quinta-feira, 16 de maio de 2019

iba áles, onze (parte II)


Prezado Editor-Chefe da Revista,
         
          Agradeço inicialmente a gentil carta da semana passada em que  comunica a aceitação de meu artigo em sua prestigiosa revista. Fico muito feliz em poder divulgar esse meu trabalho nela.
Acredito que os editores da Revista ficarão muito satisfeitos em saber que eu incorporei a maioria das sugestões feitas (e enviadas em um arquivo em anexo) ao meu estudo. Realmente, elas me foram muito úteis para um melhor esclarecimento dos pontos levantados no artigo. Agradeço aos pareceristas por essa imensa contribuição.
          Há, porém, um ponto a considerar com relação à objeção levantada quanto à utilização da palavra “esquerdo” para se referir a um dos hemisfério do cérebro (em contraposição ao hemisfério direito). Não só ela está sedimentada como termo usual na área da neurociência, e por isso não seria razoável se tentar substituí-lo sem um profundo motivo para tal, como também não me parece ser um termo inadequado, mesmo nos estranhos tempos em que atualmente vivemos. Por essa razão, preferi manter a terminologia usada na área até o presente momento.
          Também, mantive minha dedicatória ao Paulo Freire, nosso educador.
          Despeço-me na expectativa de que essa versão de meu trabalho seja considerada aprovada para publicação na conceituada Revista. Com todo o meu apreço,

                                                                    Thio Therezo

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Prezado Sr. Therezo,

          Foi com uma imensa decepção que constatamos que nossas principais sugestões não foram incorporadas ao seu estudo que, diga-se de passagem, é de péssima qualidade.
          Não só por não alcançar os padrões mínimos de nosso periódico mas também por não atender às normas da BNI, comunicamos oficialmente que a Revista não irá publicar o seu pobre estudo. Em consideração, também foi levado o fato de se dedicar um estudo pretensamente científico a um sujeito banido explicitamente pela BNI.
          Gostaríamos que também chegasse à vossa atenção que, após uma longa reunião, o conselho editorial da Revista resolveu denunciá-lo junto ao MEC e entidades profissionais por ideologização acadêmica. Esperamos sinceramente que seja aberta uma séria sindicância que conclua por uma punição exemplar, servindo de alerta assim aos maus elementos que cercam os estudos acadêmicos.
          Por fim, solicitamos que não nos envie qualquer correspondência e fique ciente que se o fizer tal atitude será tratada com o devido rigor da lei vigente.

                                                             Editor-Chefe da Revista

quinta-feira, 9 de maio de 2019

iba áles, onze


Prezado Dr. Therezo,

          Antes de mais nada, gostaríamos de agradecer a sua preferência em publicar o seu último estudo em nossa revista científica. Ficamos realmente muito honrados com essa escolha.
          Como de praxe, o seu artigo foi enviado a dois pareceristas para análise e muito nos alegra dizer que ambos consideram o seu trabalho de excelente qualidade e merecedor de divulgação em um periódico de importância como o nosso. Em anexo, o prezado colega irá encontrar um documento com pequenos acertos necessários, mormente decorrentes de erros de digitação.
          No entanto, cabe-nos enfatizar um pequeno ponto que, aparentemente, passou desapercebido ao nobre colega pois temos a certeza de seu necessário conhecimento da recém publicada BNI pelo MEC. Temos também a convicção de que o renomado colega não irá se opor a realizar pequenas e irrelevantes modificações intentando com isso se adequar plenamente às normas contidas na BNI.
          Logo na introdução de seu excelente artigo aparece a frase “... analisar o mito dos hemisférios do cérebro...”. Entendemos a sua preocupação em desmistificar certos conceitos arraigados na neurociência, mas acreditamos que a palavra usada (mito) vem carregada, nessa frase específica, de uma conotação negativa, o que não é condizente com a terminologia atualmente utilizada nas redes sociais. Sugerimos, simplesmente, substituir a palavra “mito” por outra de igual valor mas que não propicie o surgimento de qualquer polêmica online quanto a possíveis mitos que lá transitam e habitam.
          Mas talvez isso seja apenas a ponta do iceberg dos problemas que vemos com relação aos termos utilizados em seu pertinente trabalho. Não interprete, caro colega, nossos comentários como críticas à metodologia de seus estudos, mais do que correta e igualmente inovadora para se dizer o mínimo, nem tampouco reparos às conclusões a que chegou ao final dele. Suas conclusões, enfatizamos, merecem todo o nosso apreço por propiciar, isso sim, uma rica e profunda discussão em relevantes questões em nosso ambiente acadêmico.
          Nosso ponto é que, ao longo do texto, você se refere às características positivas de cada um dos hemisférios do cérebro. Nada há a objetar quanto a essas características no que se refere ao hemisfério direito do cérebro, inclusive incentivamos um maior aprofundamento em suas descrições. Quanto ao outro hemisfério, é preciso, porém, um cuidado nas palavras utilizadas, mormente as de cunho positivo, visando a devida adequação à Base Nacional Ideológica acima referida. É base dessa Base evitar que certos conceitos ideológicos voltem a interferir no bom andamento do ensino e da pesquisa nesse país e temos a certeza de que o reputado colega sabe a qual termos estamos nos referindo E, convenhamos, as mudanças que estamos sugerindo não são nada que um pesquisador premiado e maduro como o colega tenha dificuldades em realizar. Por isso, deixamos a seu inteiro encargo essas, digamos assim, adaptações à BNI.
          Apenas, e apenas isso, como sugestão gostaríamos de indicar um possível caminho, o da conceitualização dos dois hemisférios do cérebro a partir de referências espaciais. Ao invés de se utilizar as palavras “direito” e a outra, sugerimos nomear os dois hemisférios do cérebro como sendo “o hemisfério direito” e “o hemisfério direito no referencial invertido” o que, a nosso ver, pode bem caracterizar os dois lados estudados sem imputarmos em confusões desnecessárias ou impingirmos questões ideológicas a nossos estudantes. Com isso, evitamos nomear algo que a BNI reputa como extremamente nocivo à nova sociedade e relacioná-lo a valores positivos.
          Por fim, sugerimos repensar a dedicatória de seu trabalho.
          Certos de seu entendimento e na imensa expectativa de recebermos logo uma versão revisada desse importantíssimo estudo, despedimo-nos atenciosamente enfatizando todo o nosso apreço por sua vitoriosa carreira,

                                                                       Editor-Chefe da Revista

quinta-feira, 2 de maio de 2019

iba áles, dez


          - iba áles a todos!
          - iba áles... – o baixo tom da resposta até que surpreendeu alguns naquela pavilhão, mas provavelmente menos do que terem visto quem seria o palestrante da noite. Na chamada daquela sessão havia mistério quanto a quem falaria a todos, qual testemunho ouviriam eles e assim que o dito cujo foi chamado e subiu ao palco trocas de olhares surpresos percorreram silenciosamente o recinto. Mesmo sem entusiasmo, mas obedientes como deveriam ser nesses novos tempos, ninguém foi visto de boca fechada na resposta ao usual cumprimento.
          - eu sei que sou um abençoado – o jovem começou sua fala – desde quando criança sei disso. Desde o dia em que fui salvo enquanto meus parças sucumbiram. Desde o dia em que soube qual missão teria que cumprir.
          O silêncio persistia, nem pensamento ousava se manifestar, vai que ele é mesmo abençoado e percebe o desconforto alheio. Melhor esperar, melhor guardar para si o que não se deve compartilhar nesses tempos de tantas pseudo-verdades.
          - conto, conto como foi e vocês poderão julgar o que digo, poderão ver que tenho razão. Assim é, assim deve ser, assim todos aceitarão.
          - conto sim... era menor, quatorze, treze, talvez doze anos, meus parceiros com meses a mais ou a menos do que eu, três éramos naquele dia. Queríamos o que a vitrine mostrava, o que lá reluzia, dinheiro não havia, centavo sequer, a noite naquela rua é escura, o guarda dorme cedo, uma ação rápida, uma pequena carreira, o buraco no terreno baldio quase na esquina de baixo, fácil fácil. Mas algo errado, os outros dois não escapam, tiros, o buraco, eu com a sacola, os outros dois não escapam, sangue, gritos, os outros dois não escapam...
          Ele parou de contar a história, abaixa os olhos, todos abaixam.
          - eu sabia que era abençoado, dos três só eu voltei a acordar, só eu voltei a dormir, só eu pude aproveitar o que havia na sacola, no que tínhamos conseguido com tanto esforço, com dedicação, mérito todo nosso. Foi aí que percebi que tinha sido protegido, e se assim foi, foi porque havia algo especial em mim. Foi uma revelação... iba áles!
          - iba áles – responderam sem convicção os ouvintes.
          - não posso deixar de confessar que aquilo mudou a minha vida, dias pensando, dias refletindo, o que aquilo significava? O choro dos familiares de meus parças, o caixão que por pouco não era branco, sonhos arrebentados, por que só a mim as balas não atingiram? Eu olhava a sacola com tudo o que tínhamos conquistado naquele dia e pouco fazia sentido a mim. Dias se passaram, vocês não têm noção do quanto isso mexeu comigo. Semanas, um, quase dois meses...
          Ele olhava por cima de todos, parecia refletir só para si, deram-lhe um copo d’água e ele prosseguiu.
          - o fato de ter sobrevivido é um sinal, sinal é de que alguém, em algum lugar, está velando por mim, me protegendo, me guiando para o meu sucesso, pois sou dedicado no que faço, planejo meus atos com cuidado, sou abençoado sim mas tenho mérito. Iba áles!
          - iba áles!
          - foi aí que percebi, aquilo que estava na sacola não me pertencia, quer dizer, não me pertencia tudo o que estava na sacola. Parte fiz por merecer, isso é claro, mas parte deve ser dado a quem de direito, a quem me protegeu naquele momento, direta ou indiretamente. Dividi ao meio o que havia na sacola e doei metade pra uma associação de uma comadre minha, muito justo, ela ajuda com o que pode as pessoas que têm necessidade.
          A menina, lá no meio da plateia, de repente se despertou para algo. Foi ele, foi ele, agora tinha a certeza, reconheceu a voz finalmente, que o rosto, coberto estava, a voz que a humilhou enquanto humilhado era também o seu frágil corpo. Foi ele, essa voz, mas como se atrever a falar? Justo ele que é o palestrante da noite, justo ele que tem a confiança dos doutores que nos protegem, que nos comandam. Só chorou, só restou chorar, em silêncio que ali não podia se manifestar diferente.
          - e assim é, meus amigos, nada que tenho conseguido, que venho conquistando é só meu, mesmo com todo o mérito que sei que tenho, mas seria egoísmo não reconhecer a ajuda que vem sei lá de onde. Na realidade sei de onde, tenho minhas crenças, cada vez mais forte. E por isso retribuo, com toda a minha fé e humildade. Pago meus dízimos regularmente, acho justo, sei que é por isso que sobrevivo, sei que é por isso que tenho tido sucesso, nem um tiro levei, nem uma acusação contra mim prosperou, nem uma noite na cadeia, sequer na delegacia. Sei reconhecer que abençoado sou. Iba áles, queridos!
          - iba áles – a resposta veio mais forte dessa vez, menos a menina que cobria sua boca tentando esconder seus choros e vergonha.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Querida Clarice,

outro dia mesmo, lembrei-me de ti, foi até engraçado. Eu estava empacotando meus livros (é, Clarice, estou de mudança de novo, é a nossa sina não parar em lugar algum), pois é, eu dizia que estava empacotando tudo e achei o “A hora da estrela” e foi só aí que me dei conta de que já faziam 30 anos. Clarice, 30 anos já se passaram, você acredita ? É claro que parei tudo e o reli, para desespero de minha nova companheira que tinha pressa em se mudar. Mania de pressa essa que eu não entendo, tão bom poder se esquecer da vida de vez em quando... e quase que não conseguia me concentrar na leitura tamanha aporrinhação que foi (desculpe o termo, Clarice, sei que você não gosta, mas você me conhece...). Sabe, Clarice, este exemplar tem história. Foi um presente que dei para a minha primeira namorada, depois esposa, agora ex, e que ex ! Mas sabe o que ela me disse quando abriu o presente e viu seu livro? “Mais um presente que você me dá pensando em você!” disse assim, na lata ! Nem sei se foi por isso que ela nunca o leu, e talvez tenha sido por isso que, na hora da divisão dos bens, ela preferiu ficar com o faqueiro de inox e eu com o livro que eu tinha dado. Saí ganhando, é claro. Mas preciso ir agora, Clarice, estou de mudança de novo, nossa sina. Numa dessas, a gente volta a se cruzar...

Saudades!

São Paulo, dezembro de 2007



[[ Esse conto foi escrito no aniversário de 30 anos do "A hora da estrela" da Clarice Lispector, e lá se vão outros doze anos. Apareceu publicado no meu livro "Contos&Vinténs" de 2012 (Editora AGirafa). ]]


quinta-feira, 18 de abril de 2019

O sanduíche de múfala com meléia



          Outro dia mesmo, o Thio Therezo voltou da República de Hygina cheio de notícias e preocupado.
          - Crianças, já tem gente lá confundindo Notre Dame com Nostradamus... - foi o que disse ao chegar em casa e logo emendou que tinha fome, afinal só tinha comido um filé a cavalo vegano no aeroporto (era a sua maneira de dizer que nada comera...).
          Minha mãe, sua irmã, preparou-lhe então um de seus lanches favoritos. Um sanduíche especial de múfala com cebolas roxas e veios dourados de meléia, o que lhe dava aquele sabor agridoce inconfundível e inesquecível.
          Duas mordidas foram suficientes para reestabelecer temporariamente a calma ao ativo Thio Therezo. A preocupação e a vontade de compartilhar as notícias recentes restaram, porém, presentes.
          Contou-nos da reestruturação do sistema judicial daquela República. Contou-nos de como certos procedimentos foram sendo testados nos últimos anos nos ITLs. Para quem não sabe o que são, como é bem o nosso caso, sobrinhos desatentos que somos, ITL significa Ínfimo Tribunal Local (na versão mais debochada, os tribunais de esquina).
          Prisões para averiguação, delações impostas, condenações por convicção foram alguns dos experimentos conduzidos à luz do dia, para deleite de muitos. Alianças estratégicas com outros setores da sociedade civil ajudaram para alcançarem o total êxito da missão encomendada, êxito que eleição alguma teve em tempos recentes.
          Mas o experimento que mais chamou a atenção dos superiores dos ínfimos foi o que parecia a princípio ser um mero detalhe: a bem sucedida junção no mesmo operador jurídico das funções de acusador e de juiz, o que trazia não só agilidade nos processos como também uma suposta coerência jurídica nos resultados.
          Nada mais natural, então, que os superiores dos ínfimos, que já vinham assumindo funções legislativas e policiais naquela distante república, resolvesse simplificar os seus procedimentos a partir desses experimentos.
          O Thio nessa hora parou a narrativa para lamber a meléia que ficara grudada nos dedos (quem come aquele sanduíche sem se lambuzar um pouco que seja não sabe o que está perdendo...).
          Como setores inoportunos da sociedade civil estavam questionando o primeiro mandamento higienista (“não julgarás os julgadores”), era preciso fazer algo e rápido, concluíram os superiores dos ínfimos. Nada melhor então que simplificar ao máximo os procedimentos legais: o denunciante, o investigador, o acusador, o julgador e o executor da pena devem ser a mesma pessoa para que haja agilidade e coerência jurídica no processo. Recursos, por exemplo, são avaliados pela mesma pessoa que proferiu a pena, quem melhor para tal?
          E para quem discordar, há sempre a patrulha higienista para limpar as arestas.
          Quanto ao lanche, o Thio foi presenteado com um novo sanduíche ao final de sua narrativa, esse bem mais caprichado. Ele merecia, todos merecemos um cafuné extra nessas horas, nesses tempos tão difíceis...

quinta-feira, 11 de abril de 2019

iba áles, nove


Revendo conceitos. Estudos recentes têm levado os pesquisadores a mudarem seus conceitos sobre a influência do cigarro nos organismos humanos. Conduzida pela prestigiosa Paul Stringkler University uma pesquisa de mais de dez anos de duração chegou à conclusão de que, ao invés de propiciar um aumento no câncer pulmonar, o saudável hábito de fumar dois maços de cigarros ao dia só traz vantagens ao usuário no que diz respeito ao que foi designado de “fluxo oxigênico”. Outros estudos, ainda que em fases iniciais, têm indicado resultados similares.

Revendo conceitos dois. Não só a saúde das pessoas se beneficiaria com um aumento no consumo de cigarros mas também, e principalmente, a saúde econômica da nação. Para tal, é consenso entre os especialistas que seja feita uma ampla reforma tributária no setor levando os seus, no dizer de um diretor da empresa Soza Luz, pornográficos impostos a ínfimos índices aceitáveis. Essa reforma trará, como é do conhecimento de todos, uma ampla diminuição nas taxas de desempregos no país e levará, confirma o economista chefe do Banco Crediral, a um bem estar geral jamais experimentado além de um acentuado aumento no PIB.

Reforma. O ministro-chefe do governo Heinrich Sutler salienta que a projeto de reforma fiscal para o setor de cigarros é de suma importância para a nação, mas que ele só será encaminhado para análise depois que a reforma da expectativa de vida, essa também crucial para a Economia, for aprovada pelo Congresso.

Polêmica. A respeito do projeto em análise, não é verdade, de acordo com Sutler, que esteja se tentando estabelecer um limite de idade para o atendimento hospitalar. Isso é intriga de uma parcela de velhos políticos que só querem tumultuar, acrescentou ele na entrevista dada pela manhã. A reforma da expectativa de vida só estabelece que o Estado não se responsabilizará por doentes não produtivos que tenham mais do que 65 anos. Enfatiza que esses doentes poderão ter o atendimento hospitalar desde que arquem, é claro, com suas despesas, o que é bastante razoável em uma sociedade baseada na meritocracia.

Negociação. O governo, de acordo com Sutler, está aberto a negociações quanto a aspectos técnicos da proposta.  Ontem mesmo, ele recebeu em seu gabinete vários líderes de partidos que insistiam que a idade deveria ser maior, de ao menos 67 anos, ou até mesmo 70 anos. Disposto a negociar detalhes, o governo só estabelece como ponto inegociável a economia de 1 trilhão de dólares nos próximos 10 anos. Se essa idade limite aumentar, alguma compensação deverá existir em outra parte do projeto para compensar isso.


quinta-feira, 4 de abril de 2019

iba áles, oito

          o tempo prescreve certas ações.
          e quem há de culpá-lo, ao tempo, se gavetas não o alertam sobre papéis lá esquecidos? ou se papéis lá esquecidos não o alertam sobre frases lá depositadas? ou se as frases não o alertam sobre suas palavras, dignas ou não, lá alinhadas? ou mesmo se as palavras, se esquecendo de seus significados, não o alertam sobre suas responsabilidades?
          e quem há de censurá-lo, ao tempo, pelos recessos intelectuais impingidos a tantos partícipes de homenagens e quetais? ou pelas preguiças inerentes a quem chega a tal?
          e quem há de ignorá-lo, o tempo, pelas agressivas falas havidas e consequentes desmentidos, pelo esqueçam o que já disse, pelos habituais sem comentários?
          e quem há de incriminá-lo, ao tempo, por tanta má-fé vagando ao nosso redor?
          e quem há de culpá-lo, ao tempo, pelas ausências de calendários à vista? ou mesmo de outras representações temporais?
          e quem há de responsabilizá-lo, ao tempo, pelo caldo incerto em que palavras normativas se digladiam e por vezes até naufragam? ou pelo caldo incerto que queima quem dele se aproxima com intenções outras que as já centenárias?
          e quem há de perdoá-lo, ao tempo, tantas coisas passadas, tantos aborrecimentos intercalados?
          e quem, por fim, há de culpá-lo, ao tempo, pelo quase eterno descanso usufruído pelos doutos autodeclarados guardiães?
          o tempo, quiça inocente, prescreve suas ações.

          iba áles a todos! assim finalizava o termo de prescrição...