de propiciá-lo uma dormida extra, uma soneca de preci(o)sos nove minutos, conforme estabelece um padrão internacional acordado (sem trocadilhos...) após extenso estudo feito por uma prestigiosa universidade americana.
          Três dias consecutivos acordando no mesmo horário criam um padrão, estabelecem um perfil, alertam os algoritmos de que algo precisa ser registrado, ao menos nas cabeças preguiçosas de certos programadores. Cuidado, no entanto, mais uma repetição de horário de despertar e ele estará condenado a ser escravo para sempre do alarme digital acordando-o precisamente às 7h30, nem minuto antes nem minuto depois. E não haverá maneira de convencer o aparelho, já devidamente orientado, do contrário, nem mesmo nos finais de semana, nem mesmos nos dias de preguiça.
          Olhou a previsão do tempo em seu aplicativo que indicava já haver um maravilhoso sol naquele momento, coisa que seus olhos não confirmaram ao abrir ligeiramente a janela e constatar o chuvisco presente. Importa não, o aplicativo é que deve estar certo. Vestiu-se de acordo.
          Barba, banho, roupa limpa e café. A essa altura, o celular já o tinha lembrado de inserir a sua senha do iCloud sem se atentar ou aprender (isso é que é inteligência artificial???) com as centenas de vezes em que ignorou tal lembrança. Só aprendem quando convém, até diríamos, mas não sejamos tão injustos com essa tecnologia toda. Também a essa altura do dia, o celular já o teria alertado a atualizar, pela n-ésima vez só essa semana, o sistema operacional, lembrá-lo dos aniversários do dia (isso é útil) e das cotações da bolsa de valores de sete cidades, incluindo a de Shangai . Parece que seu celular foi acessado naquele dia em que passava à frente da Bolsa aqui em São Paulo e, por isso, a inteligência artificial interpretou que ele, que sequer tinha algum trocado sobrando depois das necessidades básicas, estaria imensamente interessado em saber, todas as santas manhãs, as cotações de 37 ações, justamente as mais negociadas ao longo do dia anterior, vigentes quer seja em sua cidade quer seja em uma das outras inúmeras cidades do globo. E não havia botão para desligar essa função. Acostumou-se com isso então, com mais isso e até se divertia, por vezes, em analisar a subida e descida  as cotações de ações que sequer passaria perto.
          Sorria, o seu perfil está em constante construção. Pedimos desculpas por qualquer inconveniente. Sua conexão é muito importante para nós.
          Às 8h32, foi brindado pelo seu agitado celular com um pequeno vídeo com fotos antigas, de exato um ano atrás. Seu relógio hightech registrou então para posterior análise um ligeiro aumento na pressão arterial. Também pudera, aquelas fotos lembranças traziam e que lembranças! Mas essa conexão, aumento arterial e lembranças, passará desapercebida ao sistema operacional, sim estamos ainda em construção e tal o quê, o que o médico irá receber ao final do dia será justamente um urgente relatório atestando, sem explicações ou conexões, essa variação de pressão e provavelmente irá relacioná-la com o tipo de café que ele tomava em seu desjejum.
          Terá que mudar novamente o café, a conselho médico.

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quinta-feira, 10 de outubro de 2019

ups and downs


Um estudo feito por uma prestigiosa universidade americana revelou que quanto mais vezes se aperta o botão de chamada do elevador mais rápido ele virá. Algo que é intuitivo entre os paulistanos teve agora uma comprovação científica.

O mesmo estudo tentou entender o comportamento dos entrevistados frente aos dois botões de chamada do elevador, o para cima e o para baixo. Se você estiver, por exemplo, no andar térreo e quiser ir ao quinto andar, mas o elevador está no terceiro andar, qual botão você aperta? As opções dadas eram:

(a) você aperta o botão de subida (é claro, você quer subir).
(b) você aperta o botão de descida (é claro, você quer que o elevador desça).
(c) você se faz de desentendido e espera alguém chegar e apertar um dos dois botões.
(d) você vai pelas escadas.

Surpreendentemente, nenhuma relação foi encontrada entre a resposta dada e o QI do entrevistado.
Novos estudos serão necessários e os pesquisadores já estão recrutando candidatos.



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quinta-feira, 3 de outubro de 2019

iba áles, quinze (ajac)


          -iba áles a todos e bem-vindos a mais um programa de entrevistas da ajac, a nossa associação de juristas aposentados compulsoriamente.
[[ claque de palmas gravado já que o estúdio estava vazio ]]
          -obrigado, obrigado. nosso convidado de hoje é um... como dizer... um recordista. em menos de seis meses, ele toma posse como juiz e já está aposentado compulsoriamente.
          -cinco meses...
          -como?
          -foram menos do que cinco meses...
          -ah!!! é mesmo um recordista!!
[[claque de palmas]]
          -mas como você explica isso, caríssimo?
          -obrigado, thales, muito gentil de sua parte, mas devo confessar, minha trajetória não é para qualquer um não.
          -muita meritocracia, não é mesmo?
          -é, ... , muita meritocracia sim.
          -mas, conte-nos como foi isso.
          -bom, você deve saber que venho de uma família da área...
          -sim, sabemos. o seu pai, por exemplo, muito nos orgulha. e para quem não sabe, ele foi um presidente da ajac muito ativo, muito guerreiro por nossos direitos.
          -orgulho-me muito dele.
          -e o seu avô, então?
          -grande avô!!! é como dizemos lá em casa, de pai para filho desde a primeira república...
          -a propósito, como é aquela história de filial?
          -rsrsrsr somos a filial de higienópolis da ajac... com todo o respeito.
[[ o recordista quase que disse que na realidade eles se acham a matriz da ajac,
mas pegaria mal dizer isso me público ]]
          -mas vamos à fantástica história do recorde.
          -gentileza sua chamar desse jeito.
          -nada. e deixa de fingir modéstia, todo mundo sabe que isso você não é!
          -e não sou mesmo. tenho orgulho do que conquistei com meus méritos!!!
[[claque de risadas espontâneas mas contidas]]
          -rsrsr... foi em março que você passou no concurso, não?
          -foi março sim. tomei posse em abril e em setembro já estava aposentado.
          -nem cinco meses.
          -nem cinco meses.
          -conta mais.
          -pura meritocracia, já disse. assim que tomei posse, já comecei a agir, um contato aqui, outro ali, um depósito acolá, uma liminar premiada e assim foi indo. tinha pressa e foi isso que chamou a atenção dos julgadores.
          -como assim?
          -eles não estavam acostumados a ver tantos processos sendo resolvidos de imediato. você sabe muito bem como é a demora nos julgamentos nesse país!
          -e a sua agilidade chamou a atenção... muito esperto.
          -aí veio a denúncia anônima.
          -dizem que não foi tão anônima assim...
          -rsrsrs
          -não quer falar sobre isso, não é?
          -digamos que veio a denúncia anônima que foi o que gerou a abertura do processo contra mim.
          -mesmo assim, o processo correu muito rapidamente.
          -essa foi a parte fácil. quando interessa, tudo vai depressa e quando se tem conhecidos, é fácil interessá-los.
          -e você foi julgado, condenado e, de praxe, ganhou uma aposentadoria compulsória.
          -em resumo, isso!
          -mas diga uma coisa. não deve ser muito grande essa aposentadoria, né? é proporcional ao tempo trabalhado, não entendo a sua satisfação.
          -aí é que está. entrei com uma liminar e consegui que me pagassem o salário integral...
          -liminar?
          -é sim. e me pagam também todos os penduricalhos e inimagináveis verbas indenizatórias: auxílio moradia, auxílio jardinagem, auxílio livros, auxílio strogonoff, auxílio educação, meus e de meus futuros filhos e netos, décimo quarto, quinto e sexto, férias dos anos não trabalhados, auxílio paletó, auxílio cueca, auxílio o escambau a quatro...
          -mas é só uma liminar, não?
          -é, mas já está está no final da fila para entrar em julgamento e, depois, quando prescrever, tudo o que recebo será direito adquirido. não há como perder.
          -é mesmo um fenômeno!!! uma salva de palmas ao nosso recordista e que sirva de exemplo a essa juventude desencaminhada.
[[ palmas e mais palmas ]]
          -iba áles, thales!
          -iba áles a todos!!!