quinta-feira, 14 de março de 2019

alucinações, parte I


Se é que é possível se prever essas coisas, foi em um daqueles tão estranhos sonhos que tive que você apareceu pela primeira vez em minha vida, cruzando olhares no andar em comum de nosso prédio. Ou foi no elevador? Na garagem? Acho que até ajudei a carregar suas compras até o apartamento em frente ao meu. Conversamos, nos apresentamos então.

E se você segue aparecendo tão vividamente em meus sonhos, que culpa tenho eu? Sonho o que sonho, e basta, como se fosse possível se prever o que irá nos aparecer quando dormimos, ou evitar o que quer que seja, se bem que não há quem queira realmente evitar tais experiências noturnas. Ou há?

Melhor assim, sorte minha, nossa até, termos nos amado ao final de tudo. Com sonhos ou sem eles. Concorda?

Mas, agora até duvido, foi um sonho? Se tivesse sido, você certamente teria me convidado a entrar no seu apartamento naquele momento, assim seria o final dele, conheço meus sonhos. Tudo isso me deixa muito confuso.

E se é que isso não foi apenas mais uma de minhas inúmeras alucinações, foi lá, no sonho ou fora dele, que nos amamos, não na primeira vez, é claro, isso demanda um tempinho. Mas amarmos foi um sinal, creio, se é que existem sinais precisos na maluca vida que todos vivemos, nesse caos. E sequer temos a certeza de que sonhamos realmente. Você me diz que eu não sou um sonho seu e eu até acredito em seus lábios, às vezes até acredito. Amamos sim, pele com pele e isso distingue os sonhos, as alucinações do resto. Gemidos e fluídos distinguem um de outro.

Em todo o caso, tolice dizer que sonhamos todos os dias, se é que é possível se prever essas coisas, prever um sonho, prever um encontro.  Mas, de qualquer forma, alucinação ou não, sonho ou previsão, nosso amor se perdeu muito nesse emaranhado de situações em que nos impingimos após termos gozado no desconforto de sua cozinha. Ele se perdeu nessa caótica sensação do que veio antes: sonho ou previsão, amor ou alucinação?

Um maluco um dia conjecturou que o caos completo não existe, ouvi isto em uma daquelas inúmeras conferências que assisti na época em que fazia isso para matar o meu tempo, qual outro motivo alguém iria a uma tal conferência? Argumentava o pobre coitado que, mesmo em um aparente caos, sempre era possível se achar uma ordem, estranha que fosse, improvável que parecesse.  Era uma conferência de matemática, e matemática não é o meu forte, e até parecia, para um leigo como eu, que o que ele dizia fazia sentido. Sim, fazia sentido achar que sempre é possível encontrar alguma ordem no caos até o momento em que me olhava como exemplo desta absurda teoria. Se ele tivesse me conhecido, não faria essa conjectura, seguramente não, ou teria excluído o meu caso como um ponto singular que sequer mereceria atenção.

Sim, a quem interessaria estudar-me? Nem você que, acho, ainda sonha comigo. Sei que não perderia seu tempo e energia em estudos dessa natureza.

Penso no caos e na ordem de minha vida. E penso em você. 

Mas, falando em ordem, o que veio primeiro realmente?  Foi eu espiar-lhe pelo olho mágico pensando fazê-lo discretamente. E não o foi, tolinho, descobri isto meio que envergonhado quando você me alertou, no dia seguinte, sobre a sombra que faziam meu pés por debaixo da porta. Ou será que você me alertou sobre isso no dia anterior e eu nem me arrisquei a olhar pelo olho mágico? Vai saber o que veio antes.

O que veio antes, ver seu corpo macio, tocá-lo, ou saber que você viera de longe para estudar História na capital? Seus seios ou conhecer seus filhos? Qual a ordem dos fatos vividos?

Ou foi nos amarmos no escuro da cozinha, pensando que ninguém nos notava, primeiro o olho mágico ou primeiro a calça toda borrada de esperma?  Ou nada disso. Primeiro o amor rápido na sua cozinha ou primeiro desconfiamos que talvez sua filha pequena tenha nos visto sim naquela intimidade aparentemente imprópria? Qual a ordem que existe aí? Qual a ordem que existe nesse meu caos? Sabíamos que sua filha estava dormindo, a porta fechada e depois a vimos aberta sem nenhum de nós termos mexido nela, ou foi ao contrário e eu estou confundindo tudo outra vez? Jantamos juntos antes do amor naquele dia ou o jantar veio depois? Seus filhos nos acompanharam? Existe alguma ordem em nossas caóticas vidas?


[[a segunda parte desse conto será publicada na próxima semana]]



Aproveito para fazer um merchan... No próximo dia 23 de março, em Belo Horizonte, será lançada a Coleção 32, publicada pela Sangre Editorial. Os livros dessa coleção, todos com 32 páginas, são produzidos artesanalmente e numerados. Fico contente em fazer parte dessa coleção com o meu livro "as nuvens amortecem a queda". 

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