quinta-feira, 16 de julho de 2015

Resquícios do doisdejulho


Depois de minha narração do dois de julho de duas semanas atrás, surgiu a dúvida se a mãe do João Batista era Elizabeth ou Isabel. No fundo, uma questão de tradução. Como bem apropriadamente ressaltou o meu irmão, a fonte primária certamente foi uma bíblia em grego, daí o anglicanismo... se tivesse sido uma bíblia em aramaico, tudo teria sido diferente, Isabel teria então prevalecido. Nada mais natural!
Há de  haver quem há de achar que isso é irrelevante. Não o é e, por isso, fui consultar o Thio Therezo dada a sua expertise em questões de religiões.
Após infrutíferos telefonemas, fui finalmente encontrá-lo em Paraty, em meio àquela deliciosa confusão literária que é a FLIP, ouvindo poesias com sotaque português, rixas musicais, narizes empinados, respostas desconectadas das perguntas e filas e mais filas, a cocada comida na rua, a criançada se divertindo com livros, os adultos mais ainda, a chuva que atrapalha a caminhada, as pedras no meio do caminho, no meio do caminho as pedras, e mais pedras, a pizzaria com filas, em cada esquina uma atividade, duas pessoas conversando e teremos um evento literário. A imensa fila de preferenciais na grande tenda, e, quando todo mundo é preferencial, ninguém o será... a disputa por um café, que escritor sem café, não existe. Poetas de rua, cantores de rua, manifestantes, índios e seus apitos, e seus apitos e seus apitos, e haja apito. E música na praça da matriz, e teatro pelos cantos. E livros e mais livros e mesas de discussão e mais mesas e bombinhas de festa junina divertindo as crianças. Deliciosa confusão que só é possível nesses eventos.
No meio disso tudo, o Thio ainda achava o seu tempo na busca de um método efetivo para se estimar o número de pedras nas ruas do centro histórico da cidade, como parece ser um dos passatempos prediletos de algumas pessoas nesse nosso país.
Soube então que o Thio Therezo tinha se dado esse presente de aniversário, “faz tempo que queria vir à FLIP”, ele me disse isso como se precisasse justificar, justo a mim, qualquer coisa que fizesse na vida!
Após o usuais preâmbulos, expus-lhe o problema que tinha. Enquanto falava, eu o ouvia mexer nas gavetas da pousada em que estava hospedado. Perguntei-lhe o que se passava e ele me disse que procurava uma Bíblia, que todo quarto de hotel que visitara nesse país tinha uma Bíblia em alguma gaveta e, que coisa!, ele exclamava, cadê essa Bíblia... Percebi que parou a procura em um dado momento, mas, para nosso desencanto, não foi uma Bíblia que ele achou. Um pacotinho de camisinha “Eros” foi tudo o que habitava a gaveta.
Thio Therezo está longe de ser conservador, muito liberal ele é aliás, mas, naquele momento, não houve quem conseguisse consolá-lo sobre o fato daquele quarto de pousada, e não era uma pousada barata não, central, bem localizada... que lá não houvesse uma Bíblia sequer, em grego ou aramaico que fosse... Falou e falou tanto que desisti, naquele momento, de insistir em meu problema.
Há tempo para tudo e, quando puder, voltarei ao assunto com ele, sei que me dará uma de suas completas e bem fundamentadas respostas.
Por ora, fiquemos assim, então: Elizabeth ou Isabel, a escolha se dá a partir da fonte primária que cada um se fiar melhor...

quinta-feira, 2 de julho de 2015

doisdejulho


Há um simbolismo todo especial ao Thio Therezo para o dia de seu aniversário, o tal de dois de julho. Não é só por ser o dia dos bombeiros ou o da independência da Bahia ou mesmo o do famoso Palio de Siena. Sim, esses três fatos já seriam mais do que suficientes para que ele se sentisse orgulhoso de sua relação com essa data. Mas há mais, há muito mais.
Dois de julho é o 183º dia do ano, bem no meião dele, com 182 dias antes e outros tantos 182 dias depois. Fácil entender então porque Thio Therezo olha o seu passado com o mesmo carinho com que encara o seu futuro, metade que está, sempre, do seu caminho por aqui, simbolicamente falando...
Isso, claro, não vale para os anos bissextos, que são "meras anormalias do calendário, tão infames que sequer deveriam ser levados a sério", de acordo com o singular pensamento do Thio.
É claro que, devido a essa simetria em anos não bissextos, e o Thio Therezo é fanático por simetrias, ele evita comentar o ano em que nasceu. Mamãe, sua irmã predileta, um dia nos confidenciou que sim, nosso Thio tinha de fato nascido em um ano bissexto, para seu desespero interior, poucas vezes manifestado publicamente.
Mas nem esse “injusto deslize cósmico”, como ele poderia se referir ao fato de ter nascido em um ano múltiplo de quatro, o faz se afastar da ideia de que sim, que o dois de julho é um dia predestinado, escolhido especialmente pelos deuses para aqueles seres especiais que habitam a terra.
Não por acaso, foi em um dois de julho que Maria foi visitar a prima Elizabeth logo após saber que estava grávida de Jesus (e a prima, de João Batista). Ou quase isso, tendo em conta a controvérsia que surgiu meio século atrás e que vale a pena aqui relembrar.
Foi também mamãe que nos contou que, um dia, Thio Therezo recebeu uma carta de um parente influente no Vaticano e que tinha informações sobre a data exata da visitação de Maria a Elizabeth. Desde o ano de 1389, por decisão do controverso papa Urbano VI, que essa visitação era celebrada no dia dois de julho, escolhido como o dia após a oitava depois da festa de nascimento de João Batista.
Informava o nosso primo do Vaticano, em sua carta, que a igreja estava fazendo uma revisão dessa data por ela ser inconsistente com o narrado na Bíblia segundo Lucas. Se Maria foi visitar Elizabeth e essa ainda estava grávida do João Batista, como é que a celebração da visitação se daria em data posterior a esse nascimento? Esse era o ponto crucial da discussão e era preciso corrigir esse deslize do calendário religioso e que já durava seus quase seis séculos.
Nunca vimos a famosa carta, mas, aparentemente, nosso parente queria, de alguma forma, alertar o Thio para que ele se preparasse para essa mudança. Pelo que consta, Thio Therezo viajou ao Vaticano quase que imediatamente para ver se conseguia, com seus argumentos e mapas astrológicos e todos os documentos de que dispunha, reverter isso. Mesmo com todo o respeito que o Vaticano normalmente lhe dirigia, principalmente por conta de seu vasto conhecimento histórico e efetiva contribuição à religião, às religiões é melhor dizer, não havia como não aceitar ao final que algo deveria ser de fato revisto. E, finalmente, após essa revisão, a data da visitação de Maria a Elizabeth ficou estabelecida como sendo o dia trinta e um de maio. Isso se deu em 1969.
Thio Therezo voltou do Vaticano muito triste e demorou a se recuperar, ainda mais que um obscuro jornalista italiano fez publicar, em um jornal de segunda classe, a história da presença do Thio em Roma e insinuou que ele só tinha se metido nessa discussão por motivos pessoais, visto ser o dia dois de julho a data de seu nascimento, taxando tal visita como "inconveniente". Absurdo! Injustiça! Quem realmente conhece o Thio não dá um mínimo de crédito a tal infâmia, e, logo, claro ficou a todos que o infeliz do medíocre jornalista só buscava se promover com tal indevida acusação.
Quando pensa calmamente em tudo isso, o Thio Therezo deve se convencer de que o Vaticano agiu corretamente nessa revisão, corrigindo um deslize histórico, mas também seguramente, deve ficar com um gosto amargo na boca, visto que o dia dois de julho perdera assim um pouco de sua importância...

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Aldravias


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além
de
vinténs
também
cometo
aldravias
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pela
fresta
estreita
olhar
atento
espreita
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a
qualquer
hora
mas
menos
agora
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em
cada
canto
dela
uma
injustiça
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realçar
a
renitente
retidão
do
relógio
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[Aldravias. O movimento aldravista nasceu em 2000 em Mariana (MG). Seus poemas se caracterizam pela estrutura em seis versos univocabulares, isto é,] 
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seis
palavras
e
aldravia
está
completa
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[mas, só isso não basta... é preciso]
*************************
juntar
palavras
fazendo
sentido
a
alguém
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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Vinténs - I


Se calhar...


Se calhar, é bom falar. Mas, se falhar, é melhor calar...

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Em cada canto...

Em cada canto dessa cidade, há uma injustiça, um amor mal resolvido, uma garota com lágrimas escorrendo agridoce pela face, uma facada cruel, e há também um cachorro latindo, pessoas que não se adaptaram à vida, um balão sendo lançado, até um beijo roubado, um medo inesperado e uma excitação inconsequente. 
Um gato, meninos correndo atrás de uma bola, uma freada de carro, a moça sendo deixada no metrô sem olhar para trás, um velhinho inconformado...
E uma nuvem amortecendo a queda dos amantes... 
Há uma injustiça em cada canto dessa cidade, e olha que cantos não faltam nela...

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Selinho

Um dia ela vai se distrair, de propósito ou não, e se esquecer de virar o rosto na hora agá. Nesse exato momento, ele sapecará um selinho nela e ela fingirá um assombro com o fato de ambos os lábios, um tanto quanto secos de ansiedade, terem se tocado assim rapidamente. Ela ficará, conscientemente ou não, vermelha de rubor enquanto que ele dará um daqueles sorrisos que ela tanto gosta mas se esforça, sem convencer, em fingir que não liga a mínima. Eles então darão um longo e apertado abraço de carentes e ele falará ao seu ouvido com uma voz pretensamente segura: se quiser o beijo roubado, eu te dou de volta, eu devolvo... Ela evitará o suplicante olhar dele, meros charmes mútuos, morderá seus lábios levemente e, após intensos e infindáveis segundos de espera, dirá que sim, que o quer de volta e aí... só deus saberá até onde irão naquele dia em que ela decidiu que seria o dia... 

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Negações

Sim, sim... só isso a dizer!

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quinta-feira, 11 de junho de 2015

O Entusiasta do Sistema Decimal



A primeira vez que alguém se lembra de tê-lo ouvido contar esta história em público foi no dia de sua aposentadoria e ele tinha então os seus 67 anos de idade. Depois da merecida festa que os seus colegas fizeram, ele chamou a atenção de todos e, emocionado que estava, agradeceu a homenagem e ao final contou a história que iria determinar o seu cotidiano a partir de então.
“Bom, vocês sabem que a mãe do Jorge Luis Borges morreu bem velhinha...”
“A mãe do Borges? Morreu? O Borges da... da... contabilidade? E ninguém me diz nada?” o Ernesto o interrompeu inconsolável, além de totalmente bêbado, e pôs-se a chorar convulsivamente.
Diante do silêncio estupefato de todos os presentes, alguém cochichou algo no ouvido do Ernesto, que só então sossegou. Re-estabelecida a ordem, e quebrando o constrangimento criado, o homenageado continuou.
“... pois bem, ela tinha 99 anos quando morreu. Em seu enterro, uma velha amiga do Borges chega-se a ele e diz que era uma pena que ela tivesse morrido com aquela idade, mais um ano e teria 100! Sabe o que o Borges respondeu?”
Não, ninguém sabia. O silêncio imperava. 
“Vejo que a senhora é uma entusiasta do sistema decimal... foi a resposta do Borges” e, sem esperar reação alguma da audiência que ainda tentava assimilar a história, ele completou: “eu também sou um entusiasta do sistema decimal. Nada me entusiasma mais hoje do que o sistema decimal! Vou homenageá-lo da forma que a mãe do Borges não conseguiu. Vou chegar aos 100 anos!”
Um aplauso unânime se juntou aos gritos de hurra! Mas a verdade é que, pelo estado em que ele chegou ao final da festa, vomitando e cambaleante, não havia quem apostasse um níquel sequer que ele conseguiria cumprir a sua promessa.
Mas o tempo passou e ele parecia cada vez mais jovem, cada vez com mais vitalidade. Quer seja porque deixou de ir trabalhar naquele escritório insalubre por mais de dez horas diárias, todo o santo dia, quer seja por que só então ele pode se dedicar mais assiduamente às coisas que tanto gostava de fazer, o ponto é que ele foi ficando cada vez mais jovem. Seus amigos foram ficando pelo caminho, um a um eles foram deixando de ouvir novamente esta história, a história que ele tanto gostava de repetir a cada aniversário seu. A mesma história, o mesmo entusiasmo.
Com o passar do tempo, os amigos foram se acostumando com ela, já fazia parte da festa de seu aniversário, assim como o Parabéns a você ou o bolo de chocolate com cereja. Na festa de aniversário de seus 78 ou 79 anos, um de seus netos, resolveu puxar um pique-pique:
“E para o sistema decimal, nada?”
“Tudo!!!”
“E como é que é?”
E o pique, a partir de então, foi também incorporado às celebrações de seus aniversários.
Aos noventa, ele estava de namorada nova, já tinha enterrado suas duas ex-esposas, “as primeiras duas...” ele dizia maliciosamente nas noites de pôquer, para deleite de seus amigos, sempre renovados na roda e cada vez mais jovens em comparação a ele. E saiu para viajar com ela por longos dois meses. Foi por esta época que, todos os que o conheciam, sabiam que ele iria sim conseguir cumprir a sua homenagem.
E, de fato, cumpriu. No dia em que completou 100 anos de idade, ele reuniu todos os seus amigos, e parentes, e até os só conhecidos. Como sua história já era parte do folclore da pequena cidade em que morava, apareceram muitas pessoas que ele sequer conhecia, foram só para poder cumprimentá-lo, participar daquela homenagem histórica ao sistema decimal. O jornal da cidade publicou uma matéria toda especial, fazendo um paralelo entre a vida dele e o desenvolvimento do sistema decimal, entrevistaram até um matemático famoso da USP. E, em um canto, um grupo de conhecidos acertava as contas de uma antiga aposta que fizeram sobre se ele chegaria ou não àquela data. 
Quando o bolo especialmente confeccionado para a ocasião entrou na sala, um coral de crianças cantou, de surpresa e em primeira mão, o Hino do Sistema Decimal composto especialmente para a ocasião. O prefeito, que não pode comparecer pessoalmente, mandou o seu melhor representante e a festa só foi completa quando ele contou, mais uma vez, a história da mãe do Borges. Contou, desta vez, de forma tão emocionada que o próprio Borges, o da contabilidade, chorou de saudades de sua progenitora.
Mas só ele sabia do esforço que foi chegar a este dia. Se ele parecia cada vez mais jovem e entusiasta com o passar do tempo, a verdade é que, nos últimos dois ou três anos, uma dúvida o atormentava diariamente. Toda manhã, ele se olhava no espelho e se perguntava por que é que se impunha esta meta, afinal, e se seria capaz de cumpri-la. Só ele sabia que o ânimo que demonstrava ao conversar sobre isto com as pessoas era apenas de fachada, cada vez mais falso, inseguro que estava. Só o espelho sabia o peso que era para ele isto. Já estava cansado, sentia-se cansado e velho e ainda faltavam estes três, estes dois ou este um ano, estes tantos meses, estas tantas semanas. Um dia, ele desabafou com uma amiga que, vez ou outra, trazia o seu almoço de domingo, mas ela não entendia o que o exasperava então. E o que o exasperava era esta obrigação que ele se impôs tanto tempo atrás. Nestas horas, sentia medo de não poder cumpri-la, de morrer como um derrotado no final das contas, virar a eterna chacota dos sobreviventes, piada familiar nos almoços dominicais. Pequenas gripes, ele que nunca ficava doente, traziam consigo sempre grandes preocupações, a cada espirro, um sinal vermelho se acendia em sua mente. Sentia que não podia mais andar sozinho pelas ruas sem ser observado, percebia as pessoas falando dele à distância, se parasse de andar, por tolo motivo que fosse, parecia que todo o mundo também parava e segurava a respiração até ele se mover de novo.
Aquilo estava pesando e pesando cada vez mais.
Depois que o bolo foi cortado e ele recebeu os cumprimentos protocolares de todos, e depois de uns tantos discursos que teve que ouvir, ele olhou ao redor e, repentinamente, se sentiu aliviado. Com o peso de seus três dígitos nas costas, caminhou até o quarto que ele usava como escritório, sentou-se em sua poltrona de leitura e, na penumbra, sorriu o sorriso dos aliviados. E dormiu, e como dormiu, o sono dos centenários, o sono dos justos...

[Esse conto foi publicado no número 176 da Revista Pesquisa FAPESP em outubro de 2K10 e aparece no livro Contos&Vinténs]

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Thio Therezo e o amanhecer.


Certa feita, Thio Therezo contou-nos que, em suas andanças pelos lados da grande mata, cruzou inesperadamente com uma tranquila e discreta tribo de índios e que falavam uma língua que talvez já esteja até extinta. O bom era que o Thio conseguia, de que forma fosse, se comunicar com quem quer que cruzasse seu caminho.
Após o costumeiro estranhamento que sempre ocorre nesses momentos de primeiros encontros, ele ficou sabendo que, ao entardecer de cada um dos dias, o chefe-mor da tribo liderava uma exótica dança que saudava o descanso do sol e pedia que ele voltasse a aparecer decorridas algumas horas. Acreditavam esses índios que, se assim não o fizessem, o breu noturno duraria para sempre. 
Thio Therezo percebeu, ao ouvir a estória, o compreensível orgulho de todos da tribo por essa grande responsabilidade assumida por eles milênios atrás. Resolveu então ficar por lá, por alguns dias que fossem, para aprender esse essencial ritual para a continuidade dos dias e assim, em uma eventual emergência, saber repeti-lo corretamente.
Nessa dança, chamada de “Mombo”, seis graduados integrantes da tribo dançavam em duas fileiras de três, uma atrás da outra e ambas viradas para onde o dia se esvaía. Esperavam a postos e imóveis desde os primeiros sinais dados pelo preguiçoso sol antes de se esconder e isso, por vezes, demorava quase uma hora. Esperavam até que o chefe-mor, que não participava diretamente dos passos, os autorizassem a começar. 
A dança, com seu nome típico na língua quase extinta e que significava, em uma tradução bastante livre, “grande momento”, deveria ser feita sempre com a usual precisão, devido à responsabilidade embutida em tal ritual. Uma vez começada, nada, força alguma do universo, poderia fazê-la parar sob a implacável pena da eterna escuridão.
Thio Therezo resolveu demonstrar a nós como era essa dança. Atabalhoado que sempre foi, quase que destruiu o único vaso remanescente do casamento de meus pais ao mover a mesinha de centro de nossa sala. Dispôs a todos nós em duas fileiras e mostrou os passos. Enquanto que uma fileira caminhava para sua esquerda, a outra à direita ia, em uma singela harmonia que, seguramente, deixaria qualquer sol encabulado em não aceitar o pedido para retornar mais tarde, ou bem cedo, conforme o ponto de vista.
Ao final da demonstração, Thio Therezo se quedou todo pensativo por constrangedores minutos e comentou:
- Ainda bem que eles, nesses milênios todos, nunca falharam na dança. O amanhecer é algo a menos para eu ter que me preocupar...
Seu olhar distante o tornava inacessível nesses momentos. Eu era pequeno naquela época e essas coisas me impressionavam tanto!

São Paulo, junho de 2K12