quinta-feira, 4 de março de 2021

Vinténs - V

 

O melhor

          Porque o melhor nessas horas é nem falar nada. O beijo roubado no canto da boca sublima um pouco o desejo de ambos.

          Porque nessas horas o melhor é nem pensar no assunto. Senão vira pecado ou culpa, não podemos, não podemos...

          O carinho fingidamente distraído, o abraço um pouco mais apertado, o olhar profundo, o selinho afinal, são o que restam de melhor nessas horas.

São Paulo, novembro de 2011



                          

Pegada

          Em uma única pegada, naquela tarde de terça-feira, ela praticou muito mais posições que em todos os seus quinze anos de casada. O colega, que nunca mais a procuraria com tanto afinco como naquelas semanas anteriores, a fizera sentir coisas que nunca sentira antes. Mas, para ela, era só aquilo. Também ela nunca mais o procurou e, como ele também se dera por satisfeito, ficaram nisto, um estranhamento ao princípio e depois um coleguismo inconsequente de final de expediente.

          Ela achava que devia a si mesma uma tarde daquelas e, paga a dívida, voltou ao seu cotidiano com o marido extremamente amoroso mas sem imaginação. Estava, finalmente, satisfeita na vida e vez ou outra lembrava-se, com aquele gostoso carinho, daquela tarde que era só dela, sem se importar com quem fora.

São Paulo, junho de 2008





[[Vinténs publicados no livro "Contos&Vinténs", Editora A Girafa, 2012]]

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