quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Estrelinhas vermelhas


          Sabe quando você gosta de alguém ? E o sentimento é recíproco ? Vocês se encaixam muito bem e tudo o mais ? Pois era assim.
          Sabe quando ela usa um cabelo curtinho, era liso e negro, escorrido combinando com o seu corpo mignon e mal disfarçando o sorriso franco e o par de estrelinhas vermelhas tatuadas na nuca ? Ela gostava de usá-lo assim... e eu também, adorava gozar mirando as estrelas !!
          Sabe quando tudo é belo, mas uma palavra mal colocada estraga tudo? Pois é!
          Sabe quando você já tinha vivido quinze anos com alguém que quer controlar todos os seus passos ? É duro... sempre sobram efeitos colaterais mal resolvidos em seus sentimentos, o passado dura para sempre... Pois bem.
          Sabe quando o relacionamento de quinze anos termina finalmente e você se promete nunca mais viver assim? Tem a ver com maturidade, dizem. Pois foi o que aconteceu.
          Uma palavra mal colocada, quinze anos de memórias e esse encontro com as estrelinhas vermelhas não durou nem três meses. E olha que eu gosto muito de estrelinhas...
          Sabe como é?


[[ Esse conto apareceu publicado no meu livro "Contos&Vinténs", publicado pela Editora A Girafa em 2012]]


Ótimo 2K20 a todos !!!! 


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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Refúgio



          Homem não chora, ao menos não deveria, dizia o seu avô. Pensava nisto no momento em que atravessava aquela porta do asilo. Ele sabia muito bem o que esperar desta visita. Ver o avô, revê-lo, tentar inutilmente trazê-lo de volta ao seu convívio, tanta coisa aprendera com ele, o drible seco, a velocidade no arranque, a antecipação rápida do lance, o arremate. Nada de firulas, direto, seco, sucinto, como um bilhete de despedida.
          Mas, tudo isto, era passado, passado que queria de volta, um instante que fosse, para poder dividir com o avô aquele jogo do último final de semana, será que o avô o assistira ? O seu jogo, o que importava... Queria discutir com ele o resultado, sentir o carinho de avô pelo menino de 9 anos, o menino que já não era mais. Sua constante admiração, seu inevitável incentivo. A porta se fechou atrás de si, aquela grande sala onde o deixaram esperando por seu avô. Um silêncio e só.
          Não são todos que sabem o quão é escuro um túnel de vestiário em dia de decisão mas o avô, sim, iria entendê-lo, os dois dividindo as mesmas experiências. Sim, aquilo pesa, esmaga. Fica-se na boca do túnel séculos à espera, ouve-se perfeitamente a torcida, a gritaria. A gente quer entrar no campo a qualquer custo, começar logo o jogo, só se sossega com a bola rolando. Mas entre o túnel e o jogo há incontáveis segundos e o aquecimento final e a moedinha e, principalmente, a espera, a injusta e inacabável espera de séculos.
          E o jogo começa e tudo parece mais frenético, nem se pensa direito nestas horas... bola pro mato, cara !  Mas tem um instante, sempre tem, entre o chuá da bola na rede e o grito da torcida, um instante... até parece que não existe nada e, dizem, não existe mesmo; um instante em que tudo muda em sua vida, a linha tênue separando o sucesso e o fracasso, ou vice-versa ou tanto faz. Lá vinha ele, agora, passo arrastado, final do corredor, olhar distante, seu avô.
          Tentariam conversar, não conseguiriam, ele iria tentar contar ao avô sobre a final do campeonato, dividir suas emoções, mas iria também se exasperar com o seu distanciamento, parecia até que nem o reconhecia, seu avô falaria de várias coisas, do passado, de seu agora isolado mundo de lembranças, da final que participara, de como era difícil esperar pelo começo do jogo... Homem não chora, ele iria repetir vezes e vezes, sem esconder a emoção sublimada. Ao menos, não deveria.
          A bola no meio do campo para o recomeço, heróis e bandidos, juizes ladrões e bandeirinhas incompetentes. Todo o nosso imenso imaginário coletivo fazia parte de suas conversas com o avô, hoje restou o monólogo. Curto, seco, sucinto.
          E o silêncio da torcida, aquele mutismo frente ao gol do adversário, o grito inibido e constrangido do locutor local. Não há nada pior para se encarar do que o gol contra em uma final de campeonato. Nem mesmo chorar. De alegria ou tristeza que seja.
            Não esperou mais, não poderia. A porta se fechou atrás de si, frente ao olhar incrédulo do avô. Desta vez, definitivamente.

[[ Esse conto apareceu publicado no meu livro "Gambiarra e outros paliativos emocionais", editado pela Arte PauBrasil em 2007]]



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quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Cepillos


          Par de meses atrás, fomos a Buenos Aires. Fazia um tempo que não a visitava sem compromissos outros que o de passear por ela, que o de me esquecer no tempo, que o de me perder em suas ruas e passado. E lá, convenhamos, é possível se fazer isso, se esquecer do tempo.
          Sem pressa, conto algumas coisas.
Uma delas? Fazia tempo que eu procurava um bom pincel para fazer a barba (sim, sou daqueles que usa creme de barbear, pincel e gillette...). Brocha de afeitar, assim aprendi a procurar por lá.
Em São Paulo, já tinha até desistido e quis aproveitar que estava em uma cidade como Buenos Aires, certeza de encontrar. Na realidade, deve até ser possível encontrar um bom pincel de barbear em algum lugar dessa minha cidade natal, seguramente, mas onde? Cidade dispersa em que nada tem seu lugar, onde somos (eu, certamente sou) pré-históricos, onde tudo parece conspirar contra você. As que achei, de fato, eram feitas de pelos de plásticos, que arranham a pele.
Mas em Buenos Aires, com seu incomparável ar histórico (principalmente no centro), eu sabia que encontraria um bom pincel para barbear. E não tardou muito, pergunta aqui e acolá, me indicaram uma loja, logo ali, duas quadras direto e virando à esquerda, não há como errar.
E lá estava ela, El rey del Cepillo, especializada em plumeros, escobillones, cepillos de ropa, de cabelo e, claro, brochas de afeitar.
 Entramos na pequena loja como se muda de dimensão temporal. Uma senhora muito simpática a atender. Na conversa, contou-nos que ela e o marido tinham aquela loja há muito tempo. Notava-se, loja simples, mas bem cuidada e suprida, loja especializada que deve ter mantido o sustento da família em todos aqueles anos. Viajo em meus pensamentos, imagino os filhos do casal já formados e exercendo profissões diversas, a primogênita é médica, o do meio virou artista e a caçula, ah essa ainda vai se achar na vida...
Viúva? pergunto-me. Pelo olhar saudoso com que ela nos diz a idade da loja tudo me leva a crer que sim. Sim, seu olhar nos transmite toda uma história desse casal, dessa família e de sua luta, de seus desafios, de todas as crises vividas e, quem sabe, da fome dos tempos piores, das esperanças e dos desesperos. E é certo que, mesmo triste, seu olhar traz a certeza de que ainda há espaço para uma loja artesanal de cepillos no centro de uma grande cidade como Buenos Aires.
Ela me mostrou todas, literalmente todas, as brochas de afeitar que tinha à disposição, todas muito parecidas, mas nunca iguais, nunca o serão é verdade, pelos de animais distintos não podem produzir o mesmo efeito em sua pele. E ela, consciente disso, passava em sua pele os pelos macios do pincel antes de me mostrar. Fez isso com todos os pincéis, abria a caixinha, retirava-o, passava ligeiramente em sua pele e só então eu teria permissão para testar e ver se gostava.
O que ela pensava enquanto passava ligeiramente o pincel na pele das costas de sua mão? Nunca saberei, mas sentia nisso um momento especial dela, uma lembrança, ou várias a depender de como o pelo alisava sua pele com história, a depender da carícia feita com lembranças.
Estávamos sem pressa aquele dia, mas, mesmo que estivéssemos apurados, nada na vida justificaria apressá-la em seu ritual, naquele momento que era só dela (e de quem mais participasse de suas memórias). Segundos que fossem, ela parecia se ausentar dali, esquecia nossa presença ao sentir o pelo alisando sua enrugada pele, o improvável pelo ativador de memórias.
Cada ruga, uma lembrança, não é assim que elas surgem? E não é na carícia que elas são reativadas?
Por fim, escolhi o que queria, depois de conversarmos sobre passados e presentes. Quanto tempo ficamos lá? Nem foi tanto, no registro do relógio, mas foi muito no da memória.
Dia sim, dia não, faço a minha barba no ritual de décadas. Mas agora, ao sentir o pincel espalhar a espuma em meu rosto, sinto a necessidade do tempo parado, do tempo passado e, segundos apenas, pareço voltar à lojinha e ao olhar da velhinha quando sentia o pelo do pincel acariciar sua pele ativando lembranças.
Sei que a barba continuará a crescer e que terei por algum tempo ainda à minha disposição essa rotina, esse momento especial. Ainda bem.



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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

iba áles, dezesseis


          - iba áles a todos nessa noite magnífica...
          - iba áles – respondeu em uníssono a plateia desentusiasmada.
          - para a nossa palestra semanal, tenho o prazer hoje de anunciar o nosso querido Dr. Duplais, eminente acadêmico e autor do premiadíssimo “O reverso da bala”. PhD por uma prestigiada universidade americana, ele recentemente ganhou o prêmio PsiHum que é considerado por muitos como o Nobel em sua área de pesquisa. Atualmente ele vive na República de Hygina onde suas ideias têm servido como base principal de vitoriosas políticas públicas. Sem mais delongas, quero que recebam com calorosas palmas, o Dr. Duplais!
[calorosas palmas, ninguém é bobo por aqui...]
          - iba áles a todos os presentes e obrigado por suas amáveis palavras.
[mais palmas, essas menos calorosas, faltou ensaiar melhor essa parte]
          - como começar? sei que a violência é um assunto de interesse de todos e, por isso, vou começar com a tal da excludente de ilicitude que, para muitos, é um termo polêmico. pela expressão, até parece que não haverá punição para certos crimes ou, de acordo com certos extremistas que precisam ser alijados de nossa sociedade, haveria até uma tal permissão para matar como se vivêssemos na década de sessenta e fôssemos um tal de 007... quem vive no passado é justamente essa oposição desorientada mas perigosa. pois bem, vamos imaginar uma cena corriqueira de nossa sociedade: uma bala perdida atinge em cheio um marginal ou mesmo alguém, uma criança que seja, a quem irão depois, em uma total inversão de valores, imputar inocência... abro um parêntesis aqui. nosso grande líder já disse que não existem inocentes vagando impunes por esses locais onde agem as balas perdidas, e isso é fato comprovado, basta perguntar a qualquer amigo seu de twitter! pois bem, a bala perdida acerta o elemento e ele morre. morreu, o que fazer? é definitivo, esse elemento agora irá responder por suas ações, e seguramente há culpas a serem respondidas, com Deus, isso é lá entre os dois... já não cabe mais à sociedade se meter em algo que é agora privado.
          [pausa para o palestrante beber um copo da água patrocinadora do evento]
          - ... mas, pensem bem, e como estará o autor do disparo da bala perdida? acham que ele estará bem? que ilusão, estará um frangalho, eu diria, totalmente arrasado, destruído emocionalmente, alguém previsivelmente acometido de medo, surpreso e frente a uma violenta emoção. sim, amigos, assim estará o autor do disparo da bala perdida, há estudos detalhados sobre isso... e, cá para nós, qual punição maior do que isso? é exatamente isso que chamei de bala reversa em meu estudo, pois ele pode ter disparado a bala perdida, assumamos que assim foi, mas quem é de fato atingido por ela, metaforicamente falando, é ele mesmo, o dito sobrevivente mas que será cruxificado impiedosamente pela opinião pública e por essas ONGs financiadas por atores estrangeiros desocupados. a bala reversa o atingirá inevitavelmente e é preciso levar isso em consideração, o autor do disparo da bala perdida é a verdadeira vítima dessa história.
            [mais uma pausa para que a plateia, em transe, se convença do argumento usado. o palestrante olha demoradamente os vários setores da audiência agora muda]
            - por isso, excludente de ilicitude, mas como, se não há ilicitude? e se alguém disser que poderia haver, só o sofrimento do autor do disparo, a real vítima dessa ação, naquele momento se configuraria uma punição. mas não há ilicitude e, portanto, ela deve ser excluída, esse é o espírito da lei, a definitiva exclusão da responsabilidade por uma inexistente ilicitude, nada mais claro que isso. pessoalmente, acho até que isso dá margem a uma longa discussão e releituras por parte de nossos supremos magistrados. para mim, não se pode excluir algo que não existe, como excluir uma ilicitude que não existe? mas entendo as precauções jurídicas envolvidas, direito não é uma ciência exata, e melhor que isso esteja escrito de forma inequívoca.
            [mais uma pausa, outro gole na água.]
            - pois bem, amigos, não vou cansá-los com tecnicalidades e estudos nessa linda noite. agradeço a presença de todos... e iba áles!
            [palmas esfuziantes e o apresentador retorna, abraça o palestrante, trocam sorrisos...]
            - iba áles, Dr. Duplais! quem quiser comprar o livro A bala reversa, e tenho a certeza de que todos vão querer uma cópia autografada, a obra está à venda em nossa lojinha à entrada do auditório. e hoje, com uma promoção: 20% do preço do livro podem ser pagos usando parte do dízimo mensal devido por cada um.
            [manifestações de prazer e entusiasmo]
            - só me resta agradecer novamente o novo ilustre convidado e desejar a todos um grandissíssimo iba áles...

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Cadastro Positivo


             O Diário Oficial da União publicou a regulamentação do tal cadastro positivo às 8 da manhã daquele dia, mas ele não estava acompanhando isso direito. Cinco minutos depois, porém, ele recebe um telefonema, justamente no momento em que se preparava para pagar, online, um par de contas que venciam.

          - alô
          - oi, o Flávio está?
          - sim, é ele. Quem fala?
          - oi, Flávio, aqui é da Fucktual, o seu banco virtual...
          - ãhn... não conheço.
          - a gente estava querendo congratular você por conta de seu cadastro positivo. Aqui consta que você nunca atrasou o pagamento de uma conta, quer dizer, teve um pequeno atraso aqui em 2003, mas você pagou no dia seguinte com todas as multas... isso nem conta, não é?
          - e?
          - Flávio, você é...
          - eu te conheço?
          - rsrsr, estava dizendo que você é o tipo de cliente que a Fucktual se orgulha em ter...
          - mas eu não sou cliente de vocês.
          - não é o que consta, mas deixa eu começar do começo.
          - comece sim.
          - por conta do seu histórico de pagamento, você foi premiado pela Fucktual, o seu banco virtual. Parabéns, meu caríssimo! A partir de hoje você terá 500 mil reais à disposição para gastar no que quiser...
          - assim?
          - ... e pagar tudo isso em suaves prestações! Parabéns!!!
          - ah! muito obrigado, mas não!
          - você nem precisar estar se preocupando, o valor já está na sua conta!
          - como assim, que conta?
          - na conta da Fucktual, o seu banco virtual!
          - mas eu não tenho conta nesse banco.
          - tem sim, Flávio.
          - você me conhece? E não tenho não...
          - tem sim, nós a abrimos para podermos depositar o seu empréstimo.
          - como assim? Abriram uma conta? Mas eu não autorizei isso.
          - é só você ver no nosso aplicativo, entra lá e terá todas as informações dessa conta. Não esqueça de incluir uma foto no seu perfil e autorizar a divulgação de seus dados nas redes sociais!
          - eu não tenho esse aplicativo, e nem quero ter.
          - não tem? Em que mundo você vive, Flávio?
          - você me conhece? O que tem a ver em que mundo vivo?
          - é fácil, Flávio, você baixa o aplicativo, depois cadastra uma senha, mas isso tem que ser feito pessoalmente em nossa única agência, você sabe, são normas de segurança... e aproveita e traz os documentos comprobatórios da abertura da conta, normas do Banco Central.
          - péra aí! Eu não quero abrir uma conta no Fuck....
          - fucktual, Flávio, Fucktual, o seu banco virtual!
          - que seja. Não quero abrir uma conta, não quero um empréstimo, não pedi por nada disso.
          - mas o seu cadastro positivo te permite isso, bom pagadores são sempre bem-vindos no Fucktual, o seu bando, digo banco virtual.
          - mas eu não quero. Fecha essa conta e desfaça o empréstimo.
          - bom, Flávio, para fechar a conta você tem que vir pessoalmente à nossa única agência, normas do Banco Central, mas você tem certeza disso? pense bem no que você pode comprar com 500 mil reais!
          - claro que tenho certeza!
          - é uma pena. Você vai precisar de um pedido de encerramento de conta assinado por você e por duas testemunhas que não tenham débitos na praça, aliás isso é fácil de ver agora, basta entrar no aplicativo do tal cadastro positivo e procurar. Ah, e não se esqueça de reconhecer todas as firmas. Por precaução, leve as suas testemunhas para assinarem no cartório.
          - você está louco, não?
          - são normas do Banco Central, não posso fazer nada. Daí você tem que esperar o seu pedido ser analisado por nosso banco e pelo BC, seis meses no máximo, se tudo estiver de acordo.
          - seis meses? E nesse tempo?
          - bom, o seu empréstimo já está concedido e inclusive em sua conta, pode utilizá-lo assim que tiver a senha.
          - eu não pedi essa 4#%&* de empréstimo!
          - mas você tem direito a ele, é um prêmio por conta de seu cadastro positivo, você devia se orgulhar disso. Nós nos orgulhamos em tê-lo como cliente!
          - ... e enquanto não se acerta isso, eu pago juros, não?
          - claro, ou você acreditou naquela baboseira do dezessete que estávamos vivendo num país socialista?
          - juros menores por eu estar bem colocado no cadastro positivo, é isso?
          - bom, não é bem assim, Flávio.
          - eu te conheço? Como é, então?
          - se você fosse um mau pagador, a gente precisaria garantir que ao menos parte de sua dívida fosse quitada e, nesse caso, renegociaríamos juros, isentaríamos taxas, estenderíamos o prazo, até reduziríamos substancialmente a dívida...
          - mas como eu sou um bom pagador...
          - sim, como você é um bom pagador, a gente cobra os juros usuais, até maiores, visto que você terá a preocupação de pagar suas dívidas. Nós não estamos nem um pouco preocupados com essa dívida, seu cadastro é impecável!
          - &%$$@&*#

          Agora ele olha os boletos que precisava pagar com preocupação. Venciam hoje e se não os pagasse mancharia o tal cadastro impecável. Por fim, abriu a gaveta e os depositou lá, só pensaria nisso na semana seguinte.
          Tarde demais, o telefone voltou a tocar... 



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quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Meirinho


as instituições estão funcionando plenamente
as instituições estão funcionando plenamente
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as instituições estão funcionando plenamente

o que? não se convenceu? 

meirinho, olho nele!!!

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

ainda em construção, quinto


          Em tempos tão tecnológicos e virtualmente excitantes deveria surpreender a violência dos braços, a arrogância das palavras de ordem, a pressão das algemas, os socos no estômago e os tapas na cara. Mas, qual-o-quê, nada disso assusta nesses nossos tempos estranhos. Ao contrário, há até torcida uniformizada (com camisetas emprestadas de times nacionais) urrando por mais e mais violência.
          Ele foi preso bem em frente de seu prédio com todo o escândalo usual dessas horas. Com direito a celulares filmando as ações, com direito a selfies sorridentes que posteriormente serão postados nos faces da moda. Com direito até a matéria no jornal da noite. Só não teve direito a respeito ou justiça.
          Nada adiantou ele dizer que era inocente, pois quem acreditaria que o sistema de reconhecimento facial teria falhado? Certamente não os fardados que foram acionados de forma automática pelo sistema instalado no prédio em que ele morava e que indicou uma tentativa agressiva de invasão domiciliar, ainda bem que frustada pela agilidade do porteiro que a impediu de forma enérgica (ou ao menos assim constaria no relatório policial).
          Ele até teria a possibilidade, teórica por assim dizer, de se defender das acusações, mas qual delegado, qual juiz, quais juízes de segunda, terceira ou mesmo supremas instâncias, iria(m) contra um relatório produzido automaticamente pela inteligência artificial que geria o sistema de reconhecimento facial? Mais fácil aceitar que a tecnologia não erra e tocar a vida, ainda mais que ele não tinha parentes no sistema judicial, ou em outra elite qualquer, a quem recorrer.
          Se o relatório aponta que ele esteve em três assaltos, quem poderia contestá-lo? Seguramente não o próprio ele que garantia que, à hora dos assaltos, estava ele na concessionária retirando seu novo carro, ou rodando com ele ou mesmo a bordo do computador planejando sua próxima viagem. Tudo devidamente registrado por outros sistemas visuais ou de localização e armazenados em nuvens.
          A bem da verdade, teve até uma instância de julgamento onde essas questões foram levadas a sério e até um levantamento foi feito com câmeras de ruas que comprovavam a veracidade da narrativa do pobre coitado do réu que, até hoje, se arrepende de ter saído de casa naquele momento em que alguma pane levou o sistema recém instalado de seu prédio a não reconhecê-lo mais como morador que era.
          Mas, voltando, a justiça, naquela instância já intermediária, reconhecer que ele teria razão traria consequências claramente desagradáveis. Por um lado, indicaria que houve algum erro nas investigações/julgamentos preliminares e isso é inaceitável em se tratando de um réu sem padrinhos. Coorporativismo iba áles, esse é o lema. Por outro, soube-se ao longo do processo, o dono da franquia do sistema de reconhecimento facial no Brasil era primo de uma importante figura da república e seguramente algum interesse financeiro deveria haver em garantir a idoneidade do sistema.
          O pobre do coitado do réu, sem padrinhos e mero cidadão de escalão inferior, foi finalmente condenado e até com uma certa inusual agilidade. Dizem que a rapidez em que o processo foi julgado trouxe um aumento das cotações da tal franquia, mas isso, imputam os especialistas, nada teria a ver com as calças.
          Ele cumpriria sua pena enquanto o seu perfil seguia sendo aperfeiçoado, mesmo ainda em construção. Sairia da prisão com dificuldades em retomar sua vida, mas isso, dirá a justiça, foi totalmente sua culpa.
          Mas a tecnologia, a tecnologia seguiria iba áles.



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quinta-feira, 7 de novembro de 2019

ainda em construção, quatro


Ele leu uma vez, parecia até futuro. A imagem de um rosto humano padrão (seja lá o que for isso) foi dividido em 867 pequenos pedaços e, distribuídos em respectivos 867 grupos de pesquisa e análise ao redor do mundo, para que cada um desenvolvesse um software de reconhecimento facial da parte enviada. Claro que, depois disso o grupo-mãe, americano, juntou todos esses softwares para se poder fazer o reconhecimento facial total. Ao menos o do tal rosto humano padrão.
          E agora o software estava em pleno funcionamento, graças aos empreendedores que fazem nossa vida cada vez melhor.
          Nisso ele pensava quando foi preso. Algo nesse processo dera obviamente errado, mas não saberia dizer se fora aquele específico grupo que cuidou da região em que ele tem um pequeno corte facial desde a longínqua infância. Não reconhecem, ninguém reconhece, mas aparentemente o pesquisador-chefe daquele grupo era um irresponsável, um sujeito sem ética e sem caráter, mas com o ego lá em cima (ou alguém duvida?). Parece que, ninguém irá dizer isso claramente, o que dirão é que computação não é uma ciência exata, é que... parece que esse grupo específico fez um trabalho que, gentilmente, poderíamos chamar de merda e que levou a falhas de reconhecimento dos rostos que tenham se afastado do padrão facial estabelecido pelas normas técnicas exaustivamente discutidas e aprovadas pelo Congresso norte-americano. Que tenham se afastado, ao menos, naquele pequeno espaço (dentre os 867 em que foram divididos o rosto padrão) que a esse grupo específico de pesquisa competia analisar.
          Claro também será que o pesquisador-mãe nunca será responsabilizado por algum erro no produto apresentado, quem ousaria contestá-lo? Justo ele que é o responsável pela distribuição do dinheiro, justo ele que analisa quem merece as bolsas ou quem entrará como co-autor nos inúmeros (ao menos 867) artigos que serão produzidos, justo ele que tem prêmios e é homenageado dia sim, outro também, quem ousaria responsabilizá-lo pelo que fosse? Claro que tais pessoas não são culpadas. São sim, as obsoletas criaturas que insistem em oferecer suas caras (com cicatrizes fora do padrão facial) a tapa, sem trocadilhos, por favor.
          Nada será dito nunca, é preciso preservar o deus-tecnologia, mas falhas ocorrerão e pessoas sofrerão consequências, mas essas serão baixas aceitáveis, sim bastante aceitáveis.
          Mas ele tinha sim uma pequena cicatriz que fugia ao padrão facial estabelecido no Vale do Silício e, azar, justamente naquela região designada ao grupo incompetente, melhor dizer inexperiente.
          Desculpe nossa falha, o software ainda está em construção...
          Tinha ido dar uma volta pelo bairro e, na volta, ao tentar entrar no prédio em que vivia há quinze anos, foi barrado pelo porteiro velho conhecido dele e com quem dividia, vez ou outra, uma mesa no bar da esquina tocando seus cavaquinhos preferidos.
          - Mas, João, por que não posso entrar? - ele ainda perguntou pelo interfone, do lado de fora do portão.
          - Seu Armando, é que o novo sistema de reconhecimento facial não está permitindo.
          - Novo sistema?
          - É, lembra que foi aprovado na última reunião? O senhor até votou a favor...
          - Votei, segurança em primeiro lugar. Mas abre o portão para eu entrar.
          - Não posso, Seu Armando, o sistema não reconheceu a sua face...
          - Mas você me conhece, João, moro aqui há tanto tempo
          - Verdade...
          - Então, abre aí...
          - Não posso, enquanto o sistema não me autorizar, eu tenho ordens de não abrir o portão.
          - Então vou dar um passo para trás, fingir que fui embora e volto a aparecer pra câmera. Seguro que ela irá me reconhecer.
          - Faz isso sim, Seu Armando!
          Ele ainda fez mais do que dar um passo para trás, foi até a esquina, respirou o ar friozinho da noite que chegava e voltou. Tentou abrir o portão e nada...
          - Pô, João, para de brincadeira, sou eu o Armando! - ele ainda insistiu no interfone.
          - Eu sei, Seu Armando, eu sei... mas não posso abrir, o sistema ainda não reconheceu o seu rosto.
          - Vou sorrir diferente e vejamos se agora ele reconhece. Um sorriso irônico, talvez... um sorriso arrogante, desses o sistema deve gostar, ou talvez um sorriso sensual...
          - Que é isso, Seu Armando, não me deixe mal... faz um sorriso normal.
          Mas nada, nada do sistema reconhecer a face do Armando. Nessa hora, ele vê chegando ao edifício um carro de polícia, mal sabia ele que era para prendê-lo. E só soube naquele instante que era um perigoso assaltante e que tinha cometido três crimes nas últimas quatro horas.
          Ao menos, era o que dizia o sistema de reconhecimento facial...

[[ continua na próxima semana...]]




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quinta-feira, 31 de outubro de 2019

ainda em construção, três


          Alguma nuvem por aí deve ter registrado todos os passos dele naquele dia, coordenadas exatas em horários precisos. Deve ter tais dados por conta do serviço de localização de seu smartphone, visto que ele não se desgruda dele. Ou não, em vista de tantos coletores de dados espalhados por todos os lugares. O fato é que a nuvem sabe tudo, deve saber até o peso exato do número dois matinal daquele dia. Sabe quantos passos ele deu ao longo do dia, quantos degraus subiu, que pensamentos teve, quem xingou, a quem sorriu, por quem sua pressão arterial sobe, que companhias evitou na hora do almoço.
          Mas nada disso adiantou muito quando ele foi preso. Mas isso foi mais tarde.
          Ele ainda passaria horas à frente do computador depois que voltou para casa, já meio da tarde. Férias a serem programadas, visto que logo é janeiro, entrou em um site de compra de passagens. A nuvem então alertou todos os seus parceiros e, simultânea e freneticamente, apareceram e-mails, mensagens, zapzapeses e ligações oferecendo viagens, hotéis, aluguéis de carros e passeios magníficos não só para o local que ele planejara visitar mas também para todas as possíveis localizações do universo que possa ser visitado por alguém com o seu perfil. Barganhas, descontos, milhagens. E tudo isso vindo de um bocado de empresas, algumas que nunca tinha ouvido falar antes, outras que apareceriam e desapareceriam na mesma velocidade, até empresas tradicionais. Outras oferecendo os indefectíveis aplicativos, promoções não faltariam neles.
          Como há empresas e empreendedores nesse nosso mundinho! É, ele é feito de intermediários.
          Na dúvida de tantas opções que não paravam de pipocar na tela de seu computador, no face, no twitter, no cantinho da tela, pelo celular, resolveu então adiar suas decisões por alguns dias. Não que o que foi oferecido por tantos e tantos mensageiros seja ruim, mas ele é dos que perdem rapidamente o interesse diante de tanta pasteurização, de tantos guias michelãs dizendo onde comer e o que e como e quando. O que visitar, o que selfisizar, o que publicar no face para inveja de seus amigos. É, podemos dizer assim, ele é um daqueles pobres coitados que preferem férias sem tanto planejamento prévio, a surpresa ao virar a esquina, o restaurante improvisado, goste ou não da comida, o caminho percorrido a pé, o metrô na hora do rush, a praça cheia da cor local no final de semana, que a vida é assim, aprendeu ao longo dos anos, incoerente e surpreendente.
          Mas sorria, ignóbil, seu perfil está sendo preparado para melhor guiar seus passos.
          Tentou relaxar fazendo algo que vez ou outra ele faz: busca o seu livro na internet, o livro que escreveu há tanto tempo e que encalhou. Prazeres, o livro ainda está disponível na livraria, na compra virtual, em alguns sebos encontra até algum exemplar assinado (deve ser um dos inúmeros livros que enviou para divulgação e que foi vendido junto a outros tantos quilos de papel pelo destinatário). Prazeres, isso sim, bastou procurar o livro em um site e logo todos os outros apresentam ofertas dele, aparecem no meio da rolagem do face, no cantinho da tela, em mensagens do celular. Sabe que só ele estará vendo o seu livro em tanto destaque, mas, qual-o-quê, prazeres, prazeres não se descartam.
          Mais tarde, seria preso. Mais tarde, porém...

[[ continua na próxima semana...]]




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quinta-feira, 24 de outubro de 2019

ainda em construção, dois


          Saiu de casa, ainda garoava, mas como o aplicativo de tempo indicava um brilhante sol nem se preocupou pois certamente poderia dispensar o guarda-chuva e sua roupa úmida indicará apenas uma sensação relativa, nada relacionado à realidade garantida pelo aplicativo. Sensação térmica, sensação de umidade, sensação de infelicidade. Aproveitou para checar quantos passos tinha dado no dia anterior e recebeu de seu celular uma bronca por não ter se esforçado tanto nos últimos dias. Respondeu com um palavrão, ao que o Siri disse que não comentaria sua fala.
          Riu da gentileza da tal inteligência artificial.
          Chamou um uber, recusado, outro, outra recusa. O terceiro veio, mas demorou, talvez se atrase ao seu compromisso.
          Já dentro do carro ele recebeu o primeiro dos inúmeros telefonemas do dia que não se completam, que só irritam e quando se completam, irritam mais ainda. Algum sistema em alguma nuvem (cinzenta, claro) tem registrado que, já que ele comprou um apartamento um dia, então está disponível a todos, literalmente todos, os corretores de imóveis do país para escutar suas ofertas e, talvez, comprar imóveis à batelada. Impossível sair de uma lista de corretores quando se entra nela. Tampouco ele conseguiu se livrar das ligações não rastreáveis da BIBO, da Olá e da Obscura...
          Não deixe de sorrir, sua conexão é muito importante para nós.
          O uber o deixou frente à concessionária de automóveis, as notas dadas mutuamente por ele e pelo motorista indicam que não houve empatia entre os dois. O que aconteceu realmente naquele curto trajeto o frio sistema de notas não indica nem indicará. Só que ele continuará com suas dificuldades para chamar ubers. É preciso melhorar suas pontuações, mais algo a se preocupar no dia a dia.
          Para retirar o carro recém comprado, o vendedor quis que ele preenchesse um formulário. Número de filhos, se tinha casa própria, quantos aspiradores de pó, televisores, carros, renda familiar. Frente ao papel contendo essas perguntas, recusou-se a responder. Pagara o carro a vista, por que necessitavam desses dados? O vendedor não entendeu a recusa, nunca entendem, nunca entendem porque recusar passar informações aos donos das concessionárias, por que a recusa em dizer o limite do cartão de crédito ou quantos cachorros você tem em casa, ou quantas viagens você faz por ano, se há parentes mais ricos na sua família e quantos e como contactá-los... São só questões... são só exposições de intimidade... são só dados que já são públicos... nunca entendem a sua recusa.
          O seu perfil está ainda em constante construção.
          Dois minutos depois de deixar o seu número celular com o vendedor da concessionária, uma mensagem dizendo que, por conta da compra do carro, ele tinha ganho a possibilidade de fazer uma viagem a Disney com desconto. Serve Paris? Serve Amsterdam? Serve Bacurau?
          O carro, aprende ele com o gentil e entusiasmado atendente, apita, em vários tons e intensidades, por todos os possíveis lugares e mais variados motivos, é para te disciplinar a fazer tudo conforme o manual estabelecido por alguém que não conhece e nunca conhecerá. Posso desligar esse apito? ele pergunta. Não, é de fábrica, é para o seu bem-estar, é para a sua segurança... Mas o carro vem sem protetor de carter, essencial comprar um, diz o vendedor. Mas o carro vem sem essa proteção de pintura, sem proteção lateral, sem tapetinho, todos essenciais, esse líquido ajuda a preservar os bancos, quer pagar mais uma fortuna por ele? Parece tão essencial que já te ofereceram três vezes, inclusive por e-mail. Ele passa quase uma hora dizendo não, dizendo não, tentando ser simpático. Mas os apitos disciplinadores, vem todos.
          Ah, vem sem gasolina também... melhor parar nesse posto da esquina do primo do dono da concessionária, melhor parar pois talvez não consiga rodar mais do que isso... Mas vem com um baita laço vermelho na capota, isso sim, acompanhado de um formulário de satisfação...
          Sincronizou o waze no computador de bordo, o mesmo que recomendou uma série de rádios para ele ouvir. Nenhuma de seu gosto, aliás. Reprogramou. De onde vem essa gente que programa o carro?
          Abastecido, o carro pode agora rodar a longa volta que ele escolheu para se acostumar com o novo veículo. Como rodava devagar, muito devagar, aproveitando seu dia e pensando, o waze foi alimentado com sua baixa velocidade e indicou aos outros motoristas um possível tráfego lento por certas vias levando mais e mais pessoas a evitarem esse caminho até que só sobrou ele wazendo na via e retroalimentando o suposto congestionamento. Olhava pela janela e nenhum carro, só o seu vagaroso andar, mas o waze avermelhava sua via. A moça de doce voz refazia e refazia os caminhos que ele insistia em não cumprir. Qualquer hora até ela perde a paciência.

[[ continua na próxima semana...]]




[[ E não é que o meu livro "outros tantos" ganhou um book trailer? Quem quiser assistir, basta clicar AQUI. E quem quiser comprá-lo tem essas opções: (i) site da Editora PENALUX; (ii) Livraria da Vila; (iii) Lojas Americanas; (iv) diretamente com o autor (com direito a um outro livro do autor) no e-mail: flavioucoelho at gmail.com ]]