quinta-feira, 18 de junho de 2020

Möbius - parte 1

            Lá estão eles, os dois filhos, me trancando aqui em casa. É certo que eu dizia, e cumpria, que sairia de casa a hora que quisesse. Eles, sei lá por que, ficavam ameaçando trancar-me por aqui, vamos colocar uma nova fechadura aqui nessa porta, diziam e tanto disseram que agora cumprem o ameaçado e bem na minha frente. Agora eu os olho pela janela, conversam entre si sem remorsos, acenam ao final e se vão. Já a compra está toda no hall de entrada esperando que eu a desinfete e a arrume na cozinha.

A casa é grande, sei, mas maior é o mundo lá fora e eu gosto muito de minhas voltinhas, até sinto a dura abstinência se algo me impede a saída diária. Mas eles insistem que agora eu tenho que ficar dentro de casa, que é perigoso sair por aí na minha idade. Qual-o-quê, setenta anos é lá idade de risco? Setenta e seis, vá lá!

            Certo é que eles deixam semanalmente na minha porta tudo o que necessito, inclusive em uma tal fartura que não tive nesses anos todos desde que fiquei só nessa imensa casa. Daqui não saio, insistiam que saísse antes e agora me impedem de sair, vai entender isso! Não saio, mas quero dar minhas voltinhas pelo bairro, meu cafezinho na padaria, a conversa com o jornaleiro, a fezinha no jogo do bicho. Quem é que pode me impedir isso? Pois bastava eles virarem a esquina, eu recolhia toda a compra deixada na porta e, zás, saia para a minha voltinha, o sorriso para a manicure da rua de baixo, retribuído sim por ela com muito carinho. Ela até costuma me dizer que eu sou jovem demais para viver sozinho, para ficar preso naquela casa imensa sem companhia, e que dava até para a família inteira dela vir morar comigo se eu quisesse, tanto o espaço que eu tenho à disposição. Família inteira? E eu lá sou um idiota? Basta ela vir uma vez por semana para cuidar de minhas unhas e me conceder uma de suas massagens generosas. Pago muito bem pela unha e ela sabe disso, quero lá outra família? Basta a minha que agora, de tanto insistirem que eu não deveria sair, resolveram colocar uma nova fechadura na porta da frente, uma chave para cada um dos filhos e eu fico sem nenhuma, fico trancado e trancado.

Eles agora deixam essa fartura de coisas na minha porta, uma vez por semana, quem será que come tanto assim? Esperam à distância que eu recolha tudo e depois me trancam por aqui. A casa é grande, poderia passar dias e dias sem sequer repetir algum cômodo, a quarentena inteira sem sequer repetir quarto que fosse. Exagero... é grande, mas nem tanto. É grande, mas maior era minha voltinha diária nesse mundão de deus. Eles se justificam que é para o meu bem, que é por pouco tempo, que logo poderei voltar ao que era antes. Sei lá, sei lá. Preferia arriscar a não voltar para casa em um desses dias do que arriscar a não sair mais daqui.

Agora estou preso em casa. Parece que há uma outra porta, nos fundos da casa, mas não me lembro bem dela. Sempre usei a porta da frente nessas décadas todas em que aqui vivi, recusava-me a usar outra e agora nem tenho a certeza de que ela sequer existe. Esforço-me, olho para um dos corredores que sai da sala e fico confuso. O, digamos assim, corredor principal, irá dar no meu quarto, no banheiro que uso frequentemente e, lógico, na necessária cozinha. Faço esse trajeto todos os dias e até pareceria, a quem me vigiasse de perto, que a casa se resume a isso. Tudo o que precisei desde a morte dela está por aqui, nessa pequena porção dessa imensa casa. Sim, na cozinha há uma porta para fora, mas ela dá para um quintalzinho nos fundos, meio atulhado de coisas e sem saída para o mundo. Sem possibilidades para o jogo do bicho ou para a manicure, a não ser que ela pule o murro lá nos fundos. Será? Pedir muito.

O outro corredor, tempos não abro a sua porta, deve dar, eventualmente, para o mundo exterior, penso agora. É preciso explorar isso, mas hoje não que de aventuras mentais, já me cansei.

Acontece que semana passou antes de ter de novo esses pensamentos. Olhei minhas unhas e fiquei com saudades. E a porta principal da casa continua trancada por fora. Amanhã deve ser o dia em que eles virão, eles e as caixas de mantimentos. Se eu conversasse com eles, se pedisse com jeito, talvez eles me permitissem dar uma volta, apenas uma voltinha, curtinha, até a rua de baixo, bastaria isso. Suborno? Não... acho que eles não precisam, a herança da mãe foi bem gordinha. Chantagem emocional? Nada... são frios como o sorvete que eles me trazem todas as semanas.

Durmo desanimado.


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