quinta-feira, 27 de agosto de 2020

sétimo

domingo,

a notícia a acordou,

acordou mais que o estridente toque do telefone.

ainda meio que madrugada,

hora de ligar?

a editora queria uma nota.

o jovem escritor...

foi difícil escrever.

naquele momento, naquelas circunstâncias.

segunda,

homenagens,

indignações facebookianas.

o tão jovem escritor...

o talentoso escritor...

o promissor!

detalhes?

só a boca pequena.

sussurros,

entreletras,

entrelinhas,

entrepalavras,

entresensações.

sétimo andar, céu azul, sem nuvens.

queda livre.

terça,

a mídia especula.

silêncio oficial,

os amigos se calam,

os invejosos espalham rumores.

quarta,

um texto aparece.

inacabado.

mas bem dele,

seu estilo,

sua caligrafia.

o tolo escrevia a mão,

alguém invejou.

mas o último bilhete,

o testamento,

a explicação,

ele ficou devendo.

outros pensamentos,

devia ter.

outras preocupações,

deviam estar presentes.

quinta,

três dias na mídia.

mais que a média

por aqui,

por um escritor.

algum sinal é!

apesar da dor,

é preciso pensar,

preparar uma coletânea

sair logo, é preciso.

sexta,

a polícia se mexe.

esclarecer, é preciso.

ninguém quedará impune.

mas aqui,

a punição,

essa, já se fez.

sétimo,

a igreja encheu-se,

de ateus e agnósticos,

de amigos e de invejosos.

o padre falou,

de mistérios falou.

olhos multicoloridos e úmidos,

abraços carinhosos,

abraços fingidos,

apertados ou não.

a gente se vê...


[[Em 2019, além de ter publicado "outros tantos" pela PENALUX, também publiquei um pequeno livreto chamado "as nuvens amortecem a queda" pela Sangre Editorial dentro da coleção 32. Feita artesanalmente em Buenos Aires e com 32 folhas apenas, esse livreto é bem especial, ainda mais que contém alguns contos que me agradam muito. Estou publicando aqui o seu conteúdo: cinco contos (ou assim eu os vejo) e seis aldravias (que publicarei todas juntas ao final). O dessa semana é o quarto conto. Espero que gostem.]]



[[Outra coisa. No dia 9 de agosto último, eu fui entrevistado por Adriana Mayrinck dentro do projeto Toca a Falar Disso coordenado por ela e pelo Emanuel Lomelino (ambos da In-Finita). A entrevista agora está disponível no YouTube, basta clicar aqui.]]

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

avô


- Pai, por que você é avô?

Os olhos amendoados daquele tiquinho de pessoa me pegaram de surpresa, seu sorriso, que merda! Olhos e sorrisos me lembravam constantemente da mãe, vontade de chorar de saudades, de desespero, de impotência... mas é hora de me recompor, isso sim, de sorrir de volta e sutilmente desviar o assunto.

Não tenho problema em parecer mais o seu avô que seu pai (a merda é parecer quase um bisavô...), mas essa pergunta, sei, levará a outra e a outra mais e chegaremos à mãe, essa sim mãe, e não avó.

Como dizer àquele tiquinho de gente, cabelos encaracolados, lábios grossos como os dela (e que saudades!) e olhar profundo, como falar o que realmente aconteceu à sua mãe? Falar de minha incompetência em lidar com sua depressão?

- Pai, por que você é avô?

- Não sou, sou o lobo que vai devorar a minha titikinha... – e me jogo em cima dela fazendo cócegas. Ela nem percebeu minha lágrima furtiva, tão compenetrada estava em gargalhar e sair correndo para o seu quarto deixando-me desconsolado no chão da sala...

Levantei-me, merda de juntas que resolvem doer nessas horas... enxuguei minha lágrima, olhei a janela por onde ela pulou...


[[Em 2019, além de ter publicado "outros tantos" pela PENALUX, também publiquei um pequeno livreto chamado "as nuvens amortecem a queda" pela Sangre Editorial dentro da coleção 32. Feita artesanalmente em Buenos Aires e com 32 folhas apenas, esse livreto é bem especial, ainda mais que contém alguns contos que me agradam muito. Estou publicando aqui o seu conteúdo: cinco contos (ou assim eu os vejo) e seis aldravias (que publicarei todas juntas ao final). O dessa semana é o terceiro conto. Espero que gostem.]]



[[Outra coisa. No dia 9 de agosto último, eu fui entrevistado por Adriana Mayrinck dentro do projeto Toca a Falar Disso coordenado por ela e pelo Emanuel Lomelino (ambos da In-Finita). A entrevista agora está disponível no YouTube, basta clicar aqui.]]


quinta-feira, 13 de agosto de 2020

certezas



a porta, aberta.

ela e a menina. 

as duas, me olhando.

olhar de uma e de outra, mesmo olhar, porém.

saudades dela, não digo.

ela tampouco disse algo. 

disse nada, muda.

só o olhar, os olhares, das duas.

entraram. 

a porta, agora, fechada.

ficaram.

um dia, quero saber.

é sua, insinuou-me um dia.

outro dia, me disse, nossa. 

é nossa, garantiu.

fez sentido.

faz sentido, até parece meu sorriso. 

parece sim.

ficaram.

era minha, agora insistia, certeza tinha.

mas será que conto? 

será que estrago suas ilusões?

medroso, calo. 

mudo fico.

apesar de tudo, bom tê-la, bom tê-las por perto.

mas a menina não é minha, certeza tenho eu.

vivemos, então, par de anos.

mas nenhuma nuvem, 

nenhuma delas amorteceu a queda.

nem a dela, nem a minha.



[[Em 2019, além de ter publicado "outros tantos" pela PENALUX, também publiquei um pequeno livreto chamado "as nuvens amortecem a queda" pela Sangre Editorial dentro da coleção 32. Feita artesanalmente em Buenos Aires e com 32 folhas apenas, esse livreto é bem especial, ainda mais que contém alguns contos que me agradam muito. Estou publicando aqui o seu conteúdo: cinco contos (ou assim eu os vejo) e seis aldravias (que publicarei todas juntas ao final). O dessa semana é o segundo conto. Espero que gostem.]]



[[Outra coisa. No dia 9 de agosto último, eu fui entrevistado por Adriana Mayrinck dentro do projeto Toca a Falar Disso coordenado por ela e pelo Emanuel Lomelino (ambos da In-Finita). A entrevista agora está disponível no YouTube, basta clicar aqui.]]



quinta-feira, 6 de agosto de 2020

as nuvens


 

eles se cruzavam no corredor, final da tarde.

na terça, se beijaram.

na quinta, novo enrosco.

barulho, ela se assustou.

escuro de uma sala, ruído.

na sexta, ainda assustada, ela sugeriu um drive-in.

ele sugeriu um motel, mais confortável.

ela disse que ainda não,

ainda não queria fazer amor com ele.

ok, prometeu.

foram ao motel, ele respeitou, cumpriu.

se enroscaram, se acarinharam.

conversa furtiva.

ela seguiu ao banheiro, a porta translúcida.

ele a viu, fixou o olhar.

ela fingiu não perceber.

ela ainda de vestido, sapatos jogados ao canto.

ele ainda vestido, sapatos jogados ao canto.

viu a sombra dela se despir, no translúcido,

ligar o chuveiro,

quase que sentiu a água em seu corpo.

ele entendeu.

despiu-se, entrou no chuveiro.

ele a viu se banhar, corpo tão jovem.

ela não abaixou o seu olhar, mas sorriu.

o olhar só olhou seus olhos, mas só daquela vez.

viriam outras, mais confiantes.

amaram-se.

e muitas outras noites mais.

dia, soube sua opinião dele: “um cafa, você é!”

que fizera amor com ele por curiosidade.

“mas gostou?” ele perguntou.

“se não tivesse, nunca mais”, a resposta.

 

frequentemente discutiam, brigavam.

após mágoas mútuas, “tudo acabado”, ela dizia.

nunca mais vê-lo, nada mais ter com ele.

rogava pragas e completava:

“não se preocupe, as nuvens amortecem a queda...”

tão frequente quanto, voltavam a se entender.

reconciliação, amavam-se.

“foi curiosidade ou vontade?” ele perguntou.

resgatar o começo, resgatar o vivido.

imensa expectativa de não perdê-la.

curiosidade ou vontade?

“curiosidade... já te falei...”

“... falou...”

“... mas depois vontade, muita vontade...”

trocavam então sorrisos

e toques

e carícias

e gozos.

frequentemente brigavam...

não se preocupe, as nuvens amortecem a queda...

amor, amavam-se.

a ele, ela parecia bem ao seu lado.

olhar, toque, carícias e gozos, tudo indicava isso.

“curiosidade ou vontade?”

“curiosidade, você sabe...”

“... eu sei...”

silêncio incômodo, dessa vez nada mais que silêncio.

briga, mágoas, as nuvens,

a expectativa, o amor.

“curiosidade ou vontade?”

“curiosidade... você sabe...”

“sei...”

“... e vingança...”

o complemento veio rápido demais.

“vingança? como assim?”

“é, vingança... vingança... dela...”

“como assim, vingança? ela? quem?”

“... você sabe... ela...”

brigaram, algo mal resolvido.

ela se disse vingada, ele ficava confuso.

não se preocupe, as nuvens...

o incômodo durou, mas passou.

ela se reafirmou vingada, ele acreditou.

não faria sentido o contrário.

“curiosidade ou ...?”

“curiosidade... vingança... e...”

ela não lhe permitiu o final da frase.

“... só isso?”

silêncio absurdo, ele percebeu, se retraiu.

ela era assim, manipulava.

“as nuvens amortecem, não se preocupe!”

uma cama especial e inesperada.

um vinho antes, um colo, uma noite e a expectativa.

“curiosidade?”

“é...”

“só?”

silêncio.

“só?” ele insistiu.

“... não, tem mais...”

“mais o que? vingança?”

“... não, vamos mudar de assunto...”

dessa vez, ela o esnobou por mais tempo...

quase que não havia nuvens, queda livre com certeza.

tempo sem se verem.

por fim, ela o procurou,

já tinha se aborrecido demais por aí.

queria testar fazer amor com ele,

ver o que ainda sentia.

ele, surpreso,

ele, ansioso,

ele, muita vontade.

amaram-se.

gosto amargo em sua boca, dele.

“curiosidade?”

silêncio.

“me fala? o que foi?”

mais silêncio.

“me diz?”

“digo... medo!”

“medo? como assim?”

“medo... medo... você nunca sentiu?”

“sei o que é medo, mas medo do que? me diz...”

silêncio, confusão.

“me diz, por favor...”

“medo de você...” ela sem pena,

aos olhos úmidos dele.

“de mim? como assim? você teve medo de mim?”

silêncio, espanto, agonia.

“... medo... medo... não entendo...”

“medo de você me bater!”

“eu? te bater? de onde tirou isso?”

“... medo de você me prejudicar...”

“ãh? eu? prejudicar? parece que não me conhece...”

silêncio.

o excesso de nuvens talvez até ajude,

talvez amorteça a queda...

“curiosidade?”

“medo, já disse, tive medo...”

“e ainda sente?”

silêncio.

“... e ainda sente?”

lágrima escorrendo por seu rosto.

olhar firme o dela, lábios confiantes.

silêncio, e mais silêncio. e mais silêncio...

ela o esnobou pela última vez.

quer saber?

a última decepção que sobrou,

as nuvens não amortecem a queda.



[[Em 2019, além de ter publicado "outros tantos" pela PENALUX, também publiquei um pequeno livreto chamado "as nuvens amortecem a queda" pela Sangre Editorial dentro da coleção 32. Feita artesanalmente em Buenos Aires e com 32 folhas apenas, esse livreto é bem especial, ainda mais que contém alguns contos que me agradam muito. A partir dessa semana, vou publicar aqui o seu conteúdo: cinco contos (ou assim eu os vejo) e seis aldravias (que publicarei todas juntas ao final). Espero que gostem.]]




quinta-feira, 30 de julho de 2020

Máscaras

            O corredor agora está cheio de máscaras mas nem sempre foi assim. Quando crianças, quadros de ancestrais e pinturas de artistas de ruas ornamentavam suas paredes e nos atormentavam enquanto, a contragosto de nossos pais, disputávamos corridas de patins, meu irmão e eu. Eufemismo, eu sempre perdia para ele, assim como ainda hoje perco, sempre.

            Hoje, na casa imensa, mas felizmente renovada, só vivemos minha filha adolescente e eu seu pai tardio e solteiro e isso graças às benevolências dos parentes ainda vivos mas que nunca aparecem para nos visitar. Herdeiros como eu, eles, vez ou outra, me recordam de suas participações na casa e no quanto são generosos em me deixarem viver aqui sem pagar aluguel.

            Sorrio de tudo isso e sigo vivendo. Em todo o caso, por precaução, mantenho uma autêntica carranca de metro e meio virada para a porta da rua. Dizem que afugenta os maus espíritos e ajuda na navegação tranquila.

E o corredor, agora, exibe parte de minha expressiva coleção de máscaras, cores, feitios e utilidades os mais variados possíveis.

            A primeira, lembro bem, comprei de uns índios no Peru, naquela viagem maluca que fiz até Machu Picchu. O índio velho e enrugado contou-me a história daquela máscara colorida e com chifres que me chamou a atenção tão logo eu a vi. Algo relacionado a uma antiquíssima festividade religiosa em que os participantes a vestiam para afugentar os maus fluidos e pedir a boa colheita que tanto necessitavam. Era uma máscara até que comum no grande mercado de Cusco mas aquela específica, o índio enrugado garantia, tinha sido usada pelo grande... (não insistam, não conseguiria lembrar ou mesmo repetir tal nome), ancestral de inúmeras décadas, talvez séculos atrás. Por isso, o preço que cobrou, mesmo depois da usual negociação comum naquelas bandas em que os valores caem em geral a um terço do inicial.

            Cobrou caro a primogênita máscara, quase todo o extra que tinha para a viagem foi-se naquela compra, mas eu precisava muito de algo que me recordasse para sempre essa  aventura. Tão logo cheguei ao hotel, ansioso, eu a vesti. O espelho refletiu, e ainda reflete nas vezes em que me atrevo a vesti-la, toda a minha esperança por boas colheitas. Elas ainda virão, tenho a certeza, mesmo me tornado mais e mais descrente a cada dia que vivo.

            Tempos depois, em um desses tais Guias Michelin lá estava a foto de uma máscara igual à que comprei ilustrando a história que ouvi do enrugado índio. Nunca soube se o guia tinha feito também o mesmo trajeto que eu e ouvido esse relato lá no mercado de Cusco ou se foi o índio que conheci que o lera no Michelin.

Tanto faz, na realidade. Nada se cria, tudo se reconta...

O que não tanto faz foi eu contar à minha pequena essa, e outras, histórias que acompanham as tantas máscaras agora pregadas e aparentemente inertes nas paredes da grande casa. Sou um colecionador sim, de máscaras e de suas histórias, encantam-me saber o que há por trás delas e dessa nossa eterna necessidade de ser algo que não se é.

Foi a pequena, porém, que desmascarou (se me permitem o abuso linguístico) meus desejos quanto a essa mania. Depois da enésima máscara que vestia para impressioná-la, ela me disse do alto de seus oito anos de então que eu era um pai diferente a cada máscara vestida.

- Então você tem centenas de pais diferentes – foi o que consegui responder.

- E eu gosto de cada um deles – seus olhinhos brilharam e os meus se umedeceram.

O fato é que depois daquela primogênita máscara peruana envolvi-me em uma busca alucinada e, a cada lugar que visitei e foram tantos por conta das viagens que minha profissão permitia, a cada lugar, exótico ou não, eu procurava em bazares, mercados ou mesmo em lojas para turistas, tudo que pudesse ser uma máscara. Pretendemos sempre ser algo distinto e a máscara nos permite isso, foi o que ouvi de um psicanalista uma vez. Um tanto quanto lugar comum, mas vá lá, serve para o gasto desse inofensivo relato.

Com o tempo, os quadros dos ancestrais e dos pintores de rua foram dando seus lugares às máscaras compradas aqui e ali. Tantas foram que as paredes do longo corredor de casa não foram suficientes e, hoje, elas estão por todas as partes, todos os cômodos, banheiros inclusive, nos observando a cada passo que damos, a cada gesto que insistimos em fazer, trazendo sorte ou não, impingindo suas expectativas positivas ou não, interferindo em nossos cotidianos.

Só de máscaras da fertilidade tenho uma centena e, por alguma razão, foram as que mais atraíram a curiosidade de uma jovem amiga que me visitou um dia. Uma coisa leva a outra e nos amamos aquela noite, vestidos cada um uma correspondente máscara da fertilidade. A dela, vindo do extremo oriente e a minha, asteca.

Não sem razão, a bebê nascida dessa exótica experiência traz em seus genes um misto de características que só se explica por essa combinação, quiçá esdrúxula, no momento de sua concepção.

A diferença de idades entre nós dois, minha amiga e eu, até justifica nossa precoce separação e a menina ficou morando comigo. Mesmo porque, um ano e pouco depois do nascimento, a mãe dela despencou do alto de um prédio junto ao namorado quando tentavam fazer um selfie aventureiro. No dia nublado, nem as nuvens amorteceram a queda dos dois.

Paciência, pude desfrutar do crescimento da pequena em sua plenitude. E, na medida em que ela crescia, fui introduzindo-a às máscaras, muitas das quais infantis, e por que não seriam? A cada dia, a cada tarde de férias passada naquela casa, escolhíamos algumas delas para vestir e brincar, inventar estórias e seguir vivendo nossas fantasias, pretendendo sermos seres distintos, entes imaginários.  E sigo buscando e comprando máscaras por onde passo, agora com novas motivações. Estão sendo sim os melhores anos de minha vida.

            Se pudesse, sairia à rua com uma máscara apropriada a meus sentimentos do dia, uma que combinasse com a maneira que eu gostasse de ser visto naquele dia, e máscaras não faltariam para tal variedade de humor. A cada dia, todos veriam um novo eu, imagem refletida de porcelana, papel ou até mesmo plástico, que variedades não faltam em minha coleção.

            Hoje, eu retornei de mais uma viagem, sempre me prometo que será a última, cansado que estou. Chego em casa escutando o silêncio da solidão e penso que minha pequena deve ter saído. Malas ao chão e ouço um zumbido vindo da sala ao final do corredor, convencendo-me do contrário, ela está sim em casa.

Percorro-o mais uma vez, vigiado por tantas histórias de esperanças penduradas em suas paredes até chegar aonde se encontra a minha adolescente filha. Ela testa um tal de VR, virtual reality. Eu a vejo atrás daqueles óculos que mais parecem um equipamento de mergulho e isso nada diz sobre ela. Ela sim me olha e, em uma realidade transformada, deve ver um pai diferente, moldado agora à sua vontade. Quase que não vejo o seu pequeno sorriso enquanto fico parado à porta. Mas sinto que não faria efeito algum vestir agora qualquer das máscaras que possuo, impossível mascarar minha imagem frente ao que aquele aparelho diz à minha filha.

            Eu me submeto então a essa nova realidade e resigno-me.



[[Escrevi esse conto para a coletânea Ideários organizada pelo poeta português Alvaro Giesta e publicada em 2019. Foi uma alegria participar dela, em ótima companhia literária.]]

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Quatro estrelas


          Algumas semanas atrás, eu mencionei a atuação do Thio Therezo como chef de cozinha e muitos leitores ficaram curiosos sobre os bastidores por trás da história das quatro estrelas que seu restaurante recebeu no Guia Michelin.

          O Thio já era um chef famoso quando isso aconteceu, livros seus de culinária já eram consolidados best sellers da área. Títulos como “As insanas ousadias do senhor cozinheiro e suas cruéis assistentes” ou “Carnificinas e veganismos” não só se tornaram clássicos da auto-ficção, onde parte de sua infância é contada intercalada com receitas inovadoras, como também um legítimo percursor da culinária saudável tão em moda nesses dias confusos. Ambos livros foram ganhadores de prêmios Jabuti e ambos, aliás, ganhadores em três categorias cada (as suas ilustrações, obras primas do próprio Thio, foram consideradas imbatíveis nos anos em que disputaram o prêmio).

Aliás, tantos Jabutis ele ganhou ao longo de sua vida, não só por seus escritos de culinária mas também em inúmeras outras áreas, que ele em um dado momento até criou uma imbatível sopa de Jabuti, carro chefe de um de seus restaurantes por muito tempo. Mas isso é outra história, cá estou eu desviando-me novamente do assunto principal.

Pois bem, a história da quarta estrela do Michelin começou depois do concurso internacional de Comida Minimalista que o Thio ganhou (o famoso IMF- International Minimalist Food Contest). O seu prato, chamado de Repasso Bandeirantes, não só, por decisão unânime, abocanhou (esse é o verbo certo nessas horas) o primeiro prêmio como também fez o maior sucesso ao longo dos anos que a ele se seguiram.

          O prato? Minimalista como requeriam as regras do concurso, o prato consistia de um feijão carioquinha, sim, um grão de feijão, combinado com três grãos de arroz branco, um grama de paçoca de carne e espuma de ovo frito. O diferencial, era só provar para perceber, estava no extravagante e ultra secreto tempero do feijão. Nada de extraordinário quanto ao arroz e mesmo a paçoca era uma simples paçoca bandeirantes, tradicional como o que nossa avó fazia e que mamãe, irmã do Thio, repetia em sua plenitude (coloquei essa receita na semana passada aqui mesmo no blog). Quanto à espuma de ovo frito, uma daquelas usuais provocações do Thio aos grandes chefs espanhóis.

          Havia algo de mágico na disposição dos alimentos no prato. Antes de mais nada, um prato elipsoidal onde o feijão deveria ocupar um de seus focos (o Thio, aliás, mandou um de seus mais diletos discípulos fabricar tais pratos, tendo entregue a ele as medidas entres os focos e os tamanhos de seus eixos, tudo equilibradamente proporcional). Bom, o feijão não deveria ser disposto nesse foco de forma aleatória, deveria repousar lá formando um ângulo de 34,7º com relação ao eixo principal. Os três grãos de arroz têm que estar dispostos de tal forma que aparentassem aleatórios, mas isso se constituía como uma mera ilusão de ótica, pois nada é essencialmente aleatório nesse mundão de deus. Eles deveriam sim, estar dispersos no prato mas de tal sorte que suas distâncias ao feijão mantivessem uma exata proporção áurea. Claro que os arrozes devem todos estar com seus eixos principais virados para o centro do feijão. Dentro desse quadrilátero imaginário formado pelos arrozes e o feijão estariam a paçoca e a espuma de ovo frito, esses sim dispostos com uma total liberdade dentro desses limites (o Thio odiava o autoritarismo culinário, por mais paradoxal que isso possa parecer ao se ler a descrição acima). Apesar de toda essa tecnicalidade, o visual resultante era, diziam, magnífico. Eu pessoalmente não tive a oportunidade de ver, infelizmente.

          Em todo o caso, para ilustrar esse texto, fui atrás de uma imagem do prato vencedor e até apelei para o Thio. Apesar do tempo que se passou e também das inúmeras decepções que o abateram à época, o Thio ainda se recorda bem da história por trás desse prato. Movidos pela inveja usual que muitos têm dos vencedores, todas as imagens foram sendo destruídas por seus inimigos, em uma clara tentativa de revisionismo histórico. Não só as imagens, mas também a reputação do Thio era massacrada a partir do que a gente chamaria, nos dias atuais, de fake news.

Era uma época ainda sem internet, e nem mesmo as fotografias tiradas pelo Thio sobreviveram, visto que sua máquina fotográfica, contendo o filme ainda a ser revelado, desapareceu do hotel onde ele estava hospedado. Ganho o prêmio, houve um massacre midiático ao Thio e seu restaurante patrocinado por uma dita elite culinária. Há quem diga que haveria por trás disso uma preocupação econômica, aliás como tudo o que move nossos dias. Se os pratos fossem minimalistas, haveria perdas para os produtores de comida, tão acostumados em nossa sociedade ao desperdício. Com essa motivação ou não, o ponto é que, baseados em fofocas, muitos ataques injustos mas constantes foram direcionados ao Thio.

Por um tempo, por conta desse prêmio e pela consequente quarta estrela concedida pelo Michelin, o restaurante sobreviveu e bem. A propósito, a quarta estrela, raridade na trajetória deste guia, era o mero reconhecimento da suprema qualidade que o restaurante do Thio adquirira ao longo de anos de vida. Lembro-me bem, apesar de pequeno, da festa que os promotores do guia fizeram quando da entrega.

          Mas, vivemos em uma comunidade onde informações distorcidas, desprovidas totalmente de bases reais, de tanto serem repetidas por certos meios, acabam influindo a opinião pública. Tanto bateram no Thio que, ao final, o próprio Guia Michelin rebaixou a classificação para três estrelas. Houve comemoração generalizada e, ironia, o único restaurante brasileiro com três estrelas do Michelin era considerado nos meios jornalísticos como um perdedor, um perdedor de uma quarta estrela.

          Nunca ninguém tinha presenciado tal massacre midiático baseado em evidentes e manipuladas falsidades. Claro que, muito tempo depois, na vizinha República de Hygina, um massacre de iguais proporções levou a um golpe contra uma presidenta legitimamente eleita, mas menciono isso apenas a nível de comparação, longe de mim querer entrar em tais detalhes nesses tempos atuais.

          O restaurante foi alvo de ataques físicos e, para preservar os seus fiéis clientes, o Thio acabou encerrando sua aventura culinária de então. Ele ainda, para nosso imenso deleite, prepara suas receitas maravilhosas. Nada de minimalista, no entanto, a melhor culinária do Thio baseia-se em fartura de produtos naturais e um tempero que além de saboroso preenche a casa com sua generosa fragrância.


quinta-feira, 16 de julho de 2020

Máquina de moer

         Se há algo que sobra nesses tempos de quarentena são as lembranças. Não importa o quanto de trabalho ou de preocupações que se tenha nesses malucos dias atuais, nossa mente sempre acha um escape para lembrarmos de coisas que nos marcaram no passado. No meu caso, uma parte significativa dessas memórias tem a ver com lembranças culinárias, de receitas que minha mãe fazia, memórias olfativas, paladares e visuais.

Ingenuamente, eu agora tento repetir aquelas tantas receitas que se grudaram em minha mente. Descubro que, por mais que me dedique, elas nada mais serão que meras tentativas, visto que nunca irei conseguir reproduzir totalmente seus sabores e os seus cheiros, e tampouco aquele carinho que mamãe sempre teve ao fazê-las. E isso, faz toda a diferença.

          Mas eu me esforço!

          Outro dia eu me lembrei de uma máquina de moer que mamãe usava tanto para fazer uma rústica paçoca de carne quanto para uma deliciosa rapadurinha de amendoim, duas receitas que não negavam a sua origem do interior paulista. Ela tinha nascido em Itu e vivera em uma fazenda quando criança.

          É claro que essas lembranças me atazanaram a mente até que eu me rendesse à vontade de fazê-las. Vamos lá. Para a paçoca de carne, digamos que precisaremos de meio quilo de carne que pode ser colchão mole ou lagarto, cortado em tirinhas (não precisam ser muito finas pois elas vão depois ao moedor de carne). Aí você frita essa carne em um pouco de óleo com uma cebola cortada em tiras (novamente, não precisam ser pedaços muito pequenos), salsinha, cebolinha, sal e pimenta a gosto. Minha mãe usava esses temperos, cozinha rústica é assim, mas acho que dá pra gourmetizar um pouquinho, se quiser, colocando outras ervas ou fritar em azeite ao invés de óleo.

Não me lembro de minha mãe colocar bacon nessa mistura, mas uma de minhas tias faz dessa forma. A gosto do cliente. Uma vez frita a carne, misture-a com flocos de farinha de trigo e aqui é que são elas, vai meio no olho, o suficiente para que a mistura resultante não seja só carne mas também não pode ser só a farinha. O famoso um bom bocado de flocos de farinha de milho. Precisão aqui é tudo... rsrsrs. Se precisar, coloque mais óleo na panela e deixe fritar tudo um pouco mais antes de passarmos à última etapa.

          Com essa mistura já frita e já um pouco esfriada, passe inicialmente a carne com cebola em um moedor de carne manual. Claro que os modernos podem usar um processador/moedor elétrico, mas qual a graça? O melhor é aquele manual (e de ferro, não o de alumínio) que a gente encaixa no granito da pia e move a manivela, coisa de fazenda. Na primeira moída vai só a carne com a cebola. Se quiser mais moído, pode passar tudo isso uma segunda ou mesmo uma terceira vez. Em uma última passada pela máquina, coloque a carne já moída junto com tudo o que ainda sobrou na panela, incluída aí a farinha de milho frita. Pronto, a paçoca está pronta!

Não esquente (nem a cabeça, nem a mistura), coma-a morna com arroz e feijão ou com uma couvezinha picada e refogada na manteiga ou mesmo com uma banana. Comida de Bandeirantes, como se dizia lá em casa. Eu particularmente comia a paçoca solo, sem acompanhamento.

          E, depois de lavar a máquina de moer carne, pode usá-la para fazer uma outra receita, essa doce. Mas quem tem diabetes ou tendência de engordar está aconselhado a parar a leitura por aqui.

          Vamos lá. Ponha um litro de leite (o integral é melhor, ou tipo A para os antigos, o ideal) para ferver e assim que a espuma começar a subir, abaixe o fogo e junte um quilo de açúcar (eu avisei... é um doce para os formigões...). Deixe cozinhar bem até ser possível se ver o fundo da panela depois de uma passada rápida de colher. Esse ponto você vai aperfeiçoando com o tempo, no caso, claro, de você ter coragem de encarar outras vezes essa maravilha da culinária extremamente doce.

Nesse momento, você já terá um pacote de meio quilo de amendoim torrado no forno e passado um par de vezes pela máquina de moer (a mesma que você usou para a paçoca de carne, mas depois de lavada). Pode moer o amendoim com casca e tudo que isso irá dar uma coloração mais rústica ao doce, mas se tiver paciência de descascá-lo, não serei eu a impedir. Junte esse amendoim moído ao leite açucarado, deixe cozinhar mais um pouco e, ainda quente, espalhe sobre um mármore untado com manteiga. Deixe esfriar e corte em pequenos losangos. Era a minha sobremesa predileta quando criança e mamãe sabia disso. Há a variação sem amendoim (puro açúcar!) e a com chocolate que eu nem gostava tanto assim.

          Esse, definitivamente, não é um doce para amadores, é para os profissionais...

          Quando a quarentena começou, tive a estúpida pretensão de tentar não engordar e não é que estou conseguindo me manter no meu peso meio gordinho? Sei que isso poderá não durar muito pois, semana que vem, rapadurinha de amendoim a caminho... Relembrar é o que nos sobra nesses tempos bicudos.