quinta-feira, 12 de julho de 2018

Leve-me ao paraíso



            Desde que o Google Maps lançou a sua versão multitask X34iLCcD803, o cunhado do Thio Therezo, meu pai, tem estourado a conta da internet lá em casa. Logo após a leitura completa de dois jornais, raivoso como bem convém a quem ainda se indigna, meu pai, cunhado do Thio Therezo, senta-se à frente do computador, tenta relaxar, isolar-se de tudo e começa a sua viagem virtual.
            Essa versão do Google Maps, um significativo aperfeiçoamento da anterior X34iLCcD802s, permite que, por meio de comandos de vozes, você seja conduzido quase que imediatamente ao local escolhido e, claro, participe de uma experiência única, essencialmente sensorial (seja lá o que isso signifique, mas os marqueteiros devem muito bem saber do que falam).
            - Leve-me ao paraíso – era o comando verbal usual dado pelo meu pai ao Google Maps. Uma eternidade de 0.00356 segundos se passam até que sejam apresentadas ao menos 1.847 opções (dependendo do dia e das condições climáticas, esse número pode variar um pouco), opções essas que vão desde as cercanias da Estação Paraíso do Metrô de São Paulo até o Batistério de São João em Firenze com sua famosa Porta do Paraíso, passando por opções que meu pai só escolheria altas horas da noite quando minha mãe, irmã do Thio Therezo, já estivesse em seu quinto sono.
            A tal experiência sensorial inclui, além da possibilidade de passear visualmente pelas redondezas do local escolhido, também os sons, toques e cheiros ambientais, tudo isso com a precisão que só os mais modernos algoritmos podem permitir. Tudo isso ao alcance de bocas, olhos e narizes (e até dedos, na versão do senseware proibida a menores).
            Um dia, o pai chamou o Thio Therezo para mostrar-lhe um passeio que estava fazendo em uma das opções do paraíso pedido, um lugar perdido no meio de uma das inúmeras cidadezinhas de nomes impronunciáveis. O Thio logo reconheceu o local e disse:
            - Já estive lá... inclusive eu...
            - Como assim?- papai interrompeu – como já esteve aí?
            - Já, já fui lá. Olha, se você virar aquela esquina e andar alguns passos, vai encontrar um café esplendoroso, feito com canela tailandesa e servido com um bolo de cenoura braba que é do outro mundo.
            - Mas...
            - Cobertura de chocolate tibetano 63,2%...
- Mas...
- E ali, vê? – o Thio apontava um prédio em um canto da tela – lá vive uma senhorinha que fala sete idiomas de origem slava. Discutimos filosofia alemã em três dessas línguas.
- Em três? Sei...
- É... quando tentei a quarta, desisti, me dei por vencido, para deleite da senhorinha, simpática que só ela.
            - Quer dizer que você já esteve lá?
            - Sim, claro, algumas vezes...
            - Claro, algumas vezes – o pai usava de sua ironia.
            - É um lugar bem interessante, diga-se de passagem. Parabéns pela escolha.
            - Mas não é a mesma coisa.
            -  Ãh? – o Thio não entendeu a observação.
            - Nada como a sensação de conhecer um lugar no conforto de sua casa, de chinelão, com o filtrador de raios beta, o decantador de odores, o controlador de ruídos... Qual a graça de estar lá? Nesse solzão, com todos os odores te atacando, pessoas apressadas te empurrando, cansado de tanto andar...
            - Acho que prefiro em loco...
            - Thio, deixa eu te falar algo. Você precisa experimentar novas sensações, nada mais antiquado que se estressar com todo esse processo de viagem, fazer malas, aeroporto, o taxi te explorando, comidas diferentes, hotéis impessoais, colchão macio demais...
E aí o pai completou, rindo, com seu conselho predileto:
- Você precisa sair de sua zona de conforto.
            Pronto, o pai sabia como tirar o Thio do sério, bastava usar o pior dos piores conselhos de autoajuda jamais criados, o supra-sumo dele.
            A discussão, hoje, prometia.


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