quinta-feira, 11 de outubro de 2018

E agora, quem os recolherá?

Dois anos e meio que publiquei o texto abaixo e parece que muito se escureceu desde então (à época, não falei do medo da escuridão naquelas noites no sítio, mas agora bem que caberia). Achei que valia republicá-lo agora.

Soltá-los, pode até ser divertido. Alguns até acham conveniente, a depender das intenções. Mas, quem os recolherá agora que não param de latir e atacar?


Tutti e Frutti (publicado em 28/04/2K16)

Éramos de crianças a jovens e nessa época fomos muitas vezes a um sítio que nossos tios tinham perto de Itu. No começo, muitas vezes, apressadamente que imagens estão até desbotadas. Com o tempo, as lembranças são mais nítidas.
            Lembro do pangaré que havia por lá no princípio e lembro da lição que aprendi com ele, de que nunca teria o controle de minha vida, as coisas aconteceram e aconteceriam como se conduzidas por um pangaré no final da vida, teimoso e preguiçoso. Pois lembro-me de, montado nele, não conseguir de forma alguma fazê-lo ir para onde eu queria. Ele se meteu debaixo da pequena construção que abrigava um poço, queria que queria beber do balde de água que lá estava. E nada de ele me obedecer e eu tive, ao final, que me curvar para não topar com o telhado, tive que me esgueirar para desmontá-lo, quase um tombo. Ele ainda olhou-me de relance com o mesmo olhar que a vida me dá quando me prega dessas peças, quando tento, inutilmente, ter algum controle dela...
            Voltei a pé para a casa principal do sítio mastigando minhas frustrações.
            Lembro da água fervente na máquina de moer cana, uma coleção invejável de insetos fugindo de suas entranhas. A farra para se fazer a garapa sagrada de todo final de semana.
            Lembro da roldana que o primo mais velho instalou em uma árvore alta para brincarmos de gangorra.
            Lembro da jabuticabeira, do lençol branco embaixo dela, da sacudidela com força e da chuva de jabuticabas. E de comê-las até enjoar.
            Das mangas, rosa e espada, que, na sobra, eram vendidas para os passantes da estrada, pura diversão no final do dia.
            Das pinturas de minha tia, das caixinhas marcadas delicadamente a fogo e que a todos, primos incluídos, éramos permitidos experimentar.
            E lembro da Tutti e da Frutti, duas cadelinhas da cidade deslumbradas com aquela imensidão que lhes parecia o sítio de Itu. Uma de cada uma de nossas tias, a Frutti era um pouco maior do que a Tutti. E nem me perguntem a raça, sou ignóbil nisso também, cachorros para mim são divididos em pequenos, médios ou grandes, pelos curtos ou longos, ranzinzas ou tranquilos...
            A Tutti e a Frutti eram pequenas, pelos curtos marrons e tranquilas. Isto é, tranquilas a menos que não vissem alguma das galinhas que se achavam no direito de desfilar livremente pelo sítio. Por isso, a Tutti e a Frutti ficavam presas quando estavam de visita por lá.
            Lembro, e isso era frequente, de uma delas, alternadamente a Tutti ou a Frutti, saindo correndo inesperadamente atrás de uma galinha que, afoita e desesperada, tentava fazer o que sonham todas elas, voar.
            Mas a Tutti, ou seria a Frutti, não estava amarrada? perguntavam os adultos. E a correria não parava com a Frutti, ou seria a Tutti, latindo e percorrendo os caminhos afoitos já percorridos pela galinha. Iam agora, atrás da Tutti, ou seria a Frutti, alguns adultos preocupados com a saúde do galináceo e, é claro, atrás de todos, os primos fazendo alvoroço e aumentando os decibéis da confusão.
            Tudo terminava com a Frutti, ou seria a Tutti, espumando penas de galinhas, olhar satisfeito, no colo da tia, com a galinha ofegante à beira de um ataque cardíaco e com todos se perguntando quem teria soltado a Tutti, ou seria a Frutti...
            Sobrevivíamos todos ao final, talvez com um pequeno trauma para a galinha da vez, nada que muito durasse. Não me lembro de vez alguma em que a galinha não tenha sobrevivido a isso. Não sobreviveriam, porém,  por razões, digamos, mais culinárias.
            Todos sabíamos qual dos primos era o rebelde responsável pela libertação da Tutti-Frutti, mas nunca o vimos ser repreendido. Essa correria fazia parte de nosso final de semana, assim como a garapa, a gangorra e a manga, idílio naqueles tempos em que no sítio não entravam todas aquelas sombras que tanto assustavam o país. A gente se isolava do mundo para comungar alegrias e família. E os primos, éramos de crianças a jovens.

            Lembrei-me disso outro dia. Tempos distintos, parece que porteira alguma de sítio nos protege mais, lugares idílicos já não deveriam esconder o que se passa ao nosso redor. Lembrei-me disso ao ver tantos pitbulls sendo soltos por aí, espumando de ódio a perseguirem os incautos. E agora me pergunto, quem é que irá recolhê-los ao final?

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