quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Bibo!


E aí você está todo concentrado tentando finalizar um conto para postar em seu blog quando, do nada, o telefone toca. E aí você atende.

“Eu queria estar falando com o Flávio Ochoa...”
“Não tem ninguém com esse nome aqui...” você responde, mas o outro lado é insistente.
“... Flávio Ulhoa...” ele tenta de novo, desta vez juntando todos os neurônios disponíveis para conseguir ler direito o que a tela mostra à sua frente.
“Esse tem!” você responde.
“Estou falando com ele?” ele pergunta, sem nem esperar resposta. “Oi, Flávio, é o Danilo falando, da Bibo Relacionamentos”, ele completa tentando fingir uma intimidade que, deve ter gente que gosta, mas você não.
E aí você olha o relógio e pergunta a ele se ele sabia que horas eram, sua concentração no trabalho já se foi para o espaço.
“Sei, são oito e meia da noite... mas não se preocupe, Flávio, eu trabalho até as nove...” 
E antes que você pudesse reagir e dizer que você não quer discutir nada disso a essa hora, ele emenda com mais uma pérola.
“Flávio, para sua própria segurança, nós vamos estar gravando essa ligação, tá?” Pronto, a frase mágica: para sua própria segurança, para sua própria segurança...
E aí você quer entender o que isso significa, “como assim?” você pergunta.
“Hã? É isso que eu falei, vamos estar gravando essa ligação para a sua própria segurança.” Pronto, aí você não pode deixar escapar suas dúvidas.
“Mas por que vocês gravariam isso para a minha segurança? A Bibo está com más intenções comigo?”
“Não...”
“Ela está tentando me enganar? E por isso é que eu preciso de uma gravação?”
“Não, senhor, é para a sua própria segurança... se o senhor me deixar explicar...” e aí você deixa... deixa ele explicar.
“É que se o senhor contratar algum serviço conosco, tudo ficará gravado para a sua própria segurança!”
“Mas são vocês é que estão gravando, que garantias eu tenho?”
“O senhor também pode estar gravando se quiser...”
“Mas eu não quero gravar, vocês é que estão gravando...”
“É para sua própria segurança, senhor...”
“Parece que vocês desconfiam de mim...” você arrisca para ver qual a resposta.
“Nada disso, senhor. Se o senhor quiser, podemos enviar a gravação depois...”
“E quem me garante que vocês vão me enviar a gravação correta? Já que são vocês é que têm a gravação... talvez venha algo editado...”
Sem nos entendermos, ainda trocamos alguns minutinhos de conversa, sinceramente eu não conseguia entender o porquê deles estarem tão preocupados com a minha segurança em uma negociação com eles. Até que, já deve ter dado o tempo que ele precisava, por contrato, manter a ligação, ele resmunga contrariado.
“Não dá para conversar com o senhor, passar bem!”
E aí você está muito ocupado para ligar de volta para a Bibo e dizer que um dos atendentes não foi treinado direito, ele não pode perder o humor com o cliente, nunca, jamais. E, provavelmente, ele deixou de estar gravando essa sua última fala...
E aí, você já está desconcentrado mesmo e demorará um tempo extra para conseguir finalizar o conto. Por outro lado, você aí já tem uma estória para a semana seguinte...

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O reino do óleo fervente.


Quando Thio Therezo relatou suas desventuras passadas naquele pequeno reino asiático por ocasião da condecoração, que por sinal não houve, por sua façanha de ter assistido a todas as possíveis trocas de guardas existentes nesse mundão de Deus, o que mais nos impressionou, éramos jovens e tudo nos impressionava tanto, foi quando ele mencionou o caldeirão de óleo fervente onde os frequentes golpistas daquele reino jogavam seus inimigos depostos do poder.

Thio Therezo contou-nos que, além de uma ininteligível religião politeísta, aquele reino, que fora por muito tempo uma das meras colônias inglesas, possuía duas características marcantes, arraigadas por milênios de tradição: o usual costume do golpe político e o tal caldeirão de óleo fervente.
Tranquilizou-nos o Thio ao assegurar que o óleo utilizado nessas horas possuía baixo teor de gordura trans, portanto muito mais saudável que um normal. Isso fora uma imposição de um grupo de ativistas que, até o final trágico do reino, buscou uma melhor qualidade de vida a depostos e golpistas, já que esses frequentes movimentos de troca de poder (tanto frequente quanto o da troca de guarda) eram inevitáveis.
Naquele reino, nos pouco mais que cinquenta anos de vida independente, ou um golpe estava sendo planejado ou um já estava em seu efetivo curso. Monarquistas, militares e republicanos alternavam-se no poder, esses últimos em deslavada desvantagem histórica.
Thio Therezo, um verdadeiro expert em reinos perdidos no meio de regiões montanhosas e florestais, como era bem o caso desse pequeno reino asiático, contou-nos então que sim, era uma tradição milenar, um ritual a que nenhum dos derrotados escapava, o terapêutico banho em óleo fervente. Contou-nos também, muito extasiado com isso, que os hábitos se incorporaram no dia a dia e, por isso, não era incomum ouvir-se nos botequins frases do tipo “o óleo ainda está frio”, “tá esquentando, tá esquentando...” ou ainda “já chegou ao ponto da fervura” para indicar, sem meias palavras ou maiores explicações, os vários estágios do golpe da vez.
Consta até que havia, mas Thio Therezo garante que isso é mera especulação de gente desocupada, um imenso caldeirão em uma das torres do palácio central com fogo fátuo para as chamadas “eventuais eventualidades” e que, em mais que cinquenta anos de existência, só em dois ou três momentos esse fogo foi apagado, depois de elaboradas e custosas negociações entre os vários grupos políticos, e o óleo chegou à temperatura que permitia, no máximo, uma corriqueira limpeza de pele.
Thio Therezo conta tudo isso, muitas vezes, com água nos olhos, parece que parentes distantes dele tinham imigrado a esse reino em busca de uma vida espiritualmente mais sã, mesmo conscientes de que um esforço sobrenatural fosse necessário para se entender em toda a profundidade a politeísta religião local. Pelo que se soube, em uma das reviravoltas todos eles tinham virado torresminho. Mas Thio Therezo se lembra bem de um deles, do capitão que o ajudou a fugir do reino naquela confusa e violenta noite da homenagem que não houve. Naquele dia, seus supostos familiares estariam no lado dos vencedores, coisa que, aparentemente, não voltou a suceder meros seis meses depois.
Acontece que um terremoto dizimou de forma inexorável aquele reino matando, sem exceção, todos os seus habitantes. Os poucos que sobreviveram, em um primeiro momento, ao abalo sísmico não conseguiram porém escapar aos caldeirões, muito deles clandestinos e em número maior do que o senso comum acharia possível, que vazaram seus óleos ferventes terminando assim a devastação iniciada pelo tremor de terra e que transformou o reino, com o passar do tempo, em um belo mas desabitado vale florido logo incorporado pela grande potência do leste, que atualmente o utiliza como polo turístico.
Thio Therezo conta-nos que, antes desse fim trágico, o reino passou por uma ligeira experiência republicana. Eleições livres foram realizadas em um ambiente de total liberdade de expressão com o apoio internacional e os dois principais candidatos disputaram, palmo a palmo, uma recém instituída presidência da república.
Mas, tradição é tradição, nem vinte e quatro horas passadas da proclamação dos resultados, o candidato derrotado começou a famosa campanha “aumente a fervura!” com passeatas pelas ruas principais da capital do reino e tudo o mais que fosse possível. Consta que esse candidato, na certeza de que seria eleito, tinha celebrado, par de horas antes do resultado oficial, com champagne uma vitória que não se concretizaria. Dizem as más línguas, mas Thio Therezo não acredita nisso, que ter feito esse papelão frente a seus correligionários foi o estopim que ele precisava para começar imediatamente a campanha pela deposição do recém eleito presidente.
Óleo fervente e champagne, vai saber, estavam no sangue dos habitantes daquele reino...

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Thio Therezo e a troca de guardas


Thio Therezo se gaba, e seguramente há inúmeras razões para tal, por ter presenciado todas as trocas de guardas reais existentes no mundo. Desde as mais tradicionais até as mais bizarras releituras modernas, não há quem possa reclamar da falta delas.
Ele sempre achou que existia um sentido muito especial na existência, e insistência, dessas trocas de guardas: algo assim como uma perfeita metáfora para o nosso quotidiano, para a vida que vivemos, para a sucessão das gerações. Ele tentou nos explicar essa sua teoria mas nós, jovens que éramos, não conseguíamos perceber seus argumentos em todas a suas necessárias sutilezas. Agitado que era, logo desistiu ao ver nossos olhares ansiosos e confusos. Paciência conosco nunca foi seu forte, o que há de se fazer...
Conta ele que, um dia, ao presenciar a troca de guarda de um pequeno reino asiático, ele foi reconhecido por um guarda que fazia serviços terceirizados nessa área de trocas e que já o tinha visto em outra ocasião e lugar. Nada mais natural reconhecer o Thio Therezo, mesmo em meio a uma multidão, quem já o viu sabe muito bem o que quero dizer com isso.
Pois bem, sem mais poréns, os dois estabeleceram conversas e, no meio dessas, Thio Therezo confidenciou que aquela troca era a última que faltava presenciar em seu extenso currículo, já as tinha visto em todos os diversos continentes e em todos os possíveis países e nos mais variados e improváveis reinos, o que muito impressionou o empregado terceirizado, esse sim com longa experiência no ramo, mesmo que do outro lado.
Logo, mas sem grandes alardes, a notícia da presença de tão ilustre espectador e de sua improvável façanha chegou aos ouvidos reais e o Thio Therezo foi convidado para um monárquico jantar naquela mesma noite no qual ele seria devida e justamente homenageado.
Ao lado dos feitos de outros dois súditos que também seriam homenageados, um por sua capacidade de cantar todas as cantatas de Bach de trás para frente e outro por se gabar por ter feito um jejum completo de 87 dias, a todos ficava claro qual seria o principal homenageado da noite e isso ficou especialmente notável quando o nosso Thio adentrou o grande salão real, perfeita imitação de uma famosa sala de espelhos de outro continente, tantas palmas se ouviram nesse momento.
Nem é preciso dizer que o Thio trajava a sua imponente roupa de gala cheia de medalhas e honrarias. Tantas, que o jovem príncipe local se aborreceu ao notar que o seu próprio traje ficara em segundo plano por sua escancarada simplicidade. Mas, isso, é outra estória, que cada um cultive suas invejas em paz.
Porém, mal o jantar começara e nenhuma das homenagens tinha ainda ocorrido quando irrompeu um golpe militar que destituiu o ultimo dos reis daqueles lados da Ásia.
Thio Therezo só conseguiu escapar da imersão em óleo fervente que era a exemplar e usual punição que os monarcas recebiam naquele país nas frequentes rebeliões militares, por conta de seu, longínquo e inesperado há de se convir, parentesco com um dos capitães que patrocinaram o golpe e, assim, conseguiu fugir do palácio, vestido de padre. Por baixo, sua famosa roupa de gala, que ele se recusou a deixá-la para trás, ainda mais que, na confusão que se estabeleceu, ele conseguiu pegar a medalha destinada a ele na homenagem que não houve e logo percebeu que ela harmoniosamente complementava o seu já impressionante traje.
Tal disfarce, providencial que foi, deve ter chamado muito a atenção em todo o confuso trajeto até o aeroporto que estava prestes a fechar por ter se passado em um país em que cerca de noventa e cinco por cento da população professava uma obscura religião politeísta. O ponto é que salvaram-se todos os inocentes naquele bizarro evento de rebelião. Por sua vez, a troca de guarda daquele dia seria a última do pequeno reino asiático, pois os rebeldes, esquecendo-se do profundo significado metafórico embutido em tal ritual, decretaram, de forma irrevogável, o seu fim.
Mas Thio Therezo se gaba sempre de tê-las presenciado todas, inclusive algumas que já nem existem mais.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Cadê a bandeirinha?


        E aí você está na frente do Palácio de Buckingham, troca da guarda já terminada mas ainda aquele amontoado de gente zanzando prá lá e prá cá...
E aí você tem uma ideia genial e inédita: tirar uma foto sua com o tal palácio ao fundo.
E aí você olha em volta, identifica alguém que estava de passagem e pede a ele para sacar essa foto, passa-lhe a câmera fotográfica, que você ainda é desse tempo, mostra o botãozinho que esse alguém tem que apertar e coisa e tal, se posiciona, sorri como turista, imaginando a bela foto que irá para o face...
E aí ele conta até três, faz uma careta e... pronto!
E aí ele devolve a câmera e você rapidamente vai olhar a foto... Curiosidade!
Desastre, verdadeiro desastre... cortou metade da cabeça, os pés nem de longe se vê, só meia canela e olhe lá, totalmente descentralizada, que coisa, palácio meio torto ao fundo e... 
Cadê a bandeirinha???? Cadê a bandeirinha????
Para tudo há um limite! E você não pode deixar que isso fique assim e, antes que o elemento consiga escapar, não resta outra coisa que chamá-lo de novo e fazê-lo entender a porcaria de foto que fez.
E aí você mostra a ele a foto, se é que é possível chamar isso de foto... e grita para que todos naquela praça escutem.
“Veja só o que você aprontou com a minha câmera!!! Isso lá é utilizar bem os pixels que eu coloquei à sua disposição em total confiança?” Você continua, sem dar tempo de qualquer reação: “vem cá, cara, precisa centralizar isso, onde já se viu? Onde é que está o seu senso estético??? Ninguém nunca te ensinou isso?”
E aí você mostra a bandeirinha bem lá no topo do palácio.
“Você vê a bandeirinha lá em cima?” E o elemento, um tanto quanto assustado, responde que sim.
“E aqui na foto? Você vê a bandeirinha??? Por um acaso, você consegue ver a bandeirinha aqui nessa foto? Não minta... não minta que é pior...”
Antes que o elemento se refaça do susto e consiga responder, você completa, pois é preciso manter o domínio da situação.
“Vou apagar essa porcaria de foto que você tirou e vamos começar tudo de novo”. E aí, você apaga a foto bem na frente dele para que não reste testemunho que seja, mesmo que virtual, desse desastre estético... É preciso mostrar autoridade nessas horas que senão tudo descamba de vez, e, se descambar, um passo estaria de arruinar por completo suas longamente planejadas férias... 
Vontade de dar um cascudo nesse cara, mas aí você se controla, nem é para tanto!
“E agora, vamos recomeçar... não quero releituras nem pós-modernismos, apenas uma foto simples minha com o palácio ao fundo... Centraliza, não corte as pernas, mostre todo o palácio, inclua a bandeirinha...” você vai instruindo o elemento assustado mas atento. “Um passo para trás que fica melhor...”
Ele, tremendo mas obediente, saca mais uma foto, deixa a sua câmera no chão sem sequer checar o resultado e sai correndo sob os olhares de muitos que por lá presenciaram toda a cena.
Mas qual-o-quê! Caso sem solução, a segunda foto saiu ainda pior. E ainda mais, desfocada... o elemento resolveu tremer na hora de clicar!!!
E aí, você olha ao redor e parece não encontrar ninguém disposto ou confiável o suficiente para tirar uma nova foto... uma que inclua a bandeirinha!

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Tempo


Por um longo tempo, muito mais do que era razoável de se esperar, ele ainda esperou a sua vez. Quando ela chegou repetiu aquilo que muitas vezes já tinha repetido antes com todos aqueles detalhes que a princípio o aborrecia contar mas que agora, o que importa isto, não se importava em contar e que ao que parece tanto satisfazem os ouvintes. Estava cansado de toda esta farsa. Só uma pequena força ainda o arrastava a contar de novo, a se expor a este ridículo que é esperar um longo tempo na fila para depois contar todos aqueles detalhes e mesmo que já não sente tanto como nas primeiras vezes, ainda fingia uma grande saudade, ainda fingia um grande desespero, que senão ninguém nos ouve, ainda fingia demonstrar o que sente mas não demonstra. E mais uma vez contou, empurrado por aquela pequena convicção, pequena diga-se de passagem, de que alguém poderia fazer algo pra ajudá-lo, de que alguém poderia ter alguma ideia de como resolver a contento aquilo que dias atrás parecia o mais terrível problema que tinha cruzado sua rotineira vida (e que hoje já se incorporava em sua rotina). Tinha esta expectativa e era conduzido por ela, roubando-lhe forças pra poder esperar por tanto tempo naquela fila e saber que as perguntas viriam e saber que perguntas viriam e teria de respondê-las, que diabos, se isto resolver tudo o que importa contar tudo de novo e contaria tudo de novo tantas vezes quanto preciso.
Só não sabia que não seria preciso nenhuma vez mais. Só não sabia que enquanto contava aquilo que já estava cansado de contar pela que seria a última vez foi sentindo uma paz, a paz de quem se sabe derrotado e só quer descansar, foi sentindo no olhar fingido de seu interlocutor de que não adiantava mais nada, foi se acostumando com o fato de que certas coisas são definitivas pois ninguém vai fazer nada por elas e as nossas limitações são mais do que suficientes pra que não as resolvamos sozinhos.
Mas mesmo assim contava com todos os detalhes e enquanto o outro escrevia em seus papéis, enquanto o outro fazia o necessário relatório sobre o acontecido com o olhar fingido de interesse, devia de ser uma estória interessante de se ouvir, e o outro deixou cair no chão a caneta fazendo um barulho ensurdecedor que o distraiu e foi preciso este barulho pra ele perceber que já não adiantava mais reclamar, que tinha perdido as esperanças que o que agora restava era esquecer tudo e ir embora, ir embora pra casa e fingir normalidade. Mas como, com tudo mudado?
Mas ficou. Ficou a contar os últimos detalhes. Já tinha decidido esquecer tudo mas algo o empurrava a terminar de contar ao fingido interlocutor o acontecido pela última vez é certo mas como se ainda pudesse haver um pouco, um pouco que seja, de esperança naquilo e como se a acostumar-se, a convencer-se finalmente, de que na realidade nenhuma esperança ainda há. 
A caminho de casa.
Riu sozinho ao lembrar que foi preciso o barulho ensurdecedor da caneta caindo ao chão para convencê-lo de algo que as outras pessoas já teriam se convencido, para se convencer de que tudo foi inútil. Foi preciso isto para se convencer de que era na realidade um inútil, que não tem o domínio de sua vida, nunca teve. Muitas coisas a influenciar e...
Chegou em casa desesperado. Estava tudo silencioso, foi ao quarto, voltou, olhou a poltrona vazia e sentiu falta dela, de seu abraço, seu calor que há tanto tempo não sentia. 


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[Esse conto aparece no meu livro "Contos que Conto", publicado em 1991.]

quinta-feira, 23 de julho de 2015

O dia em que quase ganhei milhões...



Era um voo curto entre Leon, no México, e Houston, nos EUA, em um aviãozinho Embraer EMB-145 com três assentos por fileira e eu estava no assento isolado, sem vizinhos para atrapalhar minhas leituras ou o tão necessário sono, que tinha sido uma semana cansativa.
Só que minha poltrona não ficava na tal famosa “upright position” aparentemente tão importante para pousos e decolagens.
Naquela checagem final antes de levantarmos voo, a aeromoça, uma abuelita mexicana de cara enfezada, passou por mim e mandou-me colocar o assento nessa tal posição. Eu disse a ela que não conseguia, que estava quebrada e ela até que tentou também forçar o assento e, ao final, desistiu, não sem antes me lançar um daqueles olhares de profunda censura.
Hora e meia depois, na preparação para o pouso, lá vem a abuelita de novo.
“Senhor”, ela disse, ”você precisa colocar a poltrona na posição vertical”. Olhou-me desafiadoramente. Já estávamos em espaço aéreo texano e isso deve ter despertado nela o seu mais profundo instinto de duelar. Eu voltei a afirmar que a poltrona estava quebrada e até mostrei minha dificuldade em fazê-la ficar na posição que ela tanto queria.
E aí, aí vem a frase chave desse pessoal, a que te joga contra a parede e te deixa na defensiva, sem sequer possibilitar resposta alguma racional...
“Senhor, é para a sua própria segurança!”
Escutei isso, já intimidado e como se fosse a minha culpa, como se eu tivesse optado por viver na insegurança eterna... Mas sei, é para a minha própria segurança, assim como ser apalpado por mãos rudes antes de embarcar, ou ser revistado ou ter que tirar o sapato sem nenhuma explicação coerente. Para minha própria segurança, o Obama ter acesso a todas as minhas senhas bancárias... 
Tenho meus sonhos, e um deles é poder usar essa frase chave, definitiva, para se resolver, a meu favor, algum questionamento. Parece que inibe quem a ouve, transfere responsabilidades, te joga indubitavelmente na defensiva.
Mas epa! Se é para a minha própria segurança e a companhia aérea não me permite tê-la, visto que não fui eu que quebrei a poltrona, quer dizer que a companhia não se importa a mínima com a minha segurança. Sim, um bom advogado e eu posso ser indenizado em milhões de dólares por conta de uma companhia que não preza pela segurança de seus passageiros. Talvez até uma indenização moral por preconceito contra pessoas, digamos assim, um pouquinho acima do peso. Foi constrangedor receber o olhar raivoso da abuelita que, naquele momento, representava sim toda a companhia aérea.
Olho no olho com a abuelita, ambos prontos para sacarmos nossas armas, era nisso que eu pensava. Ela olhou de lado e acho que adoraria poder encontrar um assento vazio para me alocar ali, seria sua vitória final, inquestionável. Mas, peraí, o voo estava cheio!
Não, entrar em uma discussão com a abuelita sobre responsabilidade de segurança de passageiros não estava em meus planos e, além do mais, o livro estava tão interessante... Alternativas? Sorrir ou ignorar.
Sorri.
E ela, inesperadamente, talvez se lembrando agora dos netinhos que a esperavam em casa, também sorriu e duelo não houve.
Ao desembarcar, todos em segurança, troquei com a abuelita um amistoso, quiçá até carinhoso, boa tarde... Retribuiu-me com um largo sorriso. Latinos somos...