quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Comigo

Ontem o meu abraço ficou novamente por aqui. Apenas escrito. A minha solidão está cada vez mais insuportável e todas as minhas máscaras e todos os meus teatros estão a tornar-se insuficientes. Ontem a minha mão ficou também novamente por aqui… agarrada apenas à caneta. Os teus dedos assim ficam estranhos, meu amor…

Todo o meu ontem do hoje e do amanhã é percorrer-te sem te tocar nas recordações que vou escrevendo. Vou passando assim os meus dias. Escrevendo e bebendo. Ontem fui despedido. Mais uma vez. É o terceiro emprego que perco por causa de chegar ou bêbado ou atrasado. Apenas quero levar-te comigo para conheceres o meu trabalho. E para te trazer, tenho que beber e levar-te naquelas folhas todas. Eles não percebem. Não te veem e apenas me despedem e expulsam a mim. Mas tu reconfortas-me. Abraças-me e beijas-me só por aqui. Em letras. E eu não sei até quando irei aguentar isto.

Agora sigo, como toda semana, ao correio. Envio-te mais uma carta, que novamente seguirá sem resposta. Acumulo lembranças só para afogá-las todas na bebida, para em seguida ressuscitá-las na forma dessa tinta seca espalhada pelo papel branco.

E sigo escrevendo, escrevo, envelope e envio, uma vez por semana.

A moça que me ajuda nesse caos que é a minha casa, arrumando e tirando o pó dos recantos invisíveis de meus pensamentos, ela estranha o quanto escrevo, menos o tanto que bebo, mais sim o que tanto escrevo. Cria coragem e pergunta o que tanto merece um papel em branco ser preenchido afinal e eu respondo que és tu, tu serás sempre a única razão para um papel receber garranchos e respingos dessa bebida amarga a que me imponho diariamente. Bebo e escrevo e relembro. Ela sorri e segue o seu destino que, vez ou outra, passa pelo apartamento fedido em que vivo, passa por esse espaço merecendo uma limpeza. Ela sorri, eu também, mas eu só de pirraça, se é que posso assim dizer. E tu lês, certeza tenho que lês meus desesperos e desesperanças, garranchos no papel em branco que merece ser preenchido.

Vou ao correio, quem não iria se te conhecesse?

- Já verificou se não mudou de local? Peço desculpa por estar a meter-me na sua vida, mas já enviou tantas cartas para esta morada e nunca recebeu qualquer resposta. Acho que deveria…

Ela só queira ajudar, mas eu não tenho paciência para ninguém. Poderia contar-lhe parte do que fomos e que nunca partiu, mas preferi sentar-me no chão e começar a escrever.

- Desculpe, mas não pode ficar aí no chão…

Saí dos correios não porque ela estava a mandar, mas porque precisava de ir beber para completar o que já tinha escrito. Precisava de abrir a porta. E esta porta de correr até ti para te abraçar por letras só assim se abre.

Esta noite vomitei novamente os lençóis. A almofada já tinha adquirido uma cor que nem um coquetel de arco-íris poderia definir. Enrolei tudo e coloquei-os no lixo. Só depois me lembrei que não tinha outros. Ainda tinha algum dinheiro guardado do último emprego, mas não fui comprar outros lençóis. Fui abrir mais portas até ti. Há dias em que preciso mesmo de o fazer com mais regularidade. Esta é a minha vida. Comigo contigo sem ti …

Voltei para casa no habitual horário da desesperança. Abri portas mas tu não entrastes. Escancarei janelas que tu ignorastes. Deixei folhas em branco sobre a mesa na, agora sei, vã expectativa de que surgissem, milagrosamente, tua resposta aos meus apelos, às minhas cartas que foram se perdendo em algum lugar. Prefiro ainda pensar que o correio andou perdendo todas aquelas cartas que enviei, mas no fundo sei que não foi isso.

Foi o que, então?

É estranho, sei, mas sempre que bebo, deixo um copo a mais por perto, é tua presença sendo requisitada, lembranças que não as deixo se perderem nunca, um brinde necessário entre nós dois que talvez nunca mais se repita.

Agora, penso triste, só há dois caminhos a seguir. Olho para a rua e vejo os carros passando em alta velocidade, esse é um. E o outro, esquecer-te, dolorido demais para esse acabado ser que aqui bebe e escreve...

[[ Esse é o segundo dos dois contos escritos em dueto com o poeta português João Dordio e que aparecem publicados no livro "Duetos Dordianos" (que eu costumo chamar de "Duelos Dordianos") em 2K20  pelo selo In-Finita.]]


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