quinta-feira, 20 de maio de 2021
quinta-feira, 13 de maio de 2021
História de amor na República de Hygina
Encontraram-se os dois em um daqueles momentos iluminados da vida, em que trajetórias que até então nem se tocavam, agora estarão embaraçadas para sempre. Ele, aposentado, e ela, filha solteira.
Trocaram olhares.
Parque. Mesmo banco do parque meio que vazio numa tarde de
uma terça-feira preguiçosa. Mesmo problema a ambos: como sacar o auxílio
emergencial usando aquele aplicativo recém-lançado pelo governo federal. Assim
se conheceram. Conversaram.
Trocaram inexperiências.
Mas, ao final, conseguiram. Almoçaram juntos gastando tudo
o que tinham sacado. Comemoraram.
Trocaram ideias e foram se conhecendo melhor e melhor.
Concordaram
com o ministro em voga por aqueles dias: um absurdo filhos de porteiros
cursarem faculdades; mais ainda, absurdo eles quererem viver muito, viver
saudável, isso só atrapalha o pib. Um brinde, ao final, ao ministro que
considera o crescimento do IDH uma péssima notícia. Tintin.
Trocaram sorrisos nesse momento em que almoçavam sem
máscaras.
Trocaram ódios, o sentimento em moda desde o último golpe.
Ainda bem que tiramos... começaram a falar em
uníssono como se fosse o mantra necessário para a devida identificação dos
pares. Riram da frase incompleta mas clara a todos.
Trocaram toques de mãos, a do aposentado mais afoita que a
da filha solteira.
Mas a troca de beijos teria que esperar por conta do tal
vírus chinês.
Discutiram possibilidades, além do beijo com máscaras.
Descartaram a cloroquina apesar de já terem defendido o seu uso em vários
momentos em apoio ao representante oficial de tantos eleitores. Mas, bobos não
eram...
Trocaram reclamações de seus conselhos de classe. O das
filhas solteiras, por exemplo, não se mexia para que seus filiados fossem
considerados parte prioritária do grupo prioritário. O que custaria já que
tantos se mobilizam nessa direção? ela argumentava.
Dias se passaram e ele mencionou uma amiga da prima da
vizinha que vendia vacinas a 600 reais a dose. Ansiosos, se renderam, não sem
antes tentarem pechinchar, levar vantagem é a regra geral.
Mal a agulha saía do braço e eles já se entregaram, ali
mesmo, a um longo beijo de língua, sob o aplauso dos outros presentes. Viva a
vacina, viva a ciência, viva a universidade. Não, aí já é demais, bando de
baderneiros.
Trocaram fluidos naquele mesmo dia.
E a filha solteira aproveitou a calmaria pós-gozo para
contar do filho de quatro anos que tinha tido com uma pessoa jurídica com quem
vivera antes. Ele disse que gostava de crianças e ela se animou e nem percebeu
os olhos deles brilhando. Para ela, uma nova família se formava.
Juntaram os trapos. Ele veio com a aposentadoria
compulsória de juiz comprovadamente corrupto e ela entrou com a polpuda pensão
do finado pai general. Não se casaram, a pensão faria falta, ele entendeu sem
reclamar.
De tempos em tempos, trocam sopapos e acabam na delegacia,
com direito a exame de corpo de delito e tudo. Mas dias se passam e tudo é
esquecido, até mesmo o B.O., que é queimado em um ritual que se repetia e se
repetia cada vez mais.
Frequentemente, porém, trocam risos e gargalhadas. Esse
país é muito divertido afinal de contas.
Ele pensa em se candidatar a vereador nas próximas eleições
e a única preocupação dela é quando tem que ir à academia e deixa o filho às
sós em casa com o aposentado.
De resto, tudo segue o script no eterno país das fardas e
das togas.
quinta-feira, 6 de maio de 2021
Vinténs - VIII
Meia Vida
Gavetas vasculhadas, agressões verbais, ciúmes patológicos
e doentios, controle diária das ações, quase delírios sistemáticos,
desconfianças e acusações impertinentes, espalhamento de boatos e insinuações
maldosas. Ao chegar ao seu final, ele percebeu finalmente que, em metade de sua
vida, ele fora um mero joguete na mão de algumas mulheres.
E na outra metade? Bom, a outra metade foi muito chata!
São Paulo, maio de 2012
Desânimo
Cabeça baixa, passo lento, pensativa, ela demorou muito
para perceber que um carro estacionara ao seu lado no meio fio. A porta se
abriu, ela parou, uma mão a convidou para entrar. Ela, então, pode ver com
clareza o rosto dele, rosto que sua mente não reconheceu como uma de suas
imagens arquivadas. Mas ela estava tão cansada! E ele tão gentil e sorridente!
Entrou no carro sem mover um só músculo de sua face. O silêncio só foi quebrado tempos depois quando eles já estavam bem longe da cidade.
São Paulo, 20/6/2009
quinta-feira, 29 de abril de 2021
Noves Fora...
Às vezes, uns gritos, gemidos em meio a um incômodo
silêncio, me acordam no meio da noite. O suor frio me imobiliza, me prende à
cama. Quando consigo, levanto-me, vou ao banheiro da suíte de casa, subo na banheira
para ter uma boa visão da rua pela janela alta. Mas nada! Ouço gritos de
desespero, angustiantes gemidos, mas nada vejo, e, no entanto, parece a voz de
meu irmão.
Não há nada pior do que gritos de desespero no meio da
noite, nada pior do que isso na escuridão do medo. Pareço impotente, estou
impotente, sou impotente nesses momentos. Suo, ouço, assusto-me, amedronto-me,
estou preso à cama, sinto meu peito arder ao escutar esses gritos todos vindo
da rua. São do meu irmão? Não sei, parecem ser, temo que sejam.
Arrisco olhar e ele não está na cama ao lado. Ainda ouço os
gritos que me acompanharão pelo resto da vida, noites insones me atemorizarão
até o fim. Custo a dormir novamente, mesmo com o inquieto silêncio que agora
volta a reinar, só dormirei mesmo quando o coração voltar ao normal. Quando
acordo, finalmente, vejo que ele está bem, dormindo, ressonando tranquilamente
na cama ao lado, mas a experiência, essa noite desesperadora, me acompanhará ao
longo de vários dias ainda, o temor e a angústia presentes em meu cotidiano.
De resto, tenho uma boa vida, nada para reclamar...
Bogotá, março de 2012
[[Este conto apareceu inicialmente no livro Contos&Vinténs (Editora A Girafa, 2012).]]
quinta-feira, 22 de abril de 2021
quinta-feira, 15 de abril de 2021
Piaf
quinta-feira, 8 de abril de 2021
VInténs - VII
Intruso
Ela, devidamente sem roupa e sem vergonha, atendeu à porta de sua casa. Ele, armado de seu sorriso e maleta de mão, adentrou-a. A casa, ela, a vida dela...
São Paulo, março de 2012
Gambiarra 2
E foi naquele momento que ela, olhando bem fundo em seus
olhos, finalmente falou. Falou tudo aquilo que ele não gostaria de ouvir, mas
que estava entalado em sua garganta há tempos. Ainda estavam os dois nus, na
cama, a noite tinha começado com eles fazendo amor, um amor estranho, meio
forçado e repetitivo, e foi evoluindo para uma daquelas brigas cada vez mais frequentes
em seus cotidianos, com as vozes subindo de tom na mesma intensidade em que o
lençol ia cobrindo seus envergonhados corpos.
E no exato momento em que ela abriu a boca para falar o que tanto o magoou, quase nada de seus corpos restavam descobertos.
São Paulo, 2009









