quinta-feira, 18 de junho de 2020

Möbius - parte 1

            Lá estão eles, os dois filhos, me trancando aqui em casa. É certo que eu dizia, e cumpria, que sairia de casa a hora que quisesse. Eles, sei lá por que, ficavam ameaçando trancar-me por aqui, vamos colocar uma nova fechadura aqui nessa porta, diziam e tanto disseram que agora cumprem o ameaçado e bem na minha frente. Agora eu os olho pela janela, conversam entre si sem remorsos, acenam ao final e se vão. Já a compra está toda no hall de entrada esperando que eu a desinfete e a arrume na cozinha.

A casa é grande, sei, mas maior é o mundo lá fora e eu gosto muito de minhas voltinhas, até sinto a dura abstinência se algo me impede a saída diária. Mas eles insistem que agora eu tenho que ficar dentro de casa, que é perigoso sair por aí na minha idade. Qual-o-quê, setenta anos é lá idade de risco? Setenta e seis, vá lá!

            Certo é que eles deixam semanalmente na minha porta tudo o que necessito, inclusive em uma tal fartura que não tive nesses anos todos desde que fiquei só nessa imensa casa. Daqui não saio, insistiam que saísse antes e agora me impedem de sair, vai entender isso! Não saio, mas quero dar minhas voltinhas pelo bairro, meu cafezinho na padaria, a conversa com o jornaleiro, a fezinha no jogo do bicho. Quem é que pode me impedir isso? Pois bastava eles virarem a esquina, eu recolhia toda a compra deixada na porta e, zás, saia para a minha voltinha, o sorriso para a manicure da rua de baixo, retribuído sim por ela com muito carinho. Ela até costuma me dizer que eu sou jovem demais para viver sozinho, para ficar preso naquela casa imensa sem companhia, e que dava até para a família inteira dela vir morar comigo se eu quisesse, tanto o espaço que eu tenho à disposição. Família inteira? E eu lá sou um idiota? Basta ela vir uma vez por semana para cuidar de minhas unhas e me conceder uma de suas massagens generosas. Pago muito bem pela unha e ela sabe disso, quero lá outra família? Basta a minha que agora, de tanto insistirem que eu não deveria sair, resolveram colocar uma nova fechadura na porta da frente, uma chave para cada um dos filhos e eu fico sem nenhuma, fico trancado e trancado.

Eles agora deixam essa fartura de coisas na minha porta, uma vez por semana, quem será que come tanto assim? Esperam à distância que eu recolha tudo e depois me trancam por aqui. A casa é grande, poderia passar dias e dias sem sequer repetir algum cômodo, a quarentena inteira sem sequer repetir quarto que fosse. Exagero... é grande, mas nem tanto. É grande, mas maior era minha voltinha diária nesse mundão de deus. Eles se justificam que é para o meu bem, que é por pouco tempo, que logo poderei voltar ao que era antes. Sei lá, sei lá. Preferia arriscar a não voltar para casa em um desses dias do que arriscar a não sair mais daqui.

Agora estou preso em casa. Parece que há uma outra porta, nos fundos da casa, mas não me lembro bem dela. Sempre usei a porta da frente nessas décadas todas em que aqui vivi, recusava-me a usar outra e agora nem tenho a certeza de que ela sequer existe. Esforço-me, olho para um dos corredores que sai da sala e fico confuso. O, digamos assim, corredor principal, irá dar no meu quarto, no banheiro que uso frequentemente e, lógico, na necessária cozinha. Faço esse trajeto todos os dias e até pareceria, a quem me vigiasse de perto, que a casa se resume a isso. Tudo o que precisei desde a morte dela está por aqui, nessa pequena porção dessa imensa casa. Sim, na cozinha há uma porta para fora, mas ela dá para um quintalzinho nos fundos, meio atulhado de coisas e sem saída para o mundo. Sem possibilidades para o jogo do bicho ou para a manicure, a não ser que ela pule o murro lá nos fundos. Será? Pedir muito.

O outro corredor, tempos não abro a sua porta, deve dar, eventualmente, para o mundo exterior, penso agora. É preciso explorar isso, mas hoje não que de aventuras mentais, já me cansei.

Acontece que semana passou antes de ter de novo esses pensamentos. Olhei minhas unhas e fiquei com saudades. E a porta principal da casa continua trancada por fora. Amanhã deve ser o dia em que eles virão, eles e as caixas de mantimentos. Se eu conversasse com eles, se pedisse com jeito, talvez eles me permitissem dar uma volta, apenas uma voltinha, curtinha, até a rua de baixo, bastaria isso. Suborno? Não... acho que eles não precisam, a herança da mãe foi bem gordinha. Chantagem emocional? Nada... são frios como o sorvete que eles me trazem todas as semanas.

Durmo desanimado.


quinta-feira, 11 de junho de 2020

rodízio

[[ da série Futurando ]]



          hoje acabou o rodízio

          dia sim, dia não

          entre a esperança e a falta de vontade

          entre a comida caseira e o delivery apressado e frio

          acabou hoje

          entre a lágrima da perda e a lágrima da expectativa

          entre os gráficos com curvas alongadas e as funções exponenciais

          acabou o rodízio

entre as lives

          entre a insônia e a preguiça de sair da cama

          entre os amigos do zoom e os ignorados do zapzap

          entre as palmas na sacada e os panelaços

          acabou, acabou

          entre a máscara e o pacote de batatas fritas lavado em água corrente

          entre o alquingel e a água sanitária

          entre o bom dia desconfiado e o celular limpado a álcool

          acabou, sim acabou o rodízio

         

          e o que vier, que venha

          que venha forte, único,

que nos arrebate de vez

          e que acabe pra sempre esse rodízio

          entre o medo e o ódio

 



Amigos,

tempo de quarentena, tempo de ler!

Para quem quiser conhecer melhor o meu trabalho, preparei alguns kits com os meus últimos livros. Para ler ou presentear.  Contato: flavioucoelho@gmail.com



- "Contos&Vinténs" (contos, AGirafa, 2012)

- "Pigarreios" (romance, Chiado, 2016)

- "Guarda-Trecos" (infantil, Belo Dia, 2017)

- "outros tantos" (contos, PENALUX, 2019).



• Kit I: os quatro livros, R$ 60,00 (frete nacional incluso).

• Kit II: três dos quatro livros (a escolher), R$ 50,00 (frete nacional incluso).

• Kit III: dois dos quatro livros (a escolher), R$ 40,00 (frete nacional incluso).

 

(os dez primeiros leitores receberão um brinde extra...)







quinta-feira, 4 de junho de 2020

A culpa é da Isildinha... parte II

[[ a primeira parte dessa história foi publicada na semana passada ]]



          - Sabe, Thio, acontece que justamente no dia dessa palestra sobre desejos quânticos eu tinha uma aula na faculdade.
          - A da esquina?
          - Pô, Thio, fala assim não, que você sabe que ela é conceituada.
          - Que seja. Continua...
          - Então, era uma aula sobre Provas, eu a perdi e desde então não consigo entender direito esse conceito. O que são Provas afinal? O que eu posso aceitar como Prova em um processo judicial? Como se prova uma culpa? Daí aparece uma tal de Produção de Provas. Quer dizer que eu posso produzir eu mesmo uma prova? Fico confuso, tantos detalhes...
          O Thio olhava estupefato ao juiz. Então era isso? O seu amigo juiz tinha dificuldades em entender o que era uma prova jurídica. É claro que o Thio já tinha desconfiado disso em vista das famosas decisões tomadas pelo fake hair ao longo dos anos. Estava claro que ele sequer desconfiasse o que isso fosse. Mas como explicar o que é uma prova a alguém que tem tanta dificuldade assim? O Thio ruminava seus pensamentos tentando achar um meio.
          - Veja, como posso explicar isso a você? Ah, quem sabe você não poderia me dar algum exemplo concreto e aí discutimos em cima dele.
          - Não sei se devo, são casos sigilosos. Se bem que de vez em quando vazamos coisas pra imprensa ajudar a gente...
          - Fale como se fosse em teoria... não precisa mencionar nomes...
          - Tá. Tem um caso em que o acusador, grande chapa meu, a gente combina tudo para não dar xabú depois... pois bem, o acusador quer provar que um determinado sujeito tem um quadriplex em uma cidade litorânea e quer trazer como prova um recibo de pedágio da Rodovia Imigrantes na direção ao litoral. É claro que tal recibo existe, ele foi encontrado em uma diligência ile..., digo legal, feita na casa de um amigo do acusado.
          - Um recibo de pedágio para comprovar que alguém possui um quadriplex? É isso? Você quer aceitar isso como prova?
          - Não sei se é uma prova forte... me ajuda, Thio! Mas veja o raciocínio. Se o acusado tem um recibo de pedágio para ir ao litoral, é claro que ele tem uma razão para ir a uma das inúmeras cidades litorâneas e essa razão não pode ser outra que ir para o seu quadriplex conseguido com dinheiro de suborno... não é claro isso?
          - Um recibo de pedágio para comprovar que alguém possui um quadriplex? - O Thio não acreditava no que ouvia.
          - É... parece fraca... quem sabe se fosse um triplex?
          O olhar do Thio ainda estava perplexo com tudo aquilo, tão perplexo que até o fakinho percebeu.
          - Duplex, talvez? Não, deixemos triplex, é mais chique... o que você acha?
          - E não há nenhuma outra possível prova para tal?
          - Há um depoimento...
          - Pode ser...
          - ... de um vendedor de amendoim da praia que garante que viu o acusado por lá.
          - Viu ele entrar no prédio? Mesmo assim...
          - Não, ele o viu por lá, na praia... ou ao menos era alguém muito parecido com o acusado.
          - Ah!
          - E tem também o documento.
          - Documento?
          - É, o documento de compra e venda do quadriplex, digamos que seja do triplex.
          - Estamos melhorando.
          - Pena que não esteja assinado...
          - Como assim, não está assinado? Por ninguém?
          - É, sem assinaturas, nenhuma. Na realidade, ninguém sabe de onde veio esse documento, mas é um documento de compra e venda, né? Me ajuda, Thio, estou com tantas dificuldades com essas questões de provas... Por que é tão difícil assim?
          O Thio ficou com pena.
          - Se você ainda não tivesse perdido a aula por conta da Isildinha, né?
          - É isso, Thio, agora você percebeu, a culpa é dela! – o fake hair estava desolado. Mas o Thio sabia que ensinar o que é uma prova judicial a alguém que detém o poder como os fakinhos desse país tem é por demais da conta. Em todo o caso, estava tranquilo, pois daqui a pouco, depois da terceira cerveja eles estariam falando de coisas mais amenas.
          - E a propósito, como ela vai? Ainda a vê? – O Thio provocou.
          - A Isildinha?
          - É, ela mesma.
          -  Não a vejo mais, não, faz tempo. Brigamos, ela se decepcionou comigo pois eu não consegui passar no exame da OAB...
          - Acontece, isso acontece. Um brinde, então, às injustiças da vida!
          - Um brinde! – o fake hair levantou seu copo sem perceber a ironia.


quinta-feira, 28 de maio de 2020

A culpa é da Isildinha... parte I


Já mencionei aqui que o Thio Therezo não se dava muito bem com o fake hair, que é o apelido dado àquele juiz de primeira instância com cabeluda peruca que costumava frequentar o bar onde sua turma se reunia vez ou outra. Muito desse distanciamento entre eles se dava por conta das decisões que o juiz tinha tomado e que, no entender do Thio, eram muito parciais. Que o juiz tenha lá suas convicções políticas, tudo bem, mas manipular a lei por conta delas, isso é grave, resmungou uma vez o Thio sobre o fake hair.
Mas nem sempre foi assim. Houve uma época em que o fakinho, que era um dos apelidos que o Thio usava para o juiz, o procurava para tirar algumas dúvidas jurídicas. Isso sempre a boca pequena pois ele não queria ser ridicularizado pelos amigos em comum. Afinal, ele precisava manter a sua autoridade a todo custo. O Thio, muitas vezes a contragosto por conta de se sentir traído frequentemente pelo fakinho, deu-lhe muitas aulas e dicas jurídicas. Tentava assim influenciar, de forma positiva, o juiz em suas decisões. O Direito não é uma ciência exata, mas há limites para a livre interpretação...
Teve um dia em que o fake procurou o Thio e a conversa começou meio estranha.
- Sabe, Thio, a culpa é toda da Isildinha...
O Thio, que tinha levado o copo de cerveja à boca, parou e ficou olhando-o sem entender. A clareza não era o forte do fake hair mas, dando corda à conversa, talvez até ela tenha sentido mais para a frente.
- Culpa da Isildinha?
- Sim, Thio, deixa eu contar. A Isildinha era uma vizinha minha que assim que conheci fiquei apaixonado, sabe como são essas coisas, né? ela era uma graça de pessoa, culta, meio hippiezinha demais para o meu gosto, mas sabe como é, né? Paixão é paixão!
          O Thio olhava para ele sem entender muito o porquê de terem marcado aquele happy hour e ainda mais em um bar longe do que costumavam frequentar com o resto da turma. Que papo é esse de paixão e que raios eu tenho a ver com essa tal de Isildinha? Ainda mais se ela é a culpada, mas culpada de que, ora bolas? O Thio já se enervava com tantas dúvidas.
          - Sabe como isso começou?
          Não, o Thio não queria saber. E já estava ficando impaciente. É certo que o seu extenso trabalho realizado na área de aconselhamentos emocionais mais do que o credenciava a ajudar os amigos de forma efetiva em questões amorosas como bem parecia ser o caso. Mas, na realidade, não queria, nunca quis aliás, atuar na linha de frente desses problemas, odiava mimimis e trelelés. O que ele gostava era do trabalho mais acadêmico, o de aconselhamento genérico digamos assim. No entanto, não teve jeito (nem com j nem com g...), o fakinho foi falando e contando seus arroubos amorosos com a vizinha e como gastava cada vez mais tempo junto a ela. Até um dia em que foram assistir a uma palestra sobre “Desejos quânticos e suas influências nos sentimentos mundanos” ministrado por uma das tais sumidades da autoajuda.
          - Muito interessante, sabe, Thio, gostei muito da palestra apesar de não ter entendido direito o que o paradigma quântico tem a ver com desejos. Não importa, eu fiquei excitado só de ouvir falar em desejos ao lado da Isildinha. E ela também parecia ter apreciado isso. Você precisava vê-la, Thio, quando o palestrante chegou ao clímax de sua fala. Ela fechou os olhos e parecia até levitar... foi aí que senti uma vontade de beijá-la, um algo que me queimava as entranhas, que superava qualquer baboseira quântica que me mostrassem naquele momento! Parecia até que ambos levitávamos em harmonia naquele momento sublime!
          O Thio sorveu mais um gole de cerveja, pouco se interessou por essa ideia de desejos quânticos quando tal conceito entrou em moda anos atrás e não seria agora que isso iria lhe interessar. Resolveu então procurar alguma distração mental quando o fake hair falou:
          - ... e aí eu chego ao ponto que queria discutir contigo...
          Levitação, foi o que ocorreu ao Thio. O que ele gostaria de saber sobre levitação? Um apanhado histórico até poderia ser, visto que o Thio tinha escrito algo do gênero tantos anos atrás... No entanto, sobre levitação quântica, isso ele não tinha a mínima ideia do que poderia ser. O Thio esperou ansioso pelo que sairia da boca de seu amigo juiz.


[[ a segunda e última parte dessa história será publicada na próxima semana ]]

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Aldravias na Quarentena


aldravias
na
quarentena,
o
que
mais?


************************************


tentativa
e
erro
errei
erro
errarei


************************************


trégua
na
quarentena
ninguém
quer,
né?


************************************


não
há
como
isso
dar
certo


************************************


sem
jeito
com
jota
ou
gê


************************************


quarentena
de
quinze
dias
quinzena
é




[Aldravias. O movimento aldravista nasceu em 2000 em Mariana (MG). Seus poemas se caracterizam pela estrutura em seis versos univocabulares.]

e por falar em poesia... no último domingo, participei virtualmente de um sarau organizado pelos amigos da In-Finita em Portugal (Adriana, Emanuel e Julia) no Palácio Baldaya de Lisboa. Quem quiser ver, pode acessar o vídeo aqui.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Quinquênio



          No dia 14 de maio, cinco anos atrás, eu inaugurava esse meu blog com a perspectiva de, talvez, escrevê-lo por um par de anos. O meu receio era não ter assunto para postar todas as semanas e essa era a única regra autoimposta: um texto semanal, sempre às quintas-feiras. Não importava se fosse conto, novo ou já publicado, crônica, poesia ou recreação, o que importava era não deixar as quintas-feiras passarem em branco. E não é que consegui chegar ao quinto ano sem falhar uma semana? Essa é a 262ª postagem no blog.
          Claro que, para comemorar, nada melhor que um bolo e, nesses tempos de quarentena e de lembranças (há algo melhor para incentivar a memória que esse isolamento imposto?), acabei atazanado com uma receita que o Thio Therezo me ensinou quando eu ainda era uma criança. Um bolo simples de cenoura mas que traz consigo muita lembrança e história.
          O Thio, talvez nem seja preciso relembrar, é um chef internacionalmente conceituado, com inúmeros prêmios e livros publicados. Ele é o único chef a receber quatro estrelas em toda a vida do Guia Michelin, mas isso é outra história que conto em uma outra oportunidade. O que queria contar hoje se passou quando ele, apesar da reconhecida competência, ainda não era o famoso cozinheiro que todos admiramos.
          Lembro bem do dia em que o Thio me chamou à cozinha para mostrar como fazer o seu, e agora também meu, bolo predileto. Eu era então pequeno, já gordinho mas pequeno. A cozinha nunca me foi um lugar estranho, pois eu me vejo desde sempre ajudando a mamãe em suas famosas receitas. Talvez ajudando fosse a palavra com que eu descrevo isso agora, mas mamãe deve ter pensado muitas vezes na palavra atrapalhando. Lembro por exemplo, quando mais crescido, que a cada dois ou três pastéis que eu fritava, um era devorado tão logo saia da frigideira. Nessas horas, mamãe me olhava meio que me censurando meio que aceitando a travessura de um de seus quatro filhos prediletos. Mas como resistir àqueles pasteis de carne e de queijo que ela fazia?
          Pois bem, quando o Thio me ensinou a receita do bolo de cenoura, eu ainda não tinha idade para fritar pastéis e foi mais uma diversão que qualquer outra coisa. Ele descascou quatro cenouras e picou em pedaços que foram para o liquidificador junto a quatro ovos e uma xícara de óleo. Thio Therezo insistia em abrir ovo a ovo em uma tigela separada antes de jogá-lo no copo do liquidificador, é que se um estiver estragado, não se perde o resto dos produtos, ele justificava.
          Devido à minha pouca idade, minha função naquele dia foi o de pilotar o liquidificador. Foi o que fiz até essa mistura cenoura/ovos/óleo ficar bem triturada. A ela foram então adicionadas duas xícaras de açúcar, duas de farinha de trigo, uma colher de fermento em pó e, claro, uma pitada de sal.
          - Sabe, garoto, as duas medidas mais precisas da culinária são “uma pitada” e “a gosto”. As outras são meras referências – o Thio me dizia isso com o seu famoso sorriso irônico no rosto enquanto eu continuava a pilotar o liquidificador por mais um tempo. Fora essa essencial ajuda, eu prestava muita atenção nas palavras do Thio para tentar assimilar um pouco daquela sabedoria toda, tão inocente eu era naquela idade.
          Tudo misturado, os ingredientes viravam ao final uma massa que foi ao forno médio pelo tempo suficiente até passar no teste do palito. Enquanto esperávamos, uma crucial decisão nos atormentava. Qual cobertura fazer? Uma de chocolate ou a de limão? Enquanto a dúvida nos destruía por dentro, o Thio me ensinou a fazer uma e outra. Para a primeira, duzentos gramas de chocolate amargo derretidos em banho maria e acrescidos de duzentos ml de creme de leite (uma das caixinhas atuais). Misture bem ainda no banho maria até virar um creme homogêneo e, então, levar à geladeira. Essa cobertura tem que estar fria na hora de se colocar no topo do bolo, também frio.
          Diferente da outra cobertura, que tem que ser colocada com o bolo ainda quente para que, com o choque térmico, o açúcar endureça. Ingredientes? Um copo de açúcar, meio limão e umas quatro colheres de leite.
          - Mas Thio, assim talha! – olha eu, ainda pequeno, tentando mostrar sabedoria...
          - Talha sim, garoto, mas fica muito gostoso!
          Naquele primeiro dia, optamos pela cobertura de limão e hoje, para o quinquênio, o Thio e eu fizemos o bolo de cenoura com a cobertura de chocolate. Acho até que já aprendi direito a receita, mesmo não a fazendo tão frequentemente.
          Enquanto esperávamos o bolo assar, fizemos a mistura para a cobertura. Notei que o tal copo de açúcar não era bem um copo, foi bem mais, e o leite foi colocado meio que no improviso. O Thio percebeu o meu olhar de estranheza e disse.
          - Olha, garoto, culinária não é uma ciência exata. Culinária é que nem Direito, a gente tem a receita, ou a lei, mas não precisa segui-la exatamente, o comum é interpretar de acordo com o gosto e a conveniência do momento.
          O Thio sempre aproveitando para me ensinar coisas. Aliás, essa expressão tal coisa não é uma ciência exata eu tanto escutei no meu dia a dia que até hoje tenho dificuldades em encontrar tal ciência. Até parece uma ciência que não serve para nada, tão desqualificada ela é por essa expressão e pelas pessoas. Em todo o caso, quando olhei para o Thio naquele dia ele sorria da ironia feita e que eu só consegui perceber muito tempo depois.
          O que importa, nesses tempos duros de pandemias virais e vermiculares, é que um quinquênio já se foi desde que inaugurei meu blog e isso merece uma comemoração. Se irei completar um segundo quinquênio? Só o tempo dirá, mas hoje o que importa é o bolo de cenoura que fizemos, Thio Therezo e eu, para essa celebração.
          Servidos?






Organizada pela Rosana Rios, a RRLiteratura lançou a antologia Depois da Quarentena (antologia futura de um presente confinado) da qual eu participo com um conto chamado Desquarentando. Essa antologia, apenas no formato e-book por enquanto, está à venda na AMAZON e todos os seus royalties serão doados a organizações sociais. Clique aqui.



quinta-feira, 7 de maio de 2020

Conversas à parte

          Naquele jantar com amigos, às vésperas da quarentena, o Thio Therezo esteve a um tantinho assim de perder o humor. Estavam todos já instalados no restaurante, pedidos sendo discutidos e todos já comendo o famoso pãozinho com manteiga da cantina predileta, quando o Thio resolveu dar a sua opinião sobre as últimas decisões do Supremo, quentinhas como o pãozinho. Foi interrompido subitamente pelo amigo que todos chamavam de fake hair:
          - Acho interessante que nessas horas todo mundo se acha um doutor em direito constitucional...
          O silêncio então prevaleceu. O Thio, que deve somar cerca de uma dúzia de títulos de doutorado na área de direito, contando tanto Stricto Sensus quanto Honoris Causa, calou-se. É que nenhum deles era especificamente em direito constitucional. Todos os outros mantiveram suas respirações em suspenso esperando o que iria dar essa pequena mas não inofensiva observação.
O Thio, todos consideravam e respeitavam. As suas opiniões, mesmo as mais polêmicas, elas eram sempre de grande valia a todos os presentes. Mas isso aparentemente não dizia respeito ao fake hair. Por sua vez, o fake hair, assim apelidado por conta de sua longa peruca de cor negra, não chegava aos pés da inteligência e experiência do Thio. É certo que ele tinha feito a sua graduação em uma das inúmeras escolas de esquina que existem nesse país e que era agora, e já por um longo tempo, um juiz de primeira instância. Consta até que um dia, após ter exagerado um pouco no vinho, o Thio disse que o fake hair era um mero juiz de primeira esquina, levando a audiência a intermináveis gargalhadas. Mas ninguém confirma isso, muito menos o próprio Thio.
          O fato é que o silêncio prevaleceu após essa fala repreensiva e até o fake hair percebeu o embaraço. Não demonstrou isso, no entanto. Para quebrar o gelo, pediu ao garçom a carta de vinho e anunciou que iria escolher o que beberiam.
          - Mas... não entendi – disse o Thio – você vai escolher o vinho? Qual a sua qualificação para tal?
          - Ah... eu entendo um pouco de vinhos, sim, fiz até um curso de degustação de duas horas no último verão.
          - Mas não tem doutorado em enologia, ou tem?
          - Não... mas Thio, para isso...
          - Devemos concluir que a sua opinião é então irrelevante nessa matéria – concluiu o Thio para deleite dos outros presentes que concordavam com a cabeça. Pediram chopps e beberam em silêncio, ninguém se atreveria, naquele momento, a dar a sua opinião sobre a qualidade da bebida.
          Aliás, passaram o resto da noite praticamente sem falar, pois a cada vez que alguém propunha algum assunto, chegava-se à conclusão de que não haveria doutores suficientes na área para mantê-lo ativo. Filmes? Nenhum doutorado em cinema, havia um doutor em cinema francês nouvelle vague, mas esse não valia pois queriam discutir os últimos lançamentos. Futebol? Rá, nenhum doutorado que sequer passasse próximo ao que se necessitava para tal. Música, o Thio havia escrito muitos ensaios sobre música, principalmente a medieval, mas monólogos foram descartados. Nenhuma opinião a respeito do que comeram foi permitida, isso iria requerer um doutorado em culinária e, lá, nenhum dos presentes possuía (a bem da verdade, o Thio possui um doutorado em culinária vegana e eles estavam numa churrascaria).
          Pela primeira vez, uma reunião com aquele grupo se dava em completa quietude, pois em geral elas eram sempre excessivamente barulhentas, com quase todos comentando suas opiniões em paralelo e em alto bom som e sem repreensões.
          Ao final daquele jantar onde até se ouviu o eco do berro dos bois que chegavam grelhados à mesa, o Thio fez a divisão da conta e coube ao fake hair pagar 90% de seu valor sendo que os 10% restantes iriam ser divididos entre os outros presentes.
          - Mas isso está errado, deixa eu fazer essa divisão... – o fake hair contestou.
          - Você por um acaso tem um doutorado em matemática? – o Thio perguntou a ele seriamente.
          - Não... mas...
          - Pois é... eu tenho!
          Claro que, ao final, o Thio pegou uma maquininha de calcular e fez a divisão correta (imagina que um doutor em matemática conseguiria fazer uma divisão dessas sem uma maquininha!).
          Os amigos do Thio planejam um novo jantar tão logo a quarentena passe, estão com muitas saudades da festa barulhenta que costumam fazer nos restaurantes. Talvez até deem uma nova chance ao fake hair, mas isso não é consenso entre eles. E como nenhum deles tem um doutorado em diplomacia, é bem capaz de se esquecerem dele na hora h.


São Paulo, quarentena de 2020.




Organizada pela Rosana Rios, a RRLiteratura lançou a antologia Depois da Quarentena (antologia futura de um presente confinado) da qual eu participo com um conto chamado Desquarentando. Essa antologia, apenas no formato e-book por enquanto, está à venda na AMAZON e todos os seus royalties serão doados a organizações sociais. Clique aqui.